Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O toque da Alma

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2015-07-28 às 06h00

Escritor

Ricardo Antunes

No meio de tantas neste mundo, duas almas subsistiam em particular. Uma delas, eu diria nobre, pura e humilde. A outra também já tivera os seus tempos de notável. “Hoje”, uma alma perdida e com um grande vazio. Mas tudo isto tinha a sua razão de ser.
Distingui-las-ei pela Alma Branca e Alma Negra. O que tinham elas em comum?
Tanto e nada ao mesmo tempo, mas se há coisas no mundo que são maiores que cada ser humano, que cada um de nós, são a alma que cada um possui.
Estas duas não se conheciam, eram opostas uma à outra. O que elas não sabiam era que, na história das suas vidas, estavam destinadas a cruzar-se.

A Alma Branca era um ser repleto de conhecimento, carácter e virtudes. Por essas mesmas razões, optaria pela solidão na maioria das vezes, ao invés do “reboliço” humano. Sabia dentro de si que mais valia estar só que mal acompanhada. Preferia o aguçado e por vezes penoso silêncio frio do que as “vozes” falantes, cheias de malevolência.
O Alma Negra era o inverso. Escolheria por norma as companhias maléficas. Não se importaria de as ladear, mesmo sabendo o que elas eram.

Isto é o que nos define muitas vezes na vida, as “nossas escolhas”. Por vezes sem darmos por ela, acabamos por optar pelo Mal em vez do Bem.
Certo dia, o Alma Negra deparava-se com a tristeza. Algo fácil e bem assente na vida de muitos seres humanos. Decidiu não estar com ninguém. Preferiu escutar a sua alma ao invés das vozes dos seus colegas que em nada ajudariam.

Por volta das onze horas da noite saiu de casa. Optou por um passeio no silêncio escuro de um Domingo entre os belos jardins de que ele gostava muito. Lembrava-se de quando era mais novo e vinha passear com a sua mãe. “Roubava” sempre uma flor bonita para lhe oferecer, sabendo o quanto lhe agradava.
Tentou dentro de si perceber a razão de se sentir triste. Era alguém que tinha quase tudo que muito ser humano deseja. Os seus pais tinham-lhe dado uma boa casa e um bom carro. Tinha um trabalho chato, mas ganhava muito bem, para além de possuir uma boa quantia de dinheiro.

Sentia que apesar de todo este “sucesso” qualquer coisa lhe faltava. Algo grande o suficiente para o inquietar várias vezes. Apesar de o sentir não conseguia perceber o que seria ao certo. Sempre achou que tentava suprimir esse vazio com coisas materiais. Perguntava-se a si mesmo diante daquele belo jardim, o que lhe poderia causar tamanho desconforto. Nesse mesmo instante olhou para o céu, sentiu falta dos seus pais. Estes já tinham 'partido”.

A mãe foi diagnosticada com um cancro há sete anos atrás, falecendo um ano e meio depois. O pai não durou mais de um ano após a morte da mãe. O diagnóstico dos médicos foi de um súbito ataque cardíaco. O Alma Negra tinha a certeza de ter sido “levado” pelo desgosto da perda. Eles pouco ou nada se falaram nos últimos tempos. Não tinham sido anos fáceis para o Alma Negra.

Os seus pais apesar de ricos eram humildes. Sempre tentaram transmitir os grandes e verdadeiros valores humanos ao filho, mas estes últimos anos tinham sido de perdição. Encontrava-se num grande abismo e não tinha dado conta.
Caso para dizer, quem não se tornaria negro perante tal situação?!

Sem dar por ela caíram-lhe as lágrimas, o seu corpo estremecia. Continuava a contemplar o bonito céu daquela noite, quando de repente viu uma estrela cadente. Sentiu dentro de si, que eram os seus pais a dar-lhe um sinal. Seguiu a estrela até o seu desaparecimento. Estava agora a olhar de frente para alguém, a Alma Branca. Não tinha apercebido que não se encontrava só. Estava a ser observado por aquela mulher e não fazia a mínima ideia de há quanto tempo. Sentiu-se a corar de vergonha. Tentou disfarçar o seu choro tossindo, mas sabia que não tinha sido convincente.

A Alma Branca tinha um ar doce, alguém afável. Ela tinha-se apercebido da fragilidade do Alma Negra. Os seus olhos cruzaram-se e apesar da distância, ambos se aperceberam do contacto. Por breves segundos ficaram parados.

A Alma Branca naquele momento colheu uma bonita flor daquele belo jardim e dirigiu-se a ele. O Alma Negra permaneceu quieto, perplexo com o aproximar dela. Sentia o seu corpo agitado. Chegando a um passo dele, ambos os corações a palpitar, ela ergueu a flor e disse-lhe:
- “É apenas uma simples flor, mas espero que te traga um sorriso”.
O Alma Negra não conseguiu conter as suas lágrimas perante tal gesto único. Lembrou-se da mãe. Achou por breves momentos que estaria a sonhar.

Com todo o cuidado pegou na flor e devolveu-lhe um obrigado tímido. Não estava habituado a expor ou partilhar os seus sentimentos a ninguém. A verdade era que aquela rapariga amável transmitiu uma sensação de Paz e pureza como há muito não experimentava, principalmente desde a morte dos seus pais.

A Alma Branca com toda a delicadeza pegou nas suas mãos e perguntou-lhe:
- Porque choras? O que te inquieta?
Com a voz embargada respondeu:
- Não sei bem… Sinto falta dos meus pais. Tenho um vazio enorme que não entendo, uma dor que me afoga… Sinto-me rodeado por toda a gente, mas tão só ao mesmo tempo. Tenho tudo, mas também acho que não tenho nada…
- Talvez o que te falta são as coisas mais importantes e que ninguém “vê”.
- Como assim?
- As melhores coisas da vida não se compram, são adquiridas com o tempo e a sabedoria. São únicas. É a maior riqueza da vida que apenas sentimos.
- E como consigo isso?
- Da mesma forma que eu colhi esta flor para ti, colhe tu também as tuas flores com cuidado e entrega-as a quem merece, a quem precisa.
- Estás a dizer que devo fazer o Bem e que o devo “entregar” às pessoas? Mas ao mesmo tempo devo ter cuidado?
- Sim. Quando plantas o Bem, esse será o teu jardim um dia, mas lembra-te que as flores também têm espinhos. É nas adversidades que o “nosso jardim” cresce mais e fortalecido.
- Poderias ajudar-me?
- Porque queres que o faça?
- As tuas palavras parecem-me sábias e acalmam-me o coração. Sinto a minha alma a estremecer na tua companhia. E porque quero a partir de hoje, cuidar melhor e aumentar o “meu jardim”.

Ambos sorriram. Escusado será dizer que a partir deste dia, estas duas almas tocaram-se e jamais se largaram.
Todos nós temos a capacidade de melhorar e aumentar os “nossos jardins”, as nossas almas. Basta “plantar” o Bem.
Escrito com Alma.

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