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O Valor da Vida

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O Valor da Vida

Ideias

2021-09-20 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

20 anos após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2021, a data foi registada com séries documentais e filmes alusivos à tragédia que mudou o mundo no início do nosso século. Houve um filme, que estreou este mês nas salas de cinema, “Valor da Vida”, que praticamente não tem as habituais imagens das Torres Gémeas, atingidas pelos aviões desviados pelos terroristas islâmicos, a arder e desabar, ou do pânico e terror de quem, infelizmente, ficou preso no seu interior. A realizadora optou por nos dar uma perspetiva diferente, não deixando, contudo, de abordar factos que efetivamente ocorreram: centra-se no dilema que travou o advogado que foi encarregue pelo governo dos EUA de gerir o fundo de compensação criado para indemnizar os familiares das vítimas e calcular quanto deveria ser pago a cada uma delas. Ou seja, de definir quanto valia cada vida humana perdida na tragédia.
Desde logo, Feinberg e a sua equipa, cientes de que não se pode atribuir um valor à vida de uma pessoa, tentam abordar o caso da forma mais justa, objetiva e desapaixonada possível, seguindo a letra da lei e evitando considerações filosóficas ou outras mais subjetivas. Sabem a importância da missão que têm “em mãos” – obter em tempo recorde um acordo com os lesados, e assim evitar que milhares de demandas judiciais em catadupa, contra companhias aéreas e o Estado, pudessem fazer perigar a economia do país.

Confesso que a temática é para mim apaixonante, tendo em conta as múltiplas vezes que, no exercício da minha atividade profissional, luto por algo muito semelhante: obter uma indemnização decorrente de um sinistro que acarretou perda de vida ou lesões físicas graves e incapacitantes. E assim, compensar as perdas, ajudar quem fica a recomeçar. Daí que tenha absorvido de forma intensa cada minuto do filme.
Existe um valor que seja suficiente para pagar a ausência de alguém que partiu de forma tão traumática? Como atribuir um preço à vida humana? Qual o valor de uma vida?
No início fica claro que uma distribuição equitativa do fundo de compensação às vítimas parece, à primeira vista, ser a solução mais justa. Contudo, haverá quem argumente que, não desconsiderando o valor sentimental e humano das vítimas, uma porção significativa de lesados era milionária (executivos e banqueiros que trabalhavam nas Torres Gémeas), pelo que o peso relativo da sua perda para as respetivas famílias exigiria uma compensação à altura. As vidas perdidas parecem ter valores diferentes. A vida de um executivo vale mais do que a de uma empregada de limpeza, sendo que ambos foram vítimas das mesmas circunstâncias? Como explicar isso para quem ficou e luta para recomeçar?

Para chegar a uma resposta, Ken e sua equipe constroem uma fórmula matemática, procurando aí abarcar todas as especificidades de vida de cada uma das vítimas. Mas logo se constitui um movi- mento para questionar os critérios usados para a composição desse fundo e, principalmente, para lembrar a todos que as pessoas não são números, mas indivíduos com rostos, nomes e histórias únicos que não cabem numa equação. Cada indivíduo é único e, por isso, as variáveis são infinitas — e é aí que vemos os dramas individuais de quem ficou e as particularidades envolvidas.
Como eu gostaria que os intervenientes da vida judicial em que me movimento, incluindo juízes, advogados e procuradores, vissem este filme; um filme que parte de uma premissa de compreensão simples, mas esconde várias camadas de complexidade debaixo da superfície. Os dilemas que vai apresentando são duros, são genuinamente difíceis, não só para as personagens como para todos nós que assistimos, que somos convidados a refletir e a ponderar sobre os conflitos que o filme vai expondo.

Nos vinte anos que nos separam agora dessa efeméride – os terríveis ataques de 11 setembro 2001 -, o mundo em que vivemos mudou muito. E atravessou e atravessa momentos especiais e difíceis. Por esse motivo, o filme assume-se como um importante contributo para a compreensão de uma tragédia que, volvidos vinte anos, continua a ser difícil de entender, pelo menos em toda a sua extensão. E para a compreensão de algo que, hoje e no futuro, estará sempre em escrutínio: o que significa ser humano.
[setembro iniciou e a vida reinicia. Bom recomeço de vida para todos os meus leitores. Saúde

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