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“Ocidente é satânico”

A Árvore da Vida

“Ocidente é satânico”

Ideias

2022-10-01 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

Afrase é de Putin, proferida no seu discurso de ontem, comemorativo da declaração de anexação, à força, de 4 regiões ucranianas (Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhia). A autopromovida formalização da anexação, ocorrida ontem no Kremlin, surgiu depois de Putin ter tido o trabalho de simular referendos às respetivas populações (quem votou?!) de tais regiões em guerra e destruídas pela guerra. Aparentemente, hoje, nem as próprias forças militares russas controlam cabalmente tais territórios, agora e à força, declarados anexados. Houve, na realidade, uma tentativa de maquilhagem barata de legitimação popular de tal ocupação, através dos simulacros de referendos. Veremos, doravante, o que sucede com esta anexação violadora do Direito Internacional. Putin está a colocar, cada vez mais intensamente, o dito “ocidente” (para ele, Estados Unidos e NATO), numa posição especialmente incómoda: ter de decidir, sem tibiezas e com assertividade. Ter que tomar posições, promovendo (ou não promovendo) ações concretas que poderão efetivamente desencadear uma generalização da guerra em curso. Esse é o risco e, da mesma forma que Unamuno dizia que “o Homem ocidental gosta de viver habitualmente”, esse mesmo Homem ocidental não gosta habitualmente de fazer e assumir opções. Ainda por cima, opções deste género que comportam um risco efetivo de generalização da guerra! Isso –ainda para mais, sendo, neste caso, especialmente perigoso - fere o nosso pachorrento e civilizado modo de vida habitual.

Tenho, para mim, que a estratégia de Putin, embora tenha incorrido em vários erros de análise relativamente ao real estado das coisas (capacidade de resistência da Ucrânia, empenho e união do dito Ocidente, menor capacidade das forças militares russas, etc.), acaba por ser relativamente racional e certeira. Apostou na indiferença habitual da Europa e, de um modo geral, do dito “ocidente” (Estados Unidos à cabeça), para assumirem causas que coloquem em perigo um certo modo de vida corrente, com tons de relativismo e de hedonismo. Apostou, num certo sentido, na subversão das linhas vermelhas com as quais, há muito, o dito “ocidente” (e a Europa em particular) vive: essas linhas vermelhas são a possibilidade de se desencadear uma guerra. Vivemos, desde a Segunda Grande Guerra, na ilusão de que as guerras tradicionais, de controlo de território, de subversão das fronteiras estabelecidas, seriam tendencialmente uma impossibilidade histórica. Pelo menos, no espaço do “ocidente”.

Houve exceções a tal tendência, como, por exemplo, a guerra nos Balcãs - mas aí as coisas eram, dentro daquela violência e irracionalidade, aparentemente mais compreensíveis (embora injustificáveis). Eram uma espécie de guerra civil de grupos, de identidades e de etnias. De todo o modo, para Putin, parece certo que o dito “ocidente”, a NATO e a Europa nada farão, permitindo-lhe beneficiar de uma certa impunidade na implementação de um processo expansionista, estribado numa cosmovisão czarista e, de certo modo, “soviética” do papel da “mãe Rússia”. Para ele, tal terá sido, em parte, a lição que tirou do sucedido em 2014, com a invasão da Crimeia. Por outro lado, Putin tenta invocar o auxílio, para si, o “general Inverno”, no sentido de desgastar a vontade e a unidade europeias (sobretudo). Aposta nitidamente na dependência energética em que incorremos. Daí a sua afirmação de que os “ocidentais deverão vestir-se mais (por causa do frio) e comer menos”.

Enfim, a grande preocupação que deveremos, agora, equacionar é a de sabermos qual a nossa capacidade de resiliência, face aos necessários sacrifícios que a guerra e o apoio à Ucrânia provocam e provocarão. Os Estados do “ocidente” – e a União – deverão encontrar formas de apoiar eficazmente os cidadãos, de modo a que a respetiva resiliência se mantenha, não os deixando sucumbir à tentação de trocarem a causa da democracia e da liberdade, pelo conforto (natural e adquirido) precisamente através daquele “modo de vida europeu”. Não trocarem, no fundo, a democracia e a liberdade individual, pelo autoritarismo obscurantista. O “ocidente” só será satânico se sucumbir a essa tentação de busca de conforto imediato, seguindo o caminho traçado no mapa autoritário de Putin.

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