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“O triunfo dos Porcos”

Viver sem e-mail: um imperativo existencial?

“O triunfo dos Porcos”

Ensino

2021-05-05 às 06h00

Francisco Porto Ribeiro Francisco Porto Ribeiro

Opresente artigo versa sobre o livro de George Orwell, escrito em 1945, numa sátira crítica à Revolução Comunista de 1917, na Rússia de Stalin. O seu teor, com quase 80 anos, ainda se encontra muito catual. Sugiro uma leitura, disponível nas livrarias normais, em português (edição Europa-América ou Dom Quixote), em brasileiro (pdf, A revolução dos Bichos) e em inglês (Animal Farm). Em grosso modo, o tema versa sobre revolução, economia local e aldeia global, na linha da política e ciências sociais. A escolha das personagens, no contexto atual (2021) não pode ser mais adequada e certeira (opinião pessoal) e o tema explorado é, igualmente, certeiro e oportuno, depois do resultado da leitura de um julgamento, feito em abril de 2021. Num momento de menor estímulo, recolhi da minha biblioteca este livro que o “universo” colocou no caminho e que subscrevo, na integra, por isso fica a partilha.
Numa breve introdução, George Orwell, no seu pseudónimo de Eric Arthur Blair, nasceu em Bengala (India, perto do Nepal), mas foi educado em Inglaterra. Enquanto cidadão inglês, para além do jornalismo, dedicou-se à escrita de livros sobre vários temas. O Triunfo dos Porcos, um best-seller, retrata a exploração e a manipulação dos políticos perante a ingenuidade do povo, descuidado e tranquilo, transformando-se numa clássica fábula política do século passado. Com mordacidade e perspicácia pessoal, o autor relata a história de uma revolução entre os animais de uma quinta e o modo como o idealismo foi traído pelo poder, pela corrupção e pela mentira (qual a novidade?).
A história, o seu primeiro capítulo, tem uma frase que me parece lapidar, no contexto político e, por ironia, personalizada por uma personagem mítica, o porco de maior idade e experiência, o Velho Major.
Major sonha libertar os animais da escravidão em que vivem e comunica o seu sonho. Lentamente, dá-se início à revolução, na cabeça dos animais, concretizando-se esta com a expulsão do dono da quinta e a libertação de todos os animais da dita “escravidão”. O velho porco considera (p.08) que “Já vivi bastante e muito tenho refletido na solidão do meu chiqueiro”, e acrescenta (p.09) “Nenhum animal, na Inglaterra, é livre. A vida de um animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua. (…) O Homem é o único inimigo real que temos. Remova o homem da cena e a causa da fome e do excesso de trabalho é abolida para sempre”. Deste modo, explica aos companheiros que a sua miserável existência se deve à tirania dos homens, uns seres preguiçosos e incompetentes, que usufruem do trabalho dos animais, vítimas de uma exploração prepotente. Incita os animais à rebelião, contra o Homem inimigo, como também a entoar o cântico de revolta. No pós-revolução dá-se uma inversão de sentidos, transversal a todas as sociedades, onde os porcos (mais jovens) defendem que “Todos os animais são iguais só que uns são mais iguais do que outros” (p.91), chamando a si direitos reservados (pergunto: esta expressão, com quase um século, estará desadequada?).
Após a morre o Velho Major, a revolução assume novos líderes, também porcos, e criam o Animalismo. O trabalho de ensinar e organizar os animais da quinta recai, naturalmente, sobre aqueles que são reconhecidos como os mais inteligentes, os porcos (p.15). a revolução dá-se em dia de solstício, com a expulsão dos donos da quinta e mudança do nome para "Quinta dos Animais". Criam Mandamentos e, dada a limitação de alguns animais, sem capacidade para decorar os "Mandamentos" da revolta (p.20), os porcos reduzem à máxima: "Quatro pernas, bom; duas pernas, mau" (p.26). Este lema passa a ser ideal para estúpidos, criando uma separação entre “animais” uma vez que se deslocam em duas pernas (aves). Aqui destaca-se o erro na generalização dos casos, acabando por ferir quem apoia a revolução.
Uma vez efetuada, são destruídos todos os sinais de castração física (arreios, trelas, cordas, facas de castração, tesouras, etc.) e decretado que todos os animais deveriam andar nus pois a roupa era um símbolo de domínio (p.18). No que se prende com a casa, decreta-se, por unanimidade, conservar como museu e símbolo de tirania e que nenhum animal jamais a deveria habitar (p.19). O problema inicia-se nas cedências e a história está repleta de factos de revolução que se apropriaram dos símbolos para seu proveito próprio. Vejam Napoleão, que liderou a revolução francesa contra a monarquia, tinha as suas razões (o povo tinha fome) mas corou-se imperador, instalando-se nos palácios reais.
As tarefas da quinta são efetuadas por todos, em comunidade, exceto os porcos que dirigem e supervisionam os outros, em virtude de terem mais conhecimentos, assumindo como sendo natural deterem a liderança (p.23). Os porcos decretam e os animais da quinta aceitam as normas. Decidem trabalhar de segunda a sábado, relaxando aos domingos (como antes) e participam numa Assembleia magna dos animais, onde se planeiam os próximos passos. E o que se segue, pergunta o leitor?
Nesta paz podre sucedem-se fugas, de uns, deslumbramento de outros, alguns com desculpas para de libertarem de trabalho e outros a serem esforçados/explorados, em prol de todos. Acrescem traições, tomadas de poder, retirada de poder democrático, totalitarismo, etc., sempre com ameaças envolvidas. E os porcos, que lideraram a revolução, o que diziam ser proibidos, ao abrigo dos Mandamentos, passaram a fazer. Enfim, o normal. Em resumo, os porcos mudaram-se para a antiga casa dos donos (agora museu) uma vez que consideram mais adequado à dignidade do Líder, que viver num chiqueiro (p.51), a dormir nas suas camas e a vestir as suas roupas (já liam os mesmos livros). Passaram a negociar / transacionar bens essenciais com os maus (os Homens) e tomam decisões unilaterais, nomeadamente, decretaram que todos os animais são iguais (reforço da 7 medida do Animalismo), só que alguns são mais iguais que outros (qual a novidade?). Os próprios animais decretam penas de morte aos seus por incumprimento das novas normas (p.56). Os “eleitos” passam a ter regalias (enfim) e a contrariar as regras iniciais, definidas e aprovados por todos, numa clara violação do “contrato” pré-revolução.
Falsificam-se provas, criam-se histórias e levantam-se boatos para confundir as hostes (p.58), o normal. Segundo o autor, a diferença entre o porco o homem “já não dava para saber qual era qual” (p.94).
O resumo da fábula, caricaturando o comportamento de animais racionais, e não só, associa a corrupção pelo poder, por parte dos eleitos, ao desleixo da população em geral, numa total ausência de responsabilidade social individual.

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