Correio do Minho

Braga, terça-feira

O velho de Valparaíso

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Conta o Leitor

2016-08-05 às 06h00

Escritor

José Cruz

Estou velho, e a Morte esqueceu-se de mim, ou, talvez a morte não me seja devida. Terei eu sido um fantasma? Um quase vivente, criatura hesitante entre o palpável e o intangível? Serei um pensamento que fantasiou um corpo e sua história?
Quantos anos contarei, afinal! Terei eu dobrado a marca do centenário? Fundem-se os meses em anos. Festejasse eu aniversários, tivesse eu com quem festejar os ciclos que tombam, e talvez cessasse de me interrogar sobre a duração dos meus dias, sobre o sentido de tão longa e estéril existência.
Sou o ‘el viejo’. Todas as terras terão o seu ‘viejo’. Eu sou o ‘viejo’ de Valparaíso. Sou daqui, sem cá ter nascido. Respeitam-me e tratam-me com deferências, como se eu fora um notável, uma insigne senhoria. Aportei a estas paragens homem mais do que feito, bem entrado nos cinquenta. O tempo não parou desde então. Eu… eu é que parei de conferir forma ao tempo. Primeiro por medo, pelo pavor paralisante de que me encontrassem e pusessem fim à minha errância. Depois… bem, depois, por ter renascido pouco a pouco dentro do anonimato de que me revesti.
Cheguei a Valparaíso fugido e perseguido, temendo a cada instante que os facínoras me deitassem gadanhas. Que ano correria então: 76? 77? Levava mais de três anos de clandestinidade paralela à morte. Seria pelas vésperas natalícias de fatídico 73 que nos acotovelaram dentro de um camião de transporte militar. Farejámos o fim no olhar uns dos outros, sentimos que se desembaraçariam sumariamente de nós num descampado. Mas, fosse pelas pressas, fosse por avaria, a carreta dos esbirros saiu da estrada, revirou-se por ladeira inclemente. Mutilou e trucidou alguns dos agrilhoados; outros, passado o choque, viram-se em bons pés e sem obstáculo que cerceasse a fuga. Debandámos por caminho que companheiro não seguisse, convencidos que, por si, discretamente, seria cada um de nós mais invisível.
Fiz vida de bicho nocturno, enterrava-me aos alvores da manhã e rastejava de noite. Nem eu sei como sobrevivi. Quis pensar-me miraculado. Porém, os milagres, a existirem, suporiam a graça de um deus que jamais caucionaria barbaridades como as a que sobrevivi, e em repetição.
Sei que nasci a 20, nessa outrora grande Espanha, e que, com os 16 malfeitos, me achei em fuga com meu tio, ele e eu sobreviventes de massacre abominável. Saíramos a pescar, e na volta não encontramos família, nem vizinhos, nem aldeia. A guerra, que era um som, uma palavra, passou a ser uma cicatriz insarável na alma. Fugimos! Eu, paralisado, arrastado por meu tio. Corremos terra e galgámos água. E parámos, quando de novo eram grandes as águas que tínhamos pela frente. Viveu, meu tio, o resto de seus dias neste Chile, e eu por cá fiquei, por falta de alento para remir mágoas e sepultar fantasmas.
Não conheci devoções nem fiz descendência. Para quê gerar filhos que não têm avós, para quê enxertar linhagem em seca cepa? Não morri em 36, mas extinguiu-se o amor em mim. Abateram e profanaram a minha bela Estrella, e a agonia secou-me as nascentes da paixão.
Falei aos outros de amores desvividos. Ensinei poesia. Em cada verso que não era meu, que eu não saberia escrever, que eu não tinha a quem dedicar, depositava as carícias aniquiladas pelas ambições funestas de quem almeja mandar sem sombra de consideração pelo semelhante. Não fui poeta, mas, quem o era, dizia que nos meus lábios soavam os seus versos melhor do que nunca, com matizes deslumbrantes que os próprios mal conheciam.
Não fui poeta, embora por tal me dessem, supondo-me entrincheirado em segredos e inéditos. E visto era como notável anarquista, sem pretender tê-lo sido, pela simples repugnância bucólica face a todas as formas de Poder. Até que em 73 me catalogaram como perigo social, como influência nefanda, como semente de uma peste que convinha erradicar. Desconhecia-me, eu, como um dos malefícios de Pandora. Interrogaram-me e torturaram-me sem fim, por quererem trazer a lume o nada que eu tinha para dizer. Acaso se interessariam eles por poesia, ou por efabulações sobre o humano e a sociedade perfeita? Desinteressaram-se de mim quando acharam que nenhum segredo eu teria, que nenhuma denuncia que eu pudesse fazer resistiria às caricias que me prodigalizavam. Eu era apenas um simples. Perigoso, por isso mesmo.
Deram-nos descanso, para que recuperássemos cores, diziam, e pudéssemos comparecer diante de tribunal. Pena menor, alvitraram-me. Não sei se acreditei, mas senti que seria mentira, quando nos fizeram sair para as traseiras de um camião, em hora a roçar a meia-noite, e num sábado, parecia-me.
Saí incólume. Fugi, procurei abrigo em ermos e terrenos insalubres, revigorando forças com o que não sabia comestível. Deparei-me, uma noite, com um tocador de realejo. Reconhecemos, um no outro, olhos e mímica de fugitivos. Ele não falava, ou porque fosse mudo, ou porque tivesse aprendido a sê-lo, defendendo-se de interrogatórios ou de fraca palavra que desse diante de inquiridor. Caminhamos para norte, um pedaço. Agonizava, ele, à entrada de Iquique.
Que não o abandonasse, que não o deixasse morrer antes de pôr os pés na catedral. Arrastamo-nos por umas horas. Ele nada mais tinha a dizer, e não tinha, eu, curiosidades que ele devesse satisfazer. Recebeu a extrema-unção diante do altar-mor, de um sacerdote aymara. Soube, ali, que iquique significava local de repouso em língua indígena. Ele não o era, mas talvez tivesse uma história.
Herdei o realejo, o jaquetão e o chapéu. Deitei barba igual à que ele tinha, e rumei a sul, lentamente. Ao cabo de três anos cheguei a Valparaíso. Por cá levo quase uma vida. Sou o tocador de realejo e fabricador de infantis moinhos de vento. Integro a paisagem como se dela sempre tivesse feito parte, tanto que, homens maduros, que não tem idade para me ter visto de crianças, se conjugam e reconfortam com falsas memórias, como se a mim me tivessem comprado os mesmos moinhos de vento que presenteiam hoje a seus netos, como se do meu tambor mecânico ouvissem as melodias intemporais que agora povoam os ouvidos e as fantasias dos seus segundos descendentes.

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