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O Zezinho do vestido

Vamos mesmo continuar a cometer os mesmos erros?

O Zezinho do vestido

Conta o Leitor

2020-07-06 às 06h00

Escritor Escritor

Texto Félix Dias Soares

Foram muito difíceis os inícios do século vinte, a pobreza acentuou- -se no nosso Portugal rural, as famílias eram numerosas, sendo difícil a sua sobrevivência, muitos imigraram, outros optaram pela agricultura fazendo-se caseiros de terras. Naquele tempo, todos tinham algum conhecimento na área da agricultura, o bastante para iniciar essa atividade. O gado era a ganho e por vezes as alfaias agrícolas emprestadas, a força do braço e a sua coragem, era tudo que tinham para lutar pela sua sobrevivência. Foi numa família de caseiros que o Zezinho do vestido nasceu, na Freguesia de Semelhe, onde foi uma criança normal até aos seis anos de idade.
De nome José Soares, nascido em 1909, filho de Francisco Soares e Rosa da Silva, era uma criança desenvolvida e inteligente para a sua idade, quando a Meningite o dotou para sempre de uma grande incapacidade, física e intelectual. O Zezinho não se desenvolveu, ficando reduzido a pequena estatura. Sua família mais tarde instalou-se na freguesia de Cabanelas, continuando como caseiros, família pobre, mas de bons costumes, para quem a palavra dado valia a honra da família. O Zezinho acompanhou sempre a sua família, auxiliando em muitas tarefas na lida diária desse tempo. Muito cedo perdeu seu pai, logo apos a morte de seu pai, a família desintegrou-se, o Zezinho ficou com sua mãe e seu irmão mais velho, vencendo todas as dificuldades que advém de uma viuvez prematura.

É em jeito de homenagem que falo deste homem, porque mesmo com a sua incapacidade, tornou- se uma figura típica muito conhecida e respeitada. Desde muito novo, com seus olhos verdes e seu sorriso ameno, soube cativar simpatia, admiração e respeito, de todos aqueles que com ele se cruzavam. Era a pé que se deslocava, como era comum nesse tempo, mesmo à cidade de Braga onde tinha amigos e familiares, seu pai era natural de Real, onde existem famílias Soares seus parentes, bem como em Semelhe, onde passava temporadas, sobre tudo na ocasião das colheitas, a convite de amigos e familiares aí instalados.

Mas também em Cabanelas e outras freguesias, tinha convites para almoçar e jantar, em casas de famílias abastadas, tendo dias certos da semana para passar nessas casas, onde era acarinhado e bem tratado. Contavam os irmãos que o Zezinho não foi à Inspeção Militar, como seria normal, seus pais devido à sua incapacidade, não se ocuparam de tal facto, mas certo dia, a G.N.R. cercou a casa e prenderam o seu irmão Fernando, foram chamar o pai ao campo onde trabalhava. O pai ficou muito incomodado com o sucedido e ao saber o motivo, chamou o Zezinho e disse; o José é este, a G. N. R. ao ver o homem de vestido não acreditaram, o pai pediu por favor, soltem o Fernando que ainda é muito novo, entrou em casa e apresentou a cédula dos dois, dizendo, o José é este, está à vossa disposição, se vieram buscá-lo façam o vosso trabalho. A G.N.R. muito contrariada deixaram o Zezinho em paz, mas prometendo averiguar os factos, o que nunca aconteceu. Como todos os mortais o Zezinho envelheceu, tinha sessenta anos e a mobilidade era cada vez mais reduzida, os familiares cada vez mais dispersos, tornou-se urgente encontrar uma solução para o Zezinho. Foi pela mão do Notável, João Pinheiro (da Eira) da freguesia de S. Romão da Ucha que entrou no Asilo de S. José em Braga. Testemunhei a delicadeza e carinho como foi tratado nesta Instituição, mas também a sua felicidade, era talvez o único utente que tinha direito a um bagacinho de vez enquanto, com a bênção da Freira responsável.

Também aqui durante vinte anos, fiz amigos e era respeitado por todos, começou a usar calças, mas nunca perdeu a alcunha de Zezinho do vestido, ou Zezinho fartura como também era conhecido. Morreu em 1989 aos oitenta anos, tão pobre como nasceu, mas foi um homem livre, mesmo com a sua incapacidade fez prova de uma pessoa honesta e integra, dando testemunho, que se pode ser feliz com muito pouco.
Foi sepultado em S. Romão da Ucha terra que ele já tinha adotado como sua. A Meningite roubou-lhe muitas faculdades, mas Deus dotou-o de um sorriso incomparável e de uma alma de criança, que o protegeu nas muitas adversidades da vida e tornou uma pessoa feliz.
Aqui fica a minha modesta homenagem, a este Tio que sendo diferente, se tornou especial…

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