Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O trigo do joio

Escrever e falar bem Português

Ideias

2016-11-29 às 06h00

João Marques João Marques

Se há momentos em que o espaço público de discussão parece saído de um verdadeiro conto de ficção, esses são, sem dúvida, aqueles que se ligam às homenagens públicas aos que partiram. Esta partida, tanto pode ser física como metafísica, consoante se dê a morte do homenageado ou a mera despedida de um cargo ou função. Nessa altura, por dever de respeito para com a sua memória, por complacência para com a sua dimensão humana ou para com o luto da sua família, no caso dos falecidos, ou por uma lassidão repentina no nivelamento crítico que sempre aplicamos aos que cessam funções, parecem dissipar-se, no manto diáfano da hipocrisia mais ou menos assumida dos que sobre eles escrevem, todas as tropelias que, em vida, ou durante o exercício de determinado cargo, repetidamente lhes foram assinaladas.

Nos últimos tempos, dois exemplos, um de natureza local, outro internacional, deram pleno fulgor a esta ideia.
No plano local tivemos uma discussão verdadeiramente insólita sobre se Mesquita Machado, esse mesmo, anterior presidente da Câmara Municipal de Braga, deveria ou não ser condecorado pelo atual executivo, na tradicional cerimónia que assinala o dia do padroeiro da cidade, S. Geraldo.

A proposta partiu dos vereadores do Partido Socialista e foi rejeitada por Ricardo Rio e restantes vereadores, onde se inclui Carlos Almeida, do PCP. Se o mero enunciar das vontades diametralmente opostas de vereadores do PS e restantes vereadores (7 contra 4) não fosse suficiente, poderíamos também dar conta dos resultados das últimas eleições autárquicas em Braga, que foram também um plebiscito ao mandato de Mesquita Machado. Poderíamos, ainda, assinalar o facto de o nome do homenageável constar de processo judicial ligado diretamente ao exercício de funções políticas, sendo pouco avisado não só avançar com a proposta neste momento, mas também aceitá-la.

A tudo isto acresce aquilo que se sabe, Mesquita Machado polarizou o concelho em dois grupos, os que nele reveem um autarca modelo e os que sempre condenaram os excessos “obreiristas”, os processos pouco claros e a difícil relação com a democracia plural e participativa tanto dos partidos da oposição, como dos próprios cidadãos que, sozinhos ou em grupo, tentavam rumar contra a maré de trágicas heranças financeiras e urbanísticas que nos foram legadas pelo tempo em que aquele dirigia os destinos do concelho.

Pelo conteúdo das políticas, mas também pela forma, de pendor autoritário, com que exerceu o cargo de presidente, o fosso cavado entre bracarenses foi notório e o processo de cicatrização das feridas democráticas está em curso, sendo muito cedo, sequer, para que relativamente a Mesquita Machado um veredicto de reconhecimento irrestrito e tão consensual quanto possível, como se espera destas homenagens, seja assumido pelos agentes políticos do concelho.

Este episódio não pode deixar de nos lembrar um outro, ocorrido há relativamente pouco tempo envolvendo duas altas figuras do Estado, tão díspares quanto Ricardo Rio e Mesquita Machado. Cavaco Silva, então presidente, foi confrontado com a “necessidade”, defendida pelos apoiantes de José Sócrates, de aquele agraciar este, como sempre ocorreu com todos os Primeiros-Ministros do período democrático, com as honrarias típicas de um governante que cessou o seu serviço ao país.

Passava pouco tempo da derrota nas legislativas contra o, até agora, invicto Pedro Passos Coelho e lembramo-nos certamente do vigor com que defendiam a imperiosidade de Cavaco fazê-lo o quanto antes, sob pena de desprestigiar o cargo que ocupava e o próprio José Sócrates. Não digo, com certeza, que Cavaco Silva adivinhava o que aí vinha, mas julgo que esse exemplo dá crédito à opção do atual executivo. Não que estejam à espera que Mesquita Machado tenha o mesmo destino do ex-Primeiro-Ministro socialista, mas como o mundo é redondo e tem tendência para girar sobre si próprio, todo o cuidado é pouco.

No plano internacional, não posso deixar de condenar a amnésia indiscriminada de diversos líderes mundiais que parecem ter esquecido que, por muito que o “marketing político” moderno (quem diria que um comunista seria salvo pelas redes sociais e pela opinião fácil que prioriza o estilo em relação ao conteúdo) e o “mercado da saudade” recuperem como novo tudo o que tenha um ligeiro bafo a “retro” e a “indie”, os factos são factos. Não há ditadores bons e maus, não há assassinos bons e maus e não há seguramente censores de direita e de esquerda.

A opinião livre, a vida livre, sem medo das consequências de se defender exatamente o oposto de quem está ao nosso lado e ainda assim conseguirmos conviver sem a barbárie da violência, em suma, a democracia, não autoriza que quem nela acredite, louve a figura, os atos e a obra de quem tão mal fez a tantos em nome de um bem comum que só beneficiou uns poucos. E não, não foi o povo cubano que colheu os frutos da revolução, foi Fidel, o burguês nascido e burguês morrido que, entre prédicas infindáveis de igualdade, harmonia e prosperidade se esqueceu de praticar a modéstia e distribuir o (pouco) que Cuba ainda assim produzia por entre aqueles que nunca puderam votar noutro que não nele.

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