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Obama, o mágico

Kramer contra Kramer

Obama, o mágico

Escreve quem sabe

2021-03-06 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Em meados de novembro do ano passado, o 44º presidente dos E.U.A., Barack Obama, publicou o primeiro volume das suas memórias no desempenho do cargo entre 2009 e 2017 com o título Terra prometida. Fê-lo, provavelmente, para aproveitar a onda de mudança da administração republicana para a democrata e fazer sentir ou reavaliar a sua influência junto da opinião pública estadunidense, ajudando de algum modo o recém-empossado presidente, figura tida como menos carismática. Ou tê-lo-á feito, quiçá, para se posicionar já na corrida a um terceiro mandato em 2024, à semelhança do que vimos há dias Donald Trump fazer. Essa é a minha convicção. Ambos estão, pois, de volta à cena mediática do seu país, o primeiro para ser levado ao colo, porquanto se vislumbra já que vai continuar a ter boa publicidade – Obama é cool, joga basquetebol, tem boa pinta, é todo falinhas, inteligente como todos os de esquerda (?) e, claro, formado por Harvard – e o último para prolongar a relação de amor-ódio com a imprensa do tio Sam – Trump é grosseiro, joga golfe, é desengonçado, infacundo, obtuso como todos os de direita (?) e licenciado pela Escola de Administração Wharton da Universidade da Pensilvânia.

Todavia, seria bom não esquecermos quem foi Obama. Talvez devamos especialmente relembrar o especial contributo que deu para o fenómeno que a professora (aposentada) de Psicologia Social na Harvard Business School denominou de “capitalismo de vigilância”. É que, se remontarmos a 28 de dezembro de 2019, descobrimos um surpreendente post na conta Twitter @BarackObama: no topo de uma lista das suas obras favoritas desse ano, ele coloca o ensaio de Zuboff The Age of surveillance Capitalism, traduzido há três meses para o nosso idioma. Digo surpreendente para não usar a palavra cínico, porquanto a autora examina nessa sua obra o advento de uma era, a nossa, em que grandes empresas tecnológicas como a Google e o Facebook se empenham em controlar tudo o que fazemos para tirarem vantagens financeiras e obterem lucros com isso, referindo-se aos anos da administração Obama como aqueles em que a mesma ajudou ativamente a fortalecer esse modelo de negócios do “capitalismo de vigilância”.

E se remontarmos um pouco mais no tempo recordaremos que o senador Obama, entre 2005 e 2008, apregoava então grande insatisfação com o excessivo crescimento do sistema de vigilância do seu país, chegando mesmo a declarar em várias ocasiões, por exemplo no discurso de abertura da Convenção Democrática em 2004, coisas como: “não gostamos de agentes federais a bisbilhotarem as nossas bibliotecas”. No entanto, quando se sentou na cadeira do poder na Casa Branca, não teve grande pejo em consentir na recolha massiva de dados – em cartas, conversas telefónicas, emails, etc. – de cerca de 320 milhões de compatriotas, levada a cabo de modo secreto e ilegal pela Agência de Segurança Nacional (NSA) do seu país, cujo apetite pela informação privada a levou também à espionagem furtiva de líderes políticos em todo o mundo, a começar por declarados “amigos” dos EUA como a chanceler alemã (Angela Merkel) e presidentes franceses (Nicholas Sarkozy e François Hollande) e a relações diplomáticas com uma desconfiança mútua ainda não ultrapassada.

Não nos esqueçamos também, agora que dentro de portas temos o caso Rui Pinto, que Obama nunca perdoou Edward Snowden por, na viragem do primeiro para o segundo mandato, ter exposto essa verdade terrível e altamente inconveniente para si, mas instruiu a CIA para o capturar e trazer a julgamento nos EUA.

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