Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O Tempo

Sinais de pontuação

Ideias

2016-03-21 às 06h00

Filipe Fontes

“O passado foi vida e esquecimento. O presente é momento que pode ser de esperança. O futuro é sonho frágil que está para breve. E o destino julgará. E nova oportunidade dará. Para tudo ser melhor…”
A contemporaneidade trouxe à cidade mudanças estruturais que, hoje, são indisfarçáveis e determinantes para a nova condição humana que, progressivamente, se instalou e consolidou nas urbes que polvilham o território.

Entre outras mudanças, “o tempo” é talvez aquela de maior lastro e impacto, tornando-se, de facto, na grande unidade de medida dos acontecimentos da cidade.
Se, outrora, tempo e distância foram duas noções distintas e autónomas, hoje, parece inegável que esta mesma distância se mede em minutos e segundos, entre o começo e o fim e não em metros e quilómetros, partida e chegada.

E se, a esta realidade, associarmos a revolução tecnológica ocorrida, que permitiu e permite novas lógicas de trabalho e comunicação, novas necessidades de presença e ferramentas de trabalho, verificamos que o tempo comanda a cidade, determinando, agora, relações e localizações, decisões e opções.

Hoje decidimos não porque dista alguns quilómetros ou metros mas apenas porque demora alguns minutos. Hoje já não precisamos de localizar os serviços nos centros das cidades (para melhor e mais fácil acesso) porque, simplesmente, por via electrónica, rapidamente acedemos aos mesmos. Hoje já não necessitamos de aproximar a residência, a escola e o local de trabalho porque o automóvel e a comunicação transformam metros em minutos e tudo facilitam.

Na verdade, tempo feito medida é, actualmente, suporte à vida humana na cidade e elemento incontornável à qualidade de vida subjacente à mesma. Todavia, “tempos” há que condicionam a vida da cidade. E não será o “bom tempo” (aquele quando estamos na integralidade…) ou o “tempo corrido” (aquele quando o dia se transforma numa sucessão de acontecimentos galopantemente sequenciais e nem sempre estruturados). Trata-se sim do tempo da existência e da memória, do tempo do projecto e do investimento, do tempo da decisão e da maturação.
E, sem querer assumir posição ou avaliação crítica, recorre-se ao exemplo que a cidade de Braga vive hoje com o cinema S. Geraldo.

Há muito que este edifício conhecia o seu tempo de hibernação - tempo de desocupação e esquecimento, sem destino ou uso, apenas com história e memória.
Hoje conhece o tempo de projecto e do investimento que, depois do tempo lento da avaliação e maturação, avança para um tempo ferozmente rápido em concretização.
E conhece dialecticamente o tempo da decisão e validação que, depois da formulação do projecto, se reclama rápido e eficaz e o tempo da reacção e da discussão que, naturalmente, quando em desacordo, requer e exige tempo lento para permitir ajustamentos e melhores decisões.

E, assim, o cinema S. Geraldo (re) conhece hoje a sua importância e valor para a cidade sem deixar de conhecer um tempo contraditório: para uns rápido e urgente, para outros lento e necessário. E, ironia das ironias, todos sem exceção, nas suas razões têm razão…
Neste caso, como tantos outros, o tempo é determinante para o presente e afirmação do futuro (assim como para a sobrevivência do passado). E aparenta ser o único que, com o seu sábio equilíbrio, acabará por distinguir e destacar.

E o que se deseja é que todos, sem excepção, sejam capazes de encontrar um tempo comum, um tempo partilhado para melhor pensar, decidir e dialogar sobre e com a cidade.
Porque, seguramente, a todos a cidade agradecerá.

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