Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O verdadeiro ouro

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2015-08-24 às 06h00

Escritor

Manuel Correia

A segunda guerra mundial tinha acabado. A Europa central estava devastada! Portugal na sua neutralidade e periferia saia ilesa. O povo resistia há fome, num regime ditatorial. Os agricultores eram visitados todos os dias por alguém a pedir pão! O tempo era de fome, de muita partilha.
A década seguinte trouxe esperança. Começou uma nova vaga de industrialização em Portugal. O povo era explorado, mas era melhor ter pouco do que nenhum. Sempre dava para comer, e as famílias eram constituídas por muitos filhos. A religião católica prosperava e o lema era: juntai-vos e multiplicai-vos.

Paulo era um chefe de família, homem de estatura média, magro, rosto esticado e cabelo preto, tinha uma personalidade forte, sempre com muita determinação. Com seis filhos para alimentar, vivia momentos de angústia. Sem grandes recursos, sem trabalho na sua área: construção civil. Fazia pela vida na forja a fazer pregos para os carros de bois. Trabalho duro e mal pago.

Num desses anos da década de cinquenta, chegou o dia de Páscoa. Um seminarista tinha substituído o padre que estava doente, de vestimenta branca, o seminarista reparou na forja, com todo o aparato de foles, e ao entrar na sala, e, depois de dar a bênção Pascal, começou por dizer, Aqui parece a casa do fol. Paulo, sem meias medidas disse, E bufa e bufa bem.

O seminarista lá começou por entregar as estampas (santinhos) hás crianças, e Paulo com ar de malandro, E para mim não há uma estampinha? Qual estampinha qual carapuça, o seminarista estende a mão direita e cola na cara de Paulo e com ar de mauzão, E se for uma estampinha destas? Paulo não perdeu tempo e com a mão direita serrada em punho, encostou-lhe há barriga e respondeu, E um tiro pelos foles dentro? O seminarista levantou a batina e sem olhar para trás, arrancou a todo o vapor, deixando o resto da comitiva para trás, tal o medo da ameaça.

Paulo era o retracto fiel do homem português daquela época, que vivia na zona rural, e sentia na pele a crise dos tempos. Durante muitos anos foi vivendo da construção civil, tal era a sua arte, chegando a encarregado de obras. Agora era ferreiro, passava o tempo a forjar o ferro, a bater na bigorna, no calor do carvão, a queimar a pele e os ossos.

Na tasca da aldeia, jogava às cartas e bebia umas pingas, normalmente ao domingo à tarde. Por vezes os ânimos aqueciam e a jogatina acabava mal, mas no dia seguinte já sem o efeito do álcool, tudo voltava ao normal. Na aldeia havia mais chefes de família como Paulo: com dificuldades e sem trabalho na construção. As notícias eram poucas e chegavam muitas vezes em forma de rumores. Televisão não havia, e os rádios eram escassos.

Um dia de domingo na tasca habitual, mesmo antes de rolar o vinho nas gargantas e as cartas serem baralhadas, um dos amigos de Paulo veio com a novidade, que em Alcácer do Sal havia muito trabalho na construção civil! A pergunta habitual surgiu de imediato, E quem te disse? Foi um amigo que trabalha num senhor que tem um rádio e ouviu. Mas tens a certeza, disse outro?

Será que ele ouviu bem? Nessa tarde não se jogou às cartas, falou-se da novidade. De quem queria ir, como e quando? Todos queriam ir, mas faltava dinheiro para a viagem. Um deles como não era da arte, acabou por desistir da ideia, e, também não tinha dinheiro para a viagem. Restavam três: Paulo, José e Pedro. Só Paulo é que tinha uns escassos recursos e para ir tinha que ter a certeza. José foi o que veio com a novidade, e ficou de verificar a veracidade da notícia, não vá o diabo tece-las!

Surgia uma luz ao fundo do túnel. Esta oportunidade vinha mesmo na hora certa. Dinheiro para a viagem ia ser a dificuldade maior, dos três, só Paulo tinha sem recorrer a empréstimo.
No dia seguinte, segunda-feira à noite, reuniram-se os três para saber das novidades que José tinha para dar. A notícia era verdadeira, havia muito trabalho na construção civil em Alcácer do Sal. Vamos já amanhã, disse Paulo. Mas eu não tenho dinheiro que chegue, respondeu José. Pedro cabisbaixo, Eu não tenho nem para ir até Braga. Bom como eu sou vosso amigo, vou ficar empenhado mas empresto-vos o dinheiro, falou Paulo. Todos radiantes, concordaram e no dia seguinte bem cedo, deixaram as famílias, e fizeram os primeiros sete quilómetros do percurso a pé até à estação de caminho-de-ferro de Braga.

De comboio, de camioneta os três rumaram até Alcácer do sal, numa aventura em busca do ouro. Apesar de mal alimentados a esperança mantinha-os em pé, como se o corpo desligasse da mente, por estar ocupada com uma ideia: o fim dos dias maus estava a chegar.
A viagem foi cansativa, e finalmente tinha terminado. O primeiro a pisar Alcácer do Sal foi Paulo, feita a honra do financiador. Havia um ar de satisfação, como se acabassem de ser premiados com um bilhete da lotaria! O sol estava ofuscado pelas nuvens, as ruas quase desertas, o vento soprava moderado, e o rio Sado corria suavemente com os seus barcos ancorados.

Paulo sem perder tempo em contemplações paisagísticas, deu o mote, Temos que saber aonde são as obras. Entraram numa espécie de restaurante rustico tipo casa de pasto, e perguntaram aonde estavam a fazer uma grande obra, aonde havia muito trabalho de construção civil? Um senhor de meia-idade aproximou-se, e com uma voz pousada, Aqui em Alcácer não há nada, só a pesca no rio Sado e pouco mais. Mas disseram-nos que havia muito trabalho de construção, Falou Paulo. Meus amigos, vocês de onde são? De Braga, respondeu Pedro. Tenho muita pena, mas aqui não há nada. Não há nada? Perguntou Paulo com ar de desconfiança.

Não aqui não existem obras a serem feitas, estão enganados. Não queriam acreditar no que estavam a ouvir, fazer uma viagem de mais de quatrocentos quilómetros para nada! A alegria que minutos antes tinha desaparecido naquele instante. Ficaram pálidos e agastados, sentaram-se e ficaram calados, mergulhados numa profunda desilusão. Três homens sentados fazendo um esforço tremendo para impedir que as lágrimas se soltassem. Paulo pensava, “como fui cair neste pesadelo?”. Mil e uma ideias passavam pelas frágeis cabeças, suportadas nos corpos mal nutridos. Paulo ainda pensou que tudo não passava de um mal-entendido, que o melhor era perguntar a outras pessoas.

Saíram dizendo que iam apanhar um pouco de ar. Uma leve aragem vinda do rio Sado atenuava a desilusão, com tanta actividade neurológica um pouco de ar arrefecia as ideias. Abordaram as poucas pessoas que viam na rua, entraram em estabelecimentos comerciais, falaram com pescadores e a resposta foi desoladora: Aqui não há trabalho na construção civil. Paulo ainda se zangou com José, mas depressa chegou à conclusão que ele também foi enganado.
Voltaram à casa de pasto e com o pouco de dinheiro que Paulo tinha, pediram três sopas.

A generosidade nestas ocasiões é como um anjo que cai do céu! O dono da casa de pasto trouxe as sopas, vinho e pão. Paulo, antes de comer, Senhor, nós só pedimos sopa, não temos dinheiro para mais. Eu sei o que vos deve custar digerir toda a desilusão de uma viagem que foi em vão, hoje vão comer do meu pão e do meu vinho, e, apenas lembrem-se que é nas dificuldades que se vêem as pessoas boas. Como um gesto de bondade pode atenuar a vida difícil!

No dia seguinte, e depois de dormirem na casa de pasto, tomaram o pequeno-almoço e com um saco com algum pão e água, com o patrocínio generoso do dono da casa de pasto, iniciaram a viagem de regresso até Braga, mas agora com duas diferenças: a pé e a pedir para comer e beber, com a esperança de chegar a casa. Aonde o verdadeiro ouro os esperava: a família.

Foi a viagem mais longa das suas vidas. Pediram quando precisaram para comer, fizeram trabalho para compensar. Bateram à porta de conventos, postos da guarda, romperam as solas das botas, já mal podiam pousar os pés no chão. Caminharam de noite e de dia. Cansados, molhados da chuva, dormiram de baixo de pontes. Ao passar numa terra foram confundidos por ladrões, tiveram que fugir à ira do povo. Nos momentos de descanso, recordavam as pessoas que os ajudaram, e, lembravam-se sempre do dono da casa de pasto.

Quando passaram o Porto, sentiram-se quase em casa, tal a proximidade de Braga. E olharam o rio Douro com os seus barcos rebelos carregados de vinho, e, por momentos ficaram, admirar a beleza da paisagem, com a vontade de beber um copo daquele vinho.
Braga, finalmente Braga! Beijaram o chão, abraçaram-se e deixaram correr as lágrimas contidas. Em casa tinham os lingotes de ouro à sua espera: a família. Quando chegaram, sentiram-se os homens mais ricos da terra. Paulo abraçou a mulher e os filhos e dormiu finalmente na sua cama.

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