Correio do Minho

Braga, terça-feira

O vigilante e a sua estória, por Abdel Eusébio

Tancos: falta saber quase tudo

Conta o Leitor

2010-08-31 às 06h00

Escritor

Escuto uma melodia nervosa mas recuso-me a aceitar o facto de um simples objecto, gasto, cansado e feio possa controlar o meu sono. Fecho com raiva a minha mão direita e aperto com força o lençol branco já velho, porem fresco que embalou-me nestas ultimas cinco horas, i can see your hallo se não fosse uma obra-prima de uma cantora fenomenal já teria arremessado o frágil aparelho contra a parede. Saio da cama ainda fraco, sonolento e para complicar, deambulo no meu quarto todo ele escuro porque o interruptor fica longe.

Vou então às apalpadelas à procura do dito cujo e mais uma vez dou um bico no raio da cómoda que já ontem estava plantada no mesmo sítio. «Merda, outra vez!?»

Na memória, ainda fresca, relembro-me dos momentos deliciosos passados ao lado dela, o perfume dela, o sorriso dela, o gosto dela, flutuam colam-se misturam-se nos meus cinco sentidos e vou meio acordado meio a sonhar vestindo a farda de vigilante. Minha estória não tem estória, minha estória é a de um simples humano igual a milhões de outros seres humanos que acordam para mais um dia de trabalho. Mas o que tem de interessante uma estória sobre o vigilante?

Talvez por ser a minha estória, desinteressante por ser igual a milhões de outras estórias, mas que por ser minha tem outro encanto.
O dia abriu limpo sem vergonha de mostrar o seu lindo corpo azul e na rua as pessoas sorriam maravilhadas com esta linda madrugada de verão. Sorri para a velhota da limpeza que no rés-do-chão do prédio esfregava o vidro da porta de saída enquanto eu abria a porta do meu carro. O nó da gravata apertava o meu pescoço, mas continuei voando sobre o asfalto em direcção ao serviço.

No meu bolso direito a mesma melodia que atrás me irritou, alegrava agora o meu espírito. I can see your hallo, e no visor do aparelho a foto dela, com o sorriso dela, o brilho dela, bem mais brilhante e natural que a própria luz do sol. - Olá princesa! Como era habitual ela mimava-me sempre com estes telefonemas madrugadores… Olá príncipe! Mimiste bem? Sim.

Disse-lhe eu com o sorriso bem rasgado e bem aconchegado no conforto desses mimos madrugadores. Sabes uma coisa princesa? Não, ainda não me disseste lindo. Disse ela rindo suave. Então não te digo, vais ser tu a adivinhar. Começámos a entrar naquelas brincadeiras de garotos apaixonados que procuram saber ou dizer algo que já sabem mas que não o dizem logo. «Brilha mais do que o sol, tem mais tempo que o próprio tempo» …. «Estas a complicar príncipe», interrompeu ela sorrindo e já despertada do sono propositadamente madrugador.

Na estrada conduzia alegre, ignorando os perigos das pesadas multas que estava sujeito por falar ao telemóvel na condução. De facto um vigilante deveria dar melhor exemplo aos outros automobilistas… «sabes que eu não gosto de adivinhas, prefiro as fofocas sem rodeios», continuou ela.

- Então será uma fofoca. Disse-lhe eu
- Conta, estou curiosa. Ela fingia não saber qual o segredo na fofoca, mas este jogo de sedução animava-nos e transportava-nos para momentos distantes e outros recentes de extrema cumplicidade.
- Descobri algo que não vais acreditar ser verdade.
- A sério!? Disse ela.
Sim.
- Algo muito sério para ser verdade. Fiz uma pausa alongada e suspirei alto
- Mas tu estas bem príncipe? Tem haver contigo. Disse ela
- É algo mais profundo linda, algo que ultrapassa o limite do prazer humano.

Conduzo lentamente pela via principal e causo filas intermináveis pois a minha marcha lenta, é a marcha do amor, sem pressas pois cada momento com ela era vivido como se fosse o ultimo. Era sempre uma luta injusta contra o tempo sempre que sonhava com a minha princesa ou falava com a minha princesa ou namorava com a minha princesa…

- E a fofoca, qual é!? Disse ela com um sorriso tímido, como se o telemóvel estivesse a fazer-lhe cócegas.
Não era fofoca, era a vontade de prolongar aquele momento, aquela curta viagem de todos os dias para o serviço saboreando cada palavra dela, cada sorriso dela, toda a doçura e mimos dela. O simples acto de aproveitar um frágil aparelho, sim esse mesmo que nos faz acordar a altas horas da manhã e que nos irrita, mas que por outro lado nos delicia com a voz quente para desejar um bom dia de trabalho.

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