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Onde a pobreza mora

A pandemia está a alterar negativamente a nossa mente – como combater?

Onde a pobreza mora

Voz aos Escritores

2020-12-26 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

“A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.”
Carolina Maria de Jesus

Durante a minha infância, a pobreza era assumida como um destino. Mais pobre que os pobres era o pedinte, o caldeireiro, o itinerante.
Como na minha aldeia não havia prédios com antenas para o céu, a bitola era mesmo onde a pobreza ainda hoje mora. Assim, os mais pobres dos pobres não tinham casa e acampavam junto a eiras e palheiros velhos. Os pobres menos pobres moravam em casebres de xisto e, descalços, sentiam nos pés a terra húmida do chão e viam o sol e a lua pelos buracos do telhado, daí nascera a denominação “sem eira nem beira”, atribuída aos pobres. Em casa com dois pisos moravam os remediados, cuja situação, embora modesta, era suficiente para suprir as necessidades básicas. Pelo menos, não tinham fome. Acima destes, surgiam os ricos que habitavam em casas maiores e cujos telhados se distinguiam precisamente por terem Eira, Beira e Tribeira. Aqui vivia-se à larga, com as divisões principais da casa marcadas, contrastando com a promiscuidade de todos ao molho e fé em Deus dos pobres, onde a tarimba servia para sonhar. A casa do mais pobre que pobre era o mundo onde dormia em lençóis de nuvens e tapado com raios de sol. E se descalço nascia para a vida, descalço continuava até que sapatos de defunto calçasse. O pobre vivia sem condições e tinha uma vida muito dura! As crianças começavam a trabalhar de tenra idade e os homens trabalhavam de sol a sol, enquanto que as mulheres ficavam a cuidar da casa e dos ranchos de filhos. Como era de esperar, o pobre tinha uma indumentária muito básica. Sabe-se que até a roupa doada pelas misericórdias reconhecia as diferenças entre os próprios pobres. Os ricos davam as suas roupas, mas retiravam-lhes os respetivos botões, para os aproveitarem noutras peças novas, originando a necessidade de improviso a quem as recebia. Hoje, à distância, parece-me, como diria Jorge de Sena, que ninguém nos salva desta porra triste. Tal como Alice Vieira, sinto que "há cheiros de infância que não morrem nunca, nem sequer envelhecem como a nossa pele". Se escolhesse uma voz para me acompanhar neste registo sobre a pobreza, bateria à porta do escritor francês Jules Vallés:

"E os pobres! Espetáculo cujo horror o nevoeiro e a lama de Londres, por mais espessos, não conseguem ocultar! O que diríamos, sob o sol da França, em Paris, se subitamente, em pleno , boulevard, víssemos passar esses miseráveis: piolhos da sargeta, aranhas dos muros, sapos dos pântanos![…] a roupa parece uma pele que se descama, uma lepra que cai. É esfarrapada, como se os ratos devorassem o homem que a veste, como se tivesse recebido golpes de forcado. E há nos rostos uma tal expressão de fadiga e terror! Em Londres, essa miséria passeia pelas ruas, sem que ninguém se detenha, com espanto ou piedade."
Ironicamente, nos anos 60, em França, a pobreza tinha rosto português. Portugal apresentava, nessa altura, quase metade da população analfabeta e pobre, sendo a maior percentagem entre as mulheres! Realmente muito triste! Um país sem água potável canalizada, sem saneamento básico e sem um sistema de saúde capaz.

Mas, afinal, o que é ser pobre?
A UNESCO estima que quase mil milhões de pessoas em todo o mundo vivam em pobreza extrema, a grande maioria delas em zonas rurais. Curioso e trágico é saber-se que são as crianças e as mulheres as mais vulneráveis à pobreza extrema.
No momento atípico que atravessamos, também em Portugal há pessoas em risco de pobreza extrema. Confrontamo-nos com uma forte crise económica e social. Os indicadores apontam para um aumento do desemprego no grupo de trabalhadores onde o risco de pobreza era já mais elevado. E se um dos objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas é conseguir reduzir este flagelo até 2030, a pandemia veio endurecer a real tarefa. Como dizia Joseph Wresinski, ele que cresceu na pobreza e experimentou a exclusão social, a miséria é obra dos homens e só os homens a podem destruir. Haja coragem, pois a vida não é só feita de
banhos de chuva e de incertezas, mas também de cantigas e raios de esperança, como inferimos de Eça de Queirós: Os tristes, os deserdados, os pobres, os oprimidos, quando tudo lhes falta, o pão, o lume, o vestido, têm sempre, no fundo da alma, uma cantiga pequena que os consola, que os aquece, que os alegra. É a última coisa que fica no pobre. E então a cantiga vale mais do que todos os poemas.

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