Correio do Minho

Braga, terça-feira

Obrigado José

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2010-06-22 às 06h00

Jorge Cruz

Estava e já não está. Esta descrição da morte, simples, linear, foi-nos deixada por José Saramago. Agora que ele próprio também já não está fisicamente entre nós, agora que nos deixou há umas dezenas de horas, torna-se difícil falar sobre ele.

Tive o enorme privilégio de com ele privar, o que me permitiu ter um conhecimento mais aprofundado e construir uma amizade que reforçou a admiração pelo escritor e pelo homem. Um homem que nunca desistiu dos seus ideais, nunca se rendeu. Sou, portanto, devedor dessa afeição. Mas agora que não lhe posso dizer directamente o quanto o aprecio e o quanto lhe estou grato, também pela inestimável e preciosa ajuda que nunca recusou dar à Feira do Livro de Braga e, consequentemente, à própria cidade, o embargo dificulta a busca das palavras que se ajustem à ocasião. Perdi um amigo e, talvez por essa razão, por me sentir condoído e mais fragilizado, tenho que reconhecer, parafraseando uma mensagem endereçada a Pilar, companheira do José, que “não há palavras, Saramago levou-as todas”.

Recordo, já com enorme saudade, as tão encantadoras quanto perturbadoras conversas sobre variadíssimas temáticas da actualidade, o pessimismo galopante do José que, afinal, mais não era do que a constatação da triste realidade em que vivemos, enfim, as suas reflexões sobre as grandes causas da humanidade.

Estive pessoalmente com ele há uns meses. Encontrei-o fisicamente algo debilitado, mas com a lucidez de pensamento de sempre e com a energia suficiente para dar continuidade a uma obra que já o alcandorou ao patamar mais elevado da literatura mundial. Não suspeitei sequer que aquele era o nosso último encontro em vida. Revi-o este fim-de-semana em Lisboa. Em circunstâncias bem diferentes ou, usando palavras suas, quando ele já não estava.
Saramago cumpriu a missão a que se propôs: incomodou consciências, perturbou poderosos, lutou contra injustiças e defendeu os mais fracos. Também sob o ponto de vista da sua intervenção cívica, vai-nos fazer muita falta.

A despedida em que muitos participaram este domingo com um misto de emoção e reconhecimento está longe de ter sido um fim. Tratou-se, antes e como muito bem sublinhou Carlos Reis, de “uma despedida sem adeus” porque, como também afirmou citando Eça de Queirós, Saramago “está vivo e o seu espírito fulge descansado das humilhantes misérias da carne”.

De facto, a perenidade da obra está perfeitamente assegurada, não por favores ou pressões lobísticas, mas por direito próprio e inalienável, por se tratar de uma literatura que, conforme também foi amplamente frisado por especialistas, entronca em escritores como o padre António Vieira, Almeida Garrett, Raul Brandão e Montaigne, contendo ainda reflexos de Camões, Pessoa, Almada Negreiros e Kafka.

Figura incontornável da literatura, mas também homem de convicções fortes, intelectual comprometido e cidadão honesto, Saramago deixa-nos um le-gado precioso que de certa forma vai mitigar o estado de orfandade em que deixou os milhões de leitores em todo o mundo.
Evoco, a propósito, as palavras do padre e poeta José Tolentino de Mendonça, que depois de classificar Saramago como um “extraordinário criador da língua portuguesa e um narrador da condição humana”, sublinhou tratar-se de “um escritor de que todos os leitores sentirão falta”.

Aliás, Tolentino de Mendonça esvaziou uma vez mais as polémicas com a Igreja ao considerar que a abordagem que Saramago fazia ao cristianismo era “uma abordagem legítima de muitos pontos de vista, embora muitas vezes ficasse a meio das suas próprias perguntas”.
'Leio José Saramago por causa da Bíblia porque, apesar de algumas declarações do autor em relação ao texto bíblico, ele era de todos os autores portugueses contemporâneos aquele que mais a lia, mais a citava, mais perseguia a sua musicalidade e reescrevia os seus temas', afirmou ainda o padre e poeta. E Tolentino de Mendonça concluiu: 'para mim, enquanto especialista nos textos bíblicos, tudo o que Saramago escrevia era de leitura obrigatória'.

Será certamente através da divulgação da sua obra literária e da leitura dos seus livros que lhe poderemos prestar a melhor homenagem.

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