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Ideias

2022-04-23 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Fraca figura faz quem não acorda para o dia corrente, o que nenhum verbo relevante conjuga no futuro ou em condicional que lhe advenha contrário. Falo dos atrasados, daqueles que ruminam parcialidades que nunca chegam a digerir, daqueles que estalam a língua com vivaz satisfação ante quitute de farisaico tempero. Falo dos porta-vozes das miopias grandiloquentes, dos que retocam a realidade com princípios que rara vez aplicam a si, mas que válidos reivindicam para terceiros, na plena extensão do preceito.
Da Rússia e Ucrânia falaria, quanto por perto perdesse eira com espiga para desfolha. Não repetimos o anátema de que é alvo Marine Le Pen? Não se reproduz à larga que a senhora é uma ameaça para a França, para a Europa civilizada no seu todo? Não lhe convém a UE tal como está, prejudicial a entende aos interesses franceses. Oh pecado! Pois bem: não cantavam os ingleses por igual pauta, não foram eles à vida, e não contínua o demagogo do Boris um paladino da democracia?
Por hoje não surge quem tanto mérito encontre nos círculos uninominais, solução que tem enviesado a representação democrática em terras gaulesas, do Parlamento de fora ficando candidato RN que na primeira ronda atinja 45%, contra 30% e 20% dos seguintes, que para a segunda volta se combinam? E não resultou a implosão dos partidos tradicionais da acomodação ao vício consolidado?
Não impôs o aéreo Hollande que o patrocínio das candidaturas presidenciais fosse público – e por efeito criticável – do que resultou que Le Pen, Mélenchon e Zemmour se tivessem visto em palpos de aranha para reunir as quinhentas assinaturas, desafio que dois candidatos ditos trotskistas ultrapassaram com leveza, embora não tivessem chegado a 1% cada? Haverá ele distorções legais? E ninguém se envergonha?
Que grandes e impolutas democracias têm franceses e ingleses! E espanhóis! Não atenta Putin contra a sacralidade da autodeterminação do povo ucraniano? E a autodeterminação do povo catalão? E a dos bascos? Porque é que o referendo do Kosovo foi abençoado, e o da Krajina não? Porque inaceitáveis eram – foram! serão! – os referendos na Crimeia, nas subprovíncias do Donbass? E não se eriçam os puristas ocidentais contra os golpes de estado, salvo o que se incentivou e irradiou a partir de Maidan?
Abençoa Macron a democracia, ou conspurca-a, quando com candura venenosa acusa Le Pen de putinolatria, de subserviência ao Kremlin, porque forçada se tenha visto a contratar um empréstimo em Moscovo, que nenhum banco francês ou da santa europa lhe concedeu, embora as compensações que viesse a tocar lhe cobrissem os gastos de campanha? E não lho negaram em 2022, repetindo a gentileza de 2017? De que democracia se serve Macron, posto que não serve aquela que eu melhor descubro?
Entre os conspiradores que apelam ao voto em Macron, com Zelensky e Navalny em bicos de pés à boca de cena, quem no peito bate meas culpas, por foice segante em seara alheia? E os partidos ditos pró-russos que o pregador judaico-galiciano da virtude interditou, reduzindo dirigentes à prisão domiciliária: porque não o explica ele às encadeadas luminárias ocidentais, com assimilações elaboradas aos atropelos de cá?
Não se vê que acabe o que nunca deveria ter começado, o que deveria ter terminado no dealbar com um acordo forçado de cavalheiros, ainda que um o fosse menos do que o outro, ainda que um tivesse passado das marcas. Como se vê – como explícito estava desde a primeira hora – ampliamos angelicamente uma desgraça, mas haja quem diga que não estamos de consciência tranquila.

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