Correio do Minho

Braga, terça-feira

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O Velho do banco de Jardim

Vamos falar de voluntariado…

Conta o Leitor

2012-08-21 às 06h00

Escritor Escritor

Por Carlos do Rita

“Uma pessoa pode ter tanto medo de envelhecer, que não consegue viver o agora.” Carl Jung
Há coisas na vida que são mesmo para sempre. Os pensamentos ou ideias e opiniões que não mudam nunca sobre a reflexão de ser brevíssimo o espaço de tempo que temos entre sermos jovens demais e velhos demais. Depois filosofias de vida que ajudam neste tipo de máxima como por exemplo: Envelhecer suaviza as pessoas e ajuda na experiência para os mais novos. A “tragédia” da velhice acontece porque vem depois dessa idade em que não há tempo para pensar nela, antes viver a vida como se fosse o último dia, espremer ao máximo a juventude que afinal é uma fonte esgotável que dará lugar num ápice a esse estado em que sentimos o que antes desconhecia-mos: a solidão, o estado de se sentir só e esquecido e o tempo já gasto pelo peso da idade.
Por isso há coisas na vida que são para sempre: Um amor, um objeto que se estima as pessoas que nos deixam entrar em suas vidas porque a nossa também está ligada á deles.

Há objetos que nos transportam para outras idades: os cromos, os livros de BD, as bolas de plástico que só duravam uma partida de futebol entre as aulas do liceu…
Nessa qualidade há o velhinho banco de jardim. Espalhado por vários sítios das cidades vilas e até aldeias. Há aqueles feitos de granito para durarem á passagem dos tempos mas há aqueles que eram feitos de madeira de cor vermelha e armações em ferro fundido ou outro metal duradouro.

Um dia destes farto de estar em casa porque o tempo não convidava a sair para arejar as ideias, decidi dar uma volta pela cidade. Fiz-me acompanhar de um guarda-chuva e saí.
Deixei-me levar por entre a multidão que passeava, fazia compras num corrupio e outros, como eu, olhavam maravilhados e tiravam fotografias para a posteridade á cidade pós poeira, lama e estaleiros nesses locais que mereceram a atenção dos responsáveis pelo urbanismo.
Aproveitei e visitei os meus locais de culto, por onde normalmente vagueio quando quero arejar o pensamento e a alma: A velha Sé Catedral, a biblioteca para o encontro sempre agradável com jornais, revistas e livros que me ajudam a matar o tempo e a beber mais algum conhecimento, depois da alma e espírito renovadas. Percorri o casco histórico que continua com o seu aspeto romântico de sempre, com todo o seu esplendor pelos recantos de beleza arquitetónica e urbanística que enchem de orgulho as suas gentes.
Estava justamente envolvido em pensamentos sobre a nova face que a minha cidade apresenta a quem a visita quando reparei num desses bancos de jardim do meu imaginário situado em pleno centro, numa das zonas com mais movimento de pessoas que passam numa correria louca sem olhar para o lado, porque o relógio não para e é preciso chegar a horas ou porque era necessário fugir da chuva que caía sem dar tréguas.
Nele estava um velho, imune á água que vinha dos céus permanecia lá, sentado e inerte, como se existisse apenas ele e o seu banco, junto com um olhar vazio e cujos olhos apresentavam uma maresia como se a qualquer altura desatasse a chorar. Apesar da multidão senti-o numa solidão…
Fui em sua direção e depois de pedir permissão, sentei-me a seu lado.
- Então, senhor, não quer fugir da chuva? Olha que ainda se constipa!
- Jovem, com esta idade acredito que não será esta chuvinha que me vai arranjar a primeira gripe da minha vida, depois não estou com vontade de sair daqui. Gosto de ver as pessoas que passam mesmo que não olhem nem parem como fez o jovem para saber do meu estado de estar assim: sozinho neste banco que é meu companheiro já faz muito tempo. Desde que perdi o meu amigo Alba também ele um utilizador assíduo destes bancos. Conheceu-o? Ao Sebastião Alba?
- O poeta que teve de morrer para ter o devido reconhecimento das suas palavras? Sim sobretudo nos anos 80 altura em que muitas vezes nos fazia companhia até ao “Deslize” um bar paredes meias com a Sé e que para tristeza de muitos está encerrado para sempre. Ouvia-me com atenção e abanava a cabeça como que concordando com o que ia dizendo.
Aquela imagem fez-me recordar uma letra duma música que tratava exatamente de um velho sentado num banco de jardim. E sim, podia ser verdade quando ele dizia que as pessoas não olhavam para não verem a imagem da solidão que irão viver quando forem como ele, um velho, só e triste com um banco como companhia. Os seus olhos permaneciam mareados. Parecia que a qualquer momento uma lágrima depois outra e outra cairiam pela face já lavada pela chuva e tomada pelas rugas duma vida inteira. A cabeça estava escondida por um velho chapéu por onde saiam alguns cabelos brancos tingidos pelo mesmo relógio que não deixava o tempo parar.
- Fome, não tem?
- Com um semblante triste acenou afirmativamente com a cabeça.
Levantei-me e fui a um desses locais onde se vende comida de plástico. Trouxe-lhe um sumo e um menu completo de hambúrguer. Que literalmente devorou em poucos minutos!
- Podia estar além, naqueles bancos que estão entre o arvoredo pelo menos o sol não me fustigava no verão nem a chuva me atormentava tanto no inverno, porém passam por lá menos pessoas e dessa forma a solidão vencia facilmente. Ao passo que aqui sempre dou mais luta á minha solidão pois passam mais pessoas, algumas até sorriem ou cumprimentam, outras como se eu mendigasse, deixam-me trocos no chapéu. Assim, sempre tenho mais em que pensar sem estar sempre com este olhar vazio como que a procurar alguém.
- Que fazes? Perguntou-me.
- Gosto de ler mas sobretudo escrever…
- Então escuta: “Agiganto-me sempre que estou junto de ti, minha querida, aquecias-me o corpo, com tuas mãos agora, também elas frias como a minha alma”. É sempre bonito escrever sobre os estados do coração.
Sorri. Olhei o relógio deste tempo que passa depressa. Rebusquei os meus bolsos em busca de algum dinheiro que lhe entreguei de seguida. “Deus Bendito o ajude na escrita e na vida assim como aos seus”. Estendi-lhe a mão que encontrou a sua fria ossuda e calejada. “ Até um dia. Cuide-se”

No dia seguinte, com o sol de volta, peguei num caderno de apontamentos e um guarda-chuva e fui ao encontro de um velhinho que esperava encontrar sentado num banco dum jardim.
Assim foi. Tal como no dia anterior, o quadro era exatamente o mesmo. Saudei-o e estendi-lhe o caderno e o guarda-chuva.
- Para se entreter, enganar o tempo esse seu velho amigo e desenferrujar a sua escrita e para da próxima vez se resguardar dos pingos da chuva e a gripe não o escolhe.~
Olhou-me com demora sem nada dizer. Depois uma palavra. Obrigado. Depois mais: Nunca pensei que estes dois dias podiam ser tão importantes para o meu espírito. Vi-lhe novamente os olhos de água. Meteu sua mão no bolso do casaco também ele gasto pelo tempo e entregou-me uma folha. Nela um poema que falava da solidão, de dor e compaixão, dos últimos dias de alguém que estava quase a desistir de tudo, mas recuou nessa ideia.
Para o senhor se inspirar. Agora vou aproveitar o fresquinho do interior da igreja e vou até lá falar um bocado com Ele a agradecer por haver pessoas que se preocupam com velhos solitários e aproveito para fugir deste calor. Fiquei a vê-lo partir em direção à velha igreja.

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