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O Ténis como enação

Beco sem saída

Ideias

2018-01-19 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Começou no início desta semana, em Melbourne, a 106.ª edição do Torneio de Ténis da Austrália (que terminará no dia 28 de janeiro), primeiro do circuito anual do chamado Grand Slam (GS; seguem-se o de Roland Garros, Wimbledom, e o dos EUA) e 50.ª da Era Open, que se iniciou em 1968 quando as organizações desses quatro torneios concordaram admitir jogadores profissionais a competir com amadores.
A final masculina de singulares decorrerá a 28 de janeiro na Arena Rod Laver (em honra do único tenista a ter vencido nessa categoria todos os 4 torneios do GS na mesma temporada em duas ocasiões distintas, primeiro como amador, em 1962, e depois como profissional, em 1969).

O suíço Roger Federer, atual n.º 2 no ranking ATP, depois do espanhol Rafael Nadal, detentor do maior número de torneios ganhos do GS, grande especialista na relva londrina, mas igualmente muito bom a jogar na terra batida de Paris ou no sintético de Nova Iorque, vai defender, aos 37 anos, o improvável título masculino aí conquistado no ano passado, num derradeiro confronto com o tenista das Baleares, sua Némesis tenística, muito emotivo.
Como se passa noutros desportos, os amantes do Ténis discutem amiúde qual o melhor de sempre na sua modalidade. Para muitos terá sido Federer, possivelmente o mais completo jogador de sempre. Para bastantes outros, e nesse grupo me incluo, o tenista estadunidense John McEnroe, pela inexcedível beleza dos seus movimentos em que raqueta e braço esquerdo pareciam um só membro (algo que pudemos ver no futebol com Maradona, na contínua simbiose pé-bola).

Esta querela é, por certo, interminável. Todavia, tem aspetos com um valor instrutivo para a reflexão filosófica. Desde logo, como é que, cada um desses jogadores faz o que faz a um nível que excede o dos demais.
É possível que, como salientou David Johnson no Philosophy Talk (12.12.2013), essa tarefa nos coloque numa situação metodológica idêntica à identificada por Thomas Nagel no célebre artigo Com é ser um morcego? (1974), ou seja, que a partir da mera observação do modo como jogam não consigamos entender exatamente o que lhes vai na mente.
Podemos, todavia, conjeturar. Se seguirmos o milenar cânon epistemológico compreender o que eles estão a fazer quando jogam ténis passa por percebermos como representam nas suas mentes o que se passa no mundo que lhes permanece externo, incluindo, claro, os seus corpos e respetivos movimentos. Embora tentadora, a abordagem do conhecimento como representação topa com uma interessante dificuldade: os jogadores de ténis de topo ao serem inquiridos sobre como fazem o que fazem não se identificam com essa descrição.

Afirmam antes, que as suas excecionais performances só acontecem quando após um duríssimo treino altamente repetitivo para criarem memória muscular colocam a sua mente num estado de vazio zen e deixam que o corpo jogue sozinho, sem nada pensar, sem nada representar.
Michael Foster Wallace afirmou em On Tennis: five essays (2014) que o Ténis requer controlo do corpo, coordenação mão-olho, rapidez, velocidade, resistência e aquela mistura estranha de precaução e abandono a que chamamos coragem. Também requer argúcia. Uma só pancada num único ponto de um encontro de alto nível é um pesadelo de variáveis mecânicas. Isso quer dizer que para compreendermos como é que esses atletas de elite fazem o que fazem teremos de seguir o mais heterodoxo paradigma epistemológico enativista e.g., de Alva Noë que precisamente concebe o conhecimento como radicado na ação.

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