Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Obrigado Cavaquistas

O mito do roubo de trabalho

Ideias Políticas

2012-01-31 às 06h00

Carlos Almeida

Quem esteve minimamente atento ao percurso político de Cavaco Silva sabe que o homem é pródigo em pérolas. Não, não falo de Maria, essa pobre vítima das baixas reformas do governo de Passos Coelho. Falo sim das declarações que Cavaco insiste, de tempos em tempos, em proferir. Das declarações que nos chegam, antes mesmo de passarem pela cosmética “do politicamente correcto”.

Recentemente fomos presenteados com mais uma dessas declarações. Talvez por lapso temporal, desleixo ou mera estupidez, Cavaco deixou passar a ideia de que também ele está a passar por dificuldades.

O valor total das suas pensões não chega para as despesas, queixava-se aos jornalistas, procurando justificar a falta que lhe fazem os subsídios de férias e natal. Não que façam falta aos restantes portugueses, mas ele, que se julga parco de rendimentos, não pode viver sem os ditos subsídios. Dito isto, toda uma onda de justa indignação e revolta invadiu o povo português.

A Cavaco pouco ou nada adiantava tentar explicar a infelicidade do insulto que representou aquela declaração para os milhões de portugueses que não sabem o que é ter dinheiro até ao dia 10 de cada mês. Talvez por isso se tenha enclausurado. É assim que Cavaco reage quando mete o pé na argola.

Diz não ter comentários a fazer e espera que o tempo vá limpando a sua imagem.
Uma semana depois do trágico discurso do Presidente da República eis que surge o momento da reviravolta. Ergue-se de novo o Cavaco justiceiro, amigo dos pobres, o tal que defende a equidade. A encarnação: um grupo anónimo (!) de cavaquistas (seja lá o que isso for). Os mensageiros: os jornais de serviço, sempre prontos a servir os interesses do pensamento único e dominante.

Reclamam os cavaquistas a demissão imediata de Vítor Gaspar, acusando-o de ser “ultraliberal” e responsabilizando-o pela destruição do modelo social e económico do país. Sim, estou a falar do Ministro das Finanças, esse mesmo Vítor Gaspar promotor e defensor do Orçamento do Estado para 2012, ao qual o Presidente da República deu luz verde com a sua promulgação. Confuso?

Não tanto quanto anedótico. Cavaco (ou os ‘anónimos’ cavaquistas no seu lugar) acusa o outro de ser ultraliberal! Obrigado Cavaco. Obrigado cavaquistas. Sem a vossa oportuna intervenção nunca saberíamos o que é um liberal a sério, nem sequer saberíamos que a política deste governo arruína as necessidades mais modestas da maioria dos portugueses. Valha-nos o Tó Zé - o tal da abstenção violenta que também viabilizou o Orçamento do Estado e ajudou ao acordo da concertação social - que pôs água na fervura, dizendo que este não é o momento para desavenças entre o governo e a Presidência da República. Sempre útil, o líder do PS.

Entretanto, deixem-se estar sossegados. Nós percebemos a jogada. Cavaco Silva não deseja mal algum a Vítor Gaspar. Muito menos à política do seu governo. O homem tentou apenas limpar a sua imagem depois do disparate da semana passada. Mas, à semelhança desse, a operação de limpeza foi uma tolice. Cavaco Silva perdeu a pouca credibilidade que tinha e agora não há volta a dar.

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