Correio do Minho

Braga, sábado

Objetivos, Motivação e incentivos

Menina

Ideias

2019-01-11 às 06h00

Margarida Proença

Aeconomia, já se sabe, mete-se por todos os caminhos, eventualmente pertença de outras áreas do saber; ainda que mantendo uma identidade própria, muito com base numa hipótese altamente simplificadora, do homem económico, racional, que faz escolhas e toma decisões, a partir de informações e sinais transmitidos pelo mercado com base naquilo que considera o seu interesse pessoal, que obviamente procura maximizar. A partir daqui, como refere Tirole no seu livro Economia do Bem Comum , e que é aliás reconhecido por qualquer pessoa com formação em Economia, compete aos políticos formular as políticas adequadas que permitam fazer o encontro entre a racionalidade individual e a coletiva, entre aquilo que é bom para o indivíduo X ou Y e o que é bom para toda a sociedade.
Não é fácil – veja-se por exemplo, este debate à volta da construção do aeroporto no Montijo . Pelo que vamos ouvindo nas televisões e nas rádios, as pessoas expressam os mais diversos pontos de vista, sempre de uma forma forte, claramente convencidas da sua razão, criticando a decisão e oferecendo alternativas que consideram muito mais positivas. E argumentam contra com a subida possível das rendas das casas, com o maior congestionamento de tráfego, por exemplo dando voz aquilo que mais as preocupa na sua avaliação pessoal, ou que seria melhor em Alcochete ou noutra localização onde residem e onde poderiam ver aumentadas as possibilidades de negócio ou emprego. Por aí fora; não têm certamente conhecimento dos estudos feitos ou em elaboração, dos registos contratuais, dos custos e restrições envolvidos em projetos infraestruturais desta dimensão, das alternativas ponderadas, ou mesmo uma avaliação dos problemas sentidos no aeroporto de Lisboa neste momento. Face à multiplicidade de interesses individuais, ou à perceção que se tem dos mesmos, compete ao poder formular as recomendações e tomar as decisões de política económica que permitam maximizar o bem comum, o interesse de todos face ao individual. Claro está que tal deve ser feito de forma rigorosa, fundamentada, transparente, respeitando escolhas, conciliando o presente com objetivos de longo prazo – e prestando contas, sempre. Decidindo e implementando.
A economia não coloca de parte a possibilidade de existirem comportamentos individuais que não baseados no interesse estritamente individual, ou na sua perceção. Ou seja, comportamentos pro-sociais, altruístas, capazes de interiorizar o bem-estar dos outros são possíveis. A generosidade é apesar de tudo, neste contexto, muito difícil de explicar, e remete para a análise das motivações. A imagem social que se pretende refletir, não apenas aos outros mas também a si próprio, a resposta a estímulos externos são motivações que podem estar presentes. Tirole conta um estudo que foi feito na Suíça, quando a reforma do processo eleitoral introduziu o voto por correspondência. Esperava-se que isso aumentasse a participação nas eleições, já que o custo das deslocações diminuía. Mas o que veio a acontecer foi exatamente o contrário; principalmente em zonas rurais, onde as pessoas todas se conhecem, uma das razões para ir votar era ser visto pelos outros, a pressão social que desapareceu com a possibilidade do voto por correspondência, e que não era verificável ou observável pelos outros. A identificação dos incentivos corretos, e das fontes motivacionais nos comportamentos sociais tem muito que se lhe diga.
Apesar de uma muito longa experiência de ensino , mais de 40 anos, confronto-me ainda todos os anos com a dificuldade de definir os incentivos adequados para induzir os estudantes a um desempenho mais elevado. Trata-se sempre de um objetivo importante, mas no ensino superior, com os estudantes a frequentarem licenciaturas de apenas três anos, e a serem potencialmente inseridos no mercado de trabalho de forma rápida, é fundamental induzir comportamentos de definição de objetivos, e melhor desempenho. Bem sabemos que cada ano, por esta altura, vamos estabelecendo metas a obter ao longo do ano, que com o tempo se vão esbatendo… O problema, não apena claro está com os estudantes, mas com todos nós, na generalidade, é a falta de controlo próprio. Mas ainda assim, diversas experiências que têm sido conduzidas apontam no sentido de que a definição de objetivos, de tarefas a cumprir, de resultados a obter, de estratégias a implementar, atua no sentido de aumentar o grau de compromisso para regular o comportamento individual, permitindo por essa via melhorar o desempenho.

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