Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O verão quente de 1975 num mundo de insectos

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2015-08-16 às 06h00

Escritor

ANTÓNIO FERNANDES


Dizem ser, a cigarra, um inseto preguiçoso. Dizem ser, a cigarra, um inseto cantador.
Fico assim sem saber se ser cantador é profissão ou um expoente de referência da preguiça.
Por comparação em sentido contrário apontam um outro inseto, a formiga, como a referência do trabalho afincado e da poupança extrema.

Diz-se por isso: que um ficará com o espectro da fome em perspetiva, e o outro com o pecúlio do seu trabalho armazenado para consumo assegurado.

Simplesmente, a cigarra, é uma espécie despreocupada. O que não acontece com a formiga que abunda por esse país real adentro.
Um país real que volvidos quarenta anos após um outro verão quente. Um verão em que o quadrante político se sobrepunha ao reino dos insetos. Um verão em que a vida dos Homens tomou forma ao mudar de rumo em 1974.
Um verão quente, o de 1975: nomeadamente no confronto físico entre atores dos interesses instalados. Financeiros; econômicos; sociais; e que nesta Augusta cidade de Braga teve o seu epicentro.
Um verão ensurdecedor no vociferar dos insultos incutidos em sermões de ocasião, para a ocasião, e que lhe serviram de inspiração mobilizadora de combate e confronto político. Que de púlpitos da crença se fez púlpito de batalha política contra um regime de formigas que tinha deposto um outro regime. O das cigarras.
E que, volvidos quarenta anos, aqui, em Braga, no epicentro desses acontecimentos, onde um outro anterior aconteceu neste largo aonde nos encontramos, - entre a Av. Combatentes da Grande Guerra para uns e Avenida Central para outros e o Largo da Senhora A Branca, tentamos reproduzir através da escrita, neste evento levado a cabo pela 'Velha Escrita', consoante o registo existente na memória de cada um.

Sobra este sabor amargo a frustração na nostalgia dos que tendo sido parte ativa desse verão quente se resignam a constatar que afinal, as cigarras, sobreviveram às formigas porque do alto da matreirice preguiçosa se consegue vislumbrar melhor o caminho da oportunidade em que assenta a razão de ser do oportunismo saloio que domina a classe política atual. Preguiçosa mas oportunista. Tal qual a cigarra. Enquanto o cidadão comum se resigna ao papel da formiga que busca e amealha durante uma vida inteira a comida com que se há-de alimentar.

Um verão quente que nos legou esperanças e que o emergente verão gélido enterrou.
Um verão sem sensibilidade, este de 2015, que no prolongar de outros verões sucedâneos ao verão quente de 1975, transformou a tranquilidade confiante no ensurdecedor ruído que o medo do futuro nos provoca.

Fica o sonho do Homem como garante de que outros verões haverá:
Feitos por formigas, para as formigas!
Onde as cigarras, democraticamente, continuarão a poder cantar os silêncios ensurdecedores... que todos os medos provocam.

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