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O Veneno na Ponta dos Dedos

A pandemia está a alterar negativamente a nossa mente – como combater?

O Veneno na Ponta dos Dedos

Voz aos Escritores

2020-12-11 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

As redes sociais instalaram-se nas nossas vidas. São uma realidade da qual a maioria não prescinde, uma realidade em que muitos se viciam, uma modernidade impalpável que espelha certas facetas da condição humana e que mascara os reveses da verdadeira existência. Nunca o ser humano teve tantos amigos na plena inconsciência da deturpação do que é a amizade, o laço mais puro e leal entre dois entes que se estimam. Chamar amigo a um seguidor do Facebook é uma profanação. No entanto o termo é usado e vulgarizado, É meu amigo no Facebook, dizem, insuflados e orgulhosos desse estatuto.
O Facebook e as outras redes da Internet aproximam os distantes e afastam os presentes. Nos restaurantes, nos cafés, nas pastelarias, nos bares, as pessoas sentam-se às mesas, frente a frente, lado a lado, numa presença ausente, agarradas aos computadores portáteis, tabletes e telemóveis, ignorando quem as acompanha nesses lugares outrora de confraternização, tertúlias, conversas sérias ou divertidas, charlas olhos nos olhos, subtis toques nas mãos, nos ombros e braços a insinuarem cumplicidade ou romance, trocas de palavras e de gestos sem a barreira do ecrã, essa cortina fria que oculta a verdadeira identidade, dá a sensação de protecção e de desinibição, o achegar aos outros sem a exposição dos fantasmas de cada um, dos medos, dos defeitos e das fragilidades. Muitos dos utilizadores das redes sociais constroem um arquétipo do que querem ser e ocultam quem na essência são. Mas essa ocultação é também uma falácia. Um utilizador mais atento e perspicaz consegue decifrar nos comentários dos outros as intenções das palavras que escrevem. As redes sociais trouxeram a democratização dos pensamentos e das opiniões, fomentam a valiosa liberdade de expressão, proporcionam a publicidade de produtos e de serviços a custos reduzidos, contribuem para o reencontro de conhecidos cujos rastos se tinham perdido, permitem uma rápida comunicação profissional e um acesso veloz ao que se passa no Mundo. Porém, as redes sociais são também um terreno onde muitos destilam as frustrações e despejam o veneno pelas pontas dos dedos, um vastíssimo palco onde procuram o protagonismo numa libertinagem da comunicação vil, ofensiva e perigosa, uma comunicação sem punição, pejorativa, insultuosa e amoral.
Para muitos utilizadores das redes sociais o sucesso dos outros é uma afronta, a galinha da vizinha é melhor do que a minha, vasculham os perfis e as páginas dos que consideram bem-sucedidos, escarafuncham, criticam ofendendo, opinam maldizendo, desbaratam erros ortográficos num notório desleixo desrespeitoso pela língua em que escrevem, rastejam vitupérios de índole sexual, imiscuem-se sem pruridos, a galinha da vizinha não pode ser melhor do que a minha e por isso degolam, depenam, achincalham, vandalizam capoeiros alheios desinteressados das ofensas, dos melindres dos destinatários e das suas famílias porque é mesmo isso que pretendem, melindrar, porque não suportam o brilho dos outros, porque não toleram a própria insignificância, porque não concebem a sua pobreza de espírito. Esses utilizadores pisoteiam. Nesse calcar satisfazem a sua insignificância e julgam engrandecer a sua pequenez. Esses utilizadores não medem os danos das suas palavras porque é isso que pretendem, magoar, denegrir, humilhar e as consequências desses comentários podem ser dramáticas, há jovens que se suicidam, há relações que se desfazem, há depressões que se arrastam. Mesmo que o alvo a atingir tenha uma elevada autoestima, não fica indiferente à maledicência. Ninguém gosta de ser espezinhado e padece com o sofrimento dos que lhe são queridos, vítimas indirectas desses comentários públicos. São insultos cobardes, escritos por detrás de um ecrã, mas lidos por todos, o que aumenta o mal-estar dos destinatários e lhes incrementa a dor e a impotência de se defenderem legalmente.
As redes sociais mostram a face maléfica do ser humano, o veneno na ponta dos dedos escancara a ofensa impune e a impunidade é um dos maiores perigos da sociedade. Aos agressores, deixo uma citação de Pablo Neruda:
“Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo. E essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas”.

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