Correio do Minho

Braga, terça-feira

Onde começa e acaba uma cidade?

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2018-01-29 às 06h00

Filipe Fontes

A pretexto da leitura de um texto publicado num meio de comunicação social nacional sobre as cidades, os caminhos que utilizamos para lá chegar e, sobretudo, o tempo que demoramos a alcançar fisicamente estas mesmas cidades (a partir da nossa residência), resulta a evidência (se é que, para tal, fosse necessário) de quão importante, hoje, é reflectir sobre o que é a cidade e sobre a sua mudança estrutural de como, na actualidade, entendemos e vencemos a distância física entre dois lugares. Ou seja, até que ponto, hoje, desvalorizamos a distância em quilómetros para nos centrarmos naquela menos material mas que nos condiciona permanentemente: o tempo.
E, se tal, parece, numa primeira abordagem, acessório e não central na problemática destas mesmas cidades (ou Cidade no seu conceito lato) Cidade cheia de problemas e desafios, virtudes e erros que importa potenciar e superar não menos fundamental é entender o que é hoje uma cidade, onde começa e acaba (será que tem limites?), de que forma é passível de ser gerida (será que suporta o modelo tradicional do plano ou caminha para outras formas muito mais ligadas ao processo?), quais os seus habitantes e a respectiva natureza (que são muito para lá dos autóctones ou gerações de migrantes há muito instaladas na cidade).

Na verdade, e citando Nuno Portas a nova cidade plural, que pode e deve ser acompanhada e corrigida em todas as suas componentes (e não só nas pericitadinas), exige um nível de compromisso na sua governação que pode (acrescento eu, deve) oferecer aos cidadãos condições mais equilibradas e sustentáveis de mobilidade e habitats e mereça assim o neologismo de metapólis; ou seja, de pólis que inclui diferentes formas sociais e urbanísticas que mais convenham aos citadinos para viver, crescer e mudar. A cidade, hoje, é uma realidade tão diversa daquela que, antes, se eternizou como cidade cânone - ou seja, cidade legivel- mente delimitada, previsível e planeada que se torna difícil categorizá-la ou nomeá-la (e não faltam tentativas, desde o disperso ao difuso, ao periurbano ao perirrural, às periferias e metrópoles, entre outras). Talvez, o reconhecimento dessa cidade e a sua substituição (que anda a caminho entre um inevitável bzidróglio onde muita coisa acontece e um estranho palimpsesto (resultante da sobreposição e colagem de camadas temporais e físicas que se somam sequencialmente mas sem eventual relação ou coerência) seja o caminho.

Na actualidade, e centrando a reflexão na nossa realidade regional mais próxima, observamos que a urbanização e a artificialização do solo vai tomando conta da paisagem, marcando continuidades e descontinuidades tão fortes (no primeiro caso) como frágeis (na segunda situação) e que nos leva a ter a percepção (ou sensação) de que uma viagem entre Braga e Guimarães ou entre Guimarães e Famalicão ou Santo Tirso nunca deixa de ser feita em solo urbano (dir-se-á citadino).
A cidade canónica, aquela tradicional, implodiu e explodiu, não resistindo ao fenómeno da globalização para, numa escala dir-se-á mais caseira, não resistir à massificação do crédito, do automóvel, do telemóvel, do digital e do microondas, entre outros, que originou amplas perspectivas de acesso à habitação moradia, formas diversas e de forte mobilidade de trabalho, novos modos de relação que destruíram sem retorno o triângulo estrutural da história urbana casa escola trabalho.

Elegendo uma qualquer estrada nacional entre as principais cidades da região, constatamos um contínuo urbano que surge tão natural quanto inquestionável porque, porventura, esta é a realidade que já se encontra por demais assimilada em todos nós. E por isso, não questionamos. Nem reflectimos sobre ela
E esta mesma estrada nacional serve de mote para introduzir a noção de tempo como o medidor de excelência da distância. Porque, hoje, já não dizemos que o percurso tem x ou y quilómetros de distância. Simplesmente que demora x ou y minutos, relacionando-se, depois, este tempo com o período de dia da realização da deslocação (é muito mais importante saber o tempo que demora a viagem de manhã ou ao final da tarde do que a sua distância quilométrica nunca esquecendo que a Cidade, por muito mutável que seja, não resiste sem rotinas e hábitos).

A Cidade é, assim, no presente uma contradição contínua que ainda não encontrou outras denominações mais assertivas. Nem aparenta ter perdido o carácter identitário e polarizador do seu centro.
Talvez, por isso, nesta região onde a cidade é um fenómeno espraiado e contínuo no território, muitas, mas muitas, pessoas continuem a dizer de forma convicta vou até à cidade (como se vivessem fora dela!)

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