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O valor do silêncio

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O valor do silêncio

Ideias

2020-01-06 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Com o tempo, aprendi a valorizar cada vez mais o silêncio. Em determinadas alturas, as palavras esgotam-se e é preciso interromper fluxos ruidosos para perceber melhor o que nos está a acontecer. Foi assim que entrei em 2020, sentindo necessidade desse silêncio, quando qualquer conversa se torna incapaz de explicar o presente e de abrir caminhos para o futuro.

A obra, na sua edição original, é de 1959, mas, de quando em vez, sinto necessidade de a ela voltar. Intitula-se “A linguagem silenciosa” e foi escrita por Edward T. Hall. Abre assim: “o tempo fala. Fala mais claramente do que as palavras. A mensagem que transmite surge viva e clara. Porque é manipulada menos conscientemente, está menos sujeita à distorção do que a linguagem falada. Pode clamar a verdade enquanto as palavras mentem”. Os livros têm este poder: lembrar-nos o essencial que muitas vezes conhecemos bem, mas teimamos em ignorar... Como também sublinha Hall, para além da linguagem verbal, comunicamos constantemente através da linguagem do comportamento, principalmente aquilo que sentimos. E isso, para se compreender, exige tempo. Que é hoje aquilo que menos temos. Porque enchemos a nossa vida com uma agenda impossível de gerir. No meio desse caos de tarefas que executamos a maior parte das vezes com uma visível exaustão, não sobra espaço para refletir acerca daquilo que acontece.

Neste Natal, ofereceram-me um livro que, num registo mais leve, também faz a apologia deste valor. “Silêncio na era do ruído”, de Erling Kagge, coloca-nos três perguntas: o que é o silêncio? Onde pode ser encontrado? Por que razão é mais importante do que nunca? Em 32 capítulos, procuram-se declinações para possíveis respostas. “Não se trata de virar as costas ao que nos rodeia”, escreve o autor, “mas de ver o mundo de uma forma mais clara”. Na parte final, assegura que “descobrir o silêncio é mais fácil do que as pessoas pensam ou julgam”. E acrescenta: “no meu caso, para o descobrir, tive de usar as minhas pernas para ir até muito longe, mas sei que é possível atingir o silêncio em qualquer lugar. Só temos que subtrair”. Limpar excessos para avistar o essencial: eis o desafio dos tempos atuais.

Este ano letivo, na universidade, dei comigo a interromper várias vezes as aulas para dizer aos estudantes isto: “vamos parar para escutar o silêncio. Sem fazer absolutamente nada...”. Nunca tive propriamente grupos de alunos ruidosos. Quando há uns decibéis acima do recomendável, tomo algumas precauções que restabeleçam rapidamente alguma ordem que permita uma aula equilibrada para todos. No entanto, neste tempo, dou conta de que, mais do que conversar com o colega da mesa ao lado, os estudantes agora ligam-se em permanência a aplicativos multiplataforma de mensagens instantâneas. E ali estão eles em salas de aulas numa ausência total em relação àquilo que é dito, porque, através dos seus telemóveis, envolvem-se num permanente ruído que os impede de ouvir as matérias lecionadas. Quando isso acontece, é preciso quebrar ligações. Subtrair, como dira o norueguês Kagge.

Na edição deste fim-de-semana, o semanário “Expresso” publica uma interessantíssima reportagem, da autoria dos jornalistas António Marujo e Joaquim Franco, sobre o correio de Nossa Senhora de Fátima que acumula oito milhões de mensagens. As cartas têm registos muito diferenciados: pedidos, agradecimentos, partilha da vida... Chamou-me particularmente a atenção esta missiva: “querida Mãe, já que ninguém tem tempo para me ouvir ouve-me tu...”. E aqui está uma ponte para o divino, construída num silêncio devoto, a sacralizar um quotidiano que se deseja mais leve.
Iniciámos por estes dias mais um ano que abre uma década. Que esse seja um tempo de descoberta daquilo que verdadeiramente precisamos. Que nos revelemos capazes de deitar borda fora os excessos que nos pesam no dia-a-dia. Um bom ano para todos!

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