Correio do Minho

Braga,

O Zambeze… e o velho crocodilo

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2014-08-31 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

O Leste de Angola foi para muitos jovens Militares, um destino obrigatorio, durante a guerra Colonial. Neste vasto território passa o rio Zambeze, é o quarto maior de Africa, atravessa cinco Países até chegar ao Oceano Indico. Sendo eu um Militar no alto Zambeze (Cazombo), percorri toda a zona Leste como condutor de Berliet, eramos assim chamados. Transportei muitos Militares, mas também, muitas pessoas das povoações locais que se deslocavam para outros povoados, alguns deles nas margens do Zambeze. Ali, aprendi a respeitar o rio e as suas crenças, pois o Zambeze era motivo das mais variadas superstições, como é tradição dos Países Africanos.

Aqui, muito cedo as crianças começavam a arte da pesca e da caça, enfrentando os perigos desde muito cedo, pois havia animais selvagens e crocodilos que tornavam as margens num perigo permanente. As populações viviam isoladas entre si, fazendo caminhadas de muitas horas para se poderem encontrar. Foi o caso do jovem Samuel que encontrando o José da população vizinha se fizeram amigos, tinham quinze anos e foram os protagonistas desta história.

O Samuel e o José encontravam-se entre si, mesmo tendo de percorrer muito caminho a pé, através da floresta. Como todos os jovens, tinham espírito aventureiro, e para mostrar que já eram homens, cada um com o seu arco ao tiracolo e flechas na mão, partiram para as margens do rio, não tendo em conta os perigos constantes que os rodeava. Caminhavam lado a lado em silêncio para poder surpreender os animais que frequentemente iam beber às margens do rio, quando de súbito se enfrentaram com um grande crocodilo que os impedia de passar e com olhar ameaçador levantou a cabeça, para mostrar que estava em seu território.

Inconsciente do perigo, o Samuel pegou uma pedra e atirou ao crocodilo acertando-lhe na cabeça, o crocodilo não gostou e fiz uma investida de alguns passos, então o Samuel vendo o perigo disse ao José para fugir, mas o José disse que não foi ele que atirou a pedra. O Samuel correu em sentido oposto ao rio para a mata, só depois se lembrou do José e depois de muitas hesitações voltou ao mesmo local, mas já não viu o amigo nem o crocodilo, ficou uns momentos junto ao rio observando as águas turvas que ondeavam com o vento naquela tarde. Então o Samuel viu que perdera o seu grande amigo para sempre. Inconsolado, deixou o seu arco no local e correu para casa, carregando o remorso da morte do amigo, pois se não atirasse a pedra, o crocodilo não os teria atacado.

No dia seguinte, o Samuel não falava e não comia, na sanzala todos comentavam o estranho comportamento do jovem Samuel, sabiam que alguma coisa se passara, mas era um segredo que só ele sabia. Três dias depois, o Samuel meteu-se ao caminho da povoação do seu amigo José, pois só assim teria a certeza se o seu amigo teria sido comido pelo crocodilo, mas à medida que se aproximava da povoação, ouvia a música usada nos momentos fúnebres e o choro dos que lá habitavam. O Samuel sentou-se e por muito tempo ficou ali, sentado, com a certeza que choravam o seu amigo e não tive coragem para continuar a caminhar.

Depois de muitos meses de angústia o Samuel retomava a vida normal, mas nunca esquecendo o amigo perdido. Visitava o lugar onde o amigo teria sido comido pelo crocodilo e o seu arco continuava lá, como o deixara. Fazia-lhe bem à alma voltar àquele local, ainda tinha uma réstia de esperança que os bons espíritos lhe trouxessem o amigo de volta. Um ano depois deste acontecimento, havia um casamento na povoação do amigo perdido, o que se traduz naquelas aldeias numa grande festa, então o Samuel estava curioso de conhecer o dote do noivo, pois também ele queria casar e sabia que tinha de arranjar alguns bens, para dar à família da noiva, em troca da sua mão, respeitando assim, os costumes e tradições do seu povo.

Com a consciência pesada o Samuel caminhava sozinho em direção ao povoado, ao longe já se ouvia a música tradicional que ambienta estas regiões em dias de festa e fazia o Samuel esquecer o que se passara há um ano. Depois de algumas horas de caminho, o Samuel chegava à povoação vizinha e timidamente aproximava-se, admirando as moças que naquele dia estavam todas bonitas, com as suas pinturas, só usadas em dias festivos.

As raparigas ao verem-no ficaram curiosas, aproximaram-se, ficando encantadas com o jovem Samuel. Uma das moças propôs que o Samuel conhece-se o noivo e foi chama-lo. O Samuel viu o noivo ao longe e à medida que se aproximava reconheceu o seu amigo José, que com dezasseis anos casava nesse dia. Abraçaram-se e o Samuel não pode conter as lagrimas, que à muito lhe retinham tanta angústia no peito.

O Samuel e o José recordaram o velho crocodilo e o que se passara naquele dia. Dias depois, decidiram voltar ao local onde o Samuel deixara o arco e foi com grande surpresa, que viram lá o mesmo crocodilo, junto ao arco deixado pelo Samuel. Afinal, era um velho crocodilo, que cansado, conhecia bem as suas limitações e já não se aventurava, distanciar-se muito das margens do rio. Mas para o Samuel, naquele crocodilo encarnavam os espíritos bons, que trouxeram o seu amigo de volta. Aquele local passou a ser venerado por todos. A crença daquela povoação transformou aquele espaço, num local de peregrinação e magia, onde se implorava aos bons espíritos, a proteção das suas famílias…

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