Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

O triste fado da saudade...

O primeiro Homem era português

Conta o Leitor

2021-08-03 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Naqueles dias, os nossos corações e corpos estiveram unidos. Porém, hoje, não te quero apoquentar com o meu estado de saúde porque já não somos cúmplices da alegria ou da tristeza, apenas quero que saibas que tudo valeu a pena. Que mesmo no meu ocaso, está tudo bem. Estou aqui pela amizade que nos une pois se há coisa que gosto de manter é a sobriedade acima de tudo e a amizade de quem passando muito ou pouco tempo em minha vida, merece esse voto.
Quero-te dizer hoje, que valeram aqueles dias em que me recebias com um sorriso e agradecias pela seleção de música que te deixava sempre no leitor de cassetes ou no hi-fi para te ajudar a matar o tempo enquanto estava ausente ou o beijo reconfortante depois de uma jornada de trabalho, ou ainda aquele abraço que ficava sempre apertado ao peito depois de tempos de ausência. As zangas, claro, também quero tratar delas, mas no amor, sobretudo aqui, no amor, elas existem e acontecem para que a reconciliação seja festejada e mais reforçada a relação.
Contigo e tu comigo, aprendemos a amar a noite e a madrugada, que nos “escondia” nos lençóis ou entre o feno sobre as brisas de Verão. Sei que podia ter-te dado jóias e presentes caros se dinheiro tivesse, mas também sei que sempre preferiste a minha simplicidade o singelo gesto de amor e paixão desprovido de interesses, pois sempre foste viciada no meu amor, no meu corpo como eu fui pelo teu, sempre selado com um beijo enamorado, com carícias em que as minhas mãos percorriam cada centímetro de teu corpo. No teu regaço encontrava o meu porto de abrigo, em teu peito a vontade de dormir serenamente e sonhar mesmo que acordado, ou de me deixar levar pela imaginação; em teus seios alvos sentia o calor e em teus olhos uma vontade de sonhar sonhos de encantar. Não cuides que agora escreve um homem infeliz: Não! Aliás acredito que tudo deixou de ser na sua devida altura. Apenas porque Deus assim o quis.
Acredito que alguém tivesse reservado um outro futuro para ti, que para mim sempre soube o que queria e como te segredava vezes sem conta seficássemos juntos para todo o sempre nada se perdia. Porém, ouviu-me um Deus desconhecido, sem ouvidos para preces de amor ou de paixão. Não acredito que foi por amarmos demais, às vezes. Simplesmente não acredito. Porém...
Agora penso que decerto podia ter sido mais forte e com coragem de leão ou como a força da barra que te protegesse das ondas fortes e vagas mortíferas debaixo de um céu de chumbo pintado, peço perdão por essa falta, se existiu.
Porém acredito que foi mais de céu azul-verão, praia calma e de dunas que a nossa vida tratou. Descalços e Despidos de preconceitos apenas com vontade arrebatadora de viver intensamente cada momento dos nossos dias. Assim foi. Com prós e contras, mas hoje quero apenas recordar aqueles momentos que fomentaram paixão, amor e o “pecado” sempre permitido. Aqui fazia sentido a frase: o fruto proibido é (muitas vezes) o mais apetecido. E arriscávamos mais uma vez, como se de uma viagem alucinante se tratasse e que sabíamos seria mais uma experiência que experimentada nos daria mais força e mais vida. Mais maturidade.
Locais que ficaram com a nossa marca indelével e impossível de esquecer mesmo vivendo cem anos. Como o Gerês e o campismo selvagem durante um fim-de-semana porque assim dava mais prazer descobrir os recantos e encantos daquele santuário da natureza, ou Lisboa, quando fomos ao concerto do grande Bowie, dois marcos de orgasmos supremos de alegria contagiante, sempre sem pensar no dia que viria, apenas o momento contava. Entendi que a inocência já tinha passado e que devia ser por aqueles tempos uma espécie de anjo da guarda. Cada um por si, ou antes, eu cuidava de ti, também, mesmo em locais recônditos ou onde nunca estivemos antes, mas sempre com a vontade e curiosidade de ir ao encontro de marcos da história, da música ou da literatura como aconteceu dessa vez na capital onde passamos pelos cafés habituais de Pessoa e Queirós.
Ou quando de um ribeiro fizemos cascatas e lagoas entre o verde geresiano ou da pensão no Rossio fizemos o mais luxuoso dos hotéis do mundo.
Esse mundo era nosso e talvez tenha aí residido o nosso maior pecado porém, querida, ainda hoje para além das óbvias saudades e do vazio que “preencheu ” o meu ser durante algum tempo, não me sinto arrependido de nada daquilo que fizemos e vivemos. Foi uma escolha que se fez. A nossa escolha, afinal. Apenas sei que houve um tempo só nosso em que vivemos intensamente a nossa história de amor e que sinto às vezes a tua falta e daquela felicidade que foi passando com os anos e que pouco a pouco foi dando lugar á despedida ao desamparo às lágrimas e á saudade que ficou no meu coração.
Pena que só assimilamos o verdadeiro valor e peso duma perda, muitas vezes tarde demais.
Vão lá dar crédito ao coração, pensarão muitos. Eu dou porque é o meu e sinto como ninguém que nasci para emoções mesmo que tivesse de enfrentar mais tristezas que alegrias. Preferia o bonançoso dos céus onde pudesse encontrar uma estrela-guia que me indicasse que estava no caminho certo.
Descobri-te na sombra de uma árvore enquanto lia Cesário Verde e caminhava por entre aquele pomar que deixava pelos ares mais próximos aromas a fruta e uma frescura que se encontra numa paisagem tingida de verde natureza. Logo aí a leitura passou para segundo plano. Contemplei-te por breves instantes sem te aperceberes de minha presença (escondida por entre as árvores)
Era um quadro de beleza impressionista, capaz de descrever os teus traços mesmo que te tivesse visto há séculos.
De tez clara cabelos cor de ouro e corpo perfeito que convidava às mais variadas insinuações ou pensamentos que se misturavam com o prazer e o desejo carnal e a vontade de te ter entre os meus braços; a tua candura contrastava com a minha pele mais queimada pelo sol mas esses olhos que não queriam ver, acabaram por esbarrar nos meus!
Perdida a timidez de travar conhecimento esvaiu-se num ápice sempre que pensava em ti como alguém que nasceu para dar e receber felicidade... Era eu que devia e queria ser essa pessoa, sortuda por poder contemplar a tua beleza rara, sempre que os meus olhos quisessem. Tinhas de ser minha. Não era um pensamento de posse tão pouco de poder e querer, apenas porque te senti perto de mim como nunca sentira alguém
Falamos horas a fio sobre gostos que partilhávamos em comum como a música, a leitura, a fotografia, cinema...
Afinal sempre tinha estado nas estrelas aquele encontro, pois nunca duas almas gémeas podiam se desencontrar, antes, mesmo que por entre obstáculos e um tempo que se foi adiando, aconteceu a paixão, o amor que ia prevalecer durante uma década cheia de aventuras e desventuras, noites mal dormidas porque juntos queríamos amanhecer acordados.
Corpos suados que se formavam num só, aquele cheiro peculiar a amor que costuma entranhar – se nos lençóis, no quarto com os corpos, finalmente rendidos ao cansaço, agradável, e o sono que vinha de uma forma suave, calma e relaxante.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2021

Tão só (a carta)

30 Agosto 2021

Paraíso existe?

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho