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O velho portão enferrujado

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Conta o Leitor

2020-08-27 às 06h00

Escritor Escritor

Texto Félix Dias Soares

Nas tardes chuvosas dos invernos dos anos sessenta, quando o gado não saía para o campo nem para o monte, os lavradores ocupam-se dos afazeres de casa, na manutenção das alfaias agrícolas, mas também na recolha e preparação da lenha, já para o inverno seguinte. O conforto do lar nesse tempo passava por uma lareira acesa, à volta da qual, a noite se prolongava até final do serão, nas noites longas de inverno. Os criados também tinham as suas tarefas e a minha, era encher as talhas de água na cozinha, era um trabalho que não gostava de fazer, o poço era longe, depois de tirar a água à bomba, tinha de transportar muitas vezes o cântaro ao ombro, nada fácil para os meus onze anos, mas também fazia companhia e ajudava uma senhora idosa, na preparação da lã, que viria a ser muito útil nos agasalhos da família.
A senhora Teresa, não era da família, apenas passava o dia na casa, depois da ceia voltava à sua pequena casinha onde habitava sozinha, na casa dos oitenta anos, mulher de forte carater, solteira, auxiliava-se de um pau para caminhar, de mãos era ágil e uma especialista com as agulhas para todos os trabalhos. A senhora Teresa tinha iniciado a sua juventude ainda no seculo dezanove, não sabia ler nem escrever e contava muitas coisas que eu ainda não compreendia, mas havia uma certa magia naquela senhora, portadora de uma memória sem fim.

Sempre que ficávamos juntos, contava histórias do seu tempo, que me deixavam deslumbrado, antes das histórias tinha de rezar com ela e só depois contava passagens da sua vida, que eram autênticos documentários, que teriam muito valor nos dias de hoje. Tratava-me por você e por menino, muito raro naqueles tempos, tratar por menino um criado, era coisa que não se via. Um dia perguntou-me se queria que me conta-se a história da porta do inferno, eu fiquei muito curioso e acenei afirmativamente com a cabeça, então prosseguiu; sabe menino as pessoas quando morrem vão bater à porta do céu, mas se não se portaram bem neste mundo, não há ninguém para os receber, a porta não se abrirá, então vão bater à porta do purgatório, que fica no mesmo caminho, mas também ali, não há ninguém à sua espera, depois de bater aquela porta centenas de vezes, segue caminho até encontrar o grande portão enferrujado do inferno. Aí! Comecei a ficar com medo, a historia vinha de tomar contornos assustadores, eu já estava com os cabelos ao alto, mas mostrava sempre o mesmo entusiasmo ao ouvir a senhora, então ela prosseguiu, sabe menino aquele portão está muito mal tratado, por haver muitas pessoas a ir ali bater, algumas ficam dias a bater aquele velho portal, até que venha o luciferes à pequena janela do lado dizer, que não tem lugar para ele e acrescenta; foste muito mau na terra, ultrapassaste todos os limites, mesmo os impostos por mim, ficas assim excluído deste meu paraíso das trevas, não quero que venhas impor aqui a tua maldade.

Eu perguntei ó senhora Teresa e depois! Ela contino-ou, o diabo disse-lhe; fizeste coisas que não tem perdão, mesmo à tua família e amigos, serás maligno para sempre e vaguearás pelo mundo até ao fim dos tempos. Eu disse à senhora não ter compreendido o fim da história, então ela acrescentou; estes são os espíritos malignos que andam pelo mundo para fazer perder as almas, por quem rezamos há pouco, lembra-se? Eu disse lembrar-me, mas na verdade, só agora sabia o significado das almas perdidas, que ouvia falar desde menino.
Alguns dias depois, pedi para me voltar a contar a história do velho portal enferrujado, mas a senhora disse, sabe menino, há histórias que só se contam uma vez. A senhora terá reconhecido, que a história era um pouco ousada para a minha idade.

A senhora Teresa apesar de analfabeta, era uma pessoa educada e culta, dizia ter andado por Lisboa muitos anos, desde a sua juventude e ter servido em casa de governantes da Nação, seria essa a razão do seu comportamento, quase sempre na perfeição, tratando todos com especial delicadeza, mesmo a mim tratando-me por menino. Vivia pobrezinha, trabalhava pela alimentação, mesmo tendo servido grandes senhores, de nada lhe serviu no fim de vida, eram tempos difíceis aqueles, obrigando os idosos a ir ao limite das suas forças para a sua sobrevivência. Morreu, levando consigo, todas as vivências de casas de ilustres onde serviu, todas as histórias que contou e que ficaram por contar...

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