Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Opiniões e memória

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-04-10 às 06h00

Jorge Cruz

O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada
(George Bernard Shaw)

Braga e os seus habitantes vão pagar caro os erros que estão a ser cometidos por uma opção política que persiste em ignorar a urgência da utilização de transportes públicos e modos suaves. A denúncia, desassombrada, pertence a Baptista da Costa, antigo administrador dos Transportes Urbanos de Braga, e foi tornada pública na passada semana, no Fórum Internacional das Comunidades Inteligentes e Sustentáveis (FICIS), que decorreu em Braga.
Numa comunicação sobre Mobilidade e Urbanismo - o caso de Braga, o polémico técnico enalteceu o trabalho desenvolvido nos últimos quatro anos pela transportadora municipal, ou seja, durante o período de tempo em que teve responsabilidades na gestão da empresa, mas aproveitou para arrasar a política de mobilidade do município.

Claro que Baptista da Costa tem razão ao criticar o imobilismo de um executivo que se preocupa sobremaneira em garantir espaço noticioso diário, isto é, que privilegia a espuma dos dias e não se apoquenta com a resolução dos problemas de fundo. São inúmeros os paradigmas dessa postura exibicionista de trabalhar para a mediatização e não para a resolução das questões que preocupam os cidadãos, como se pode constatar quotidianamente. É indiscutível, por exemplo e só para referir factos apontados pelo antigo administrador, que a travessia da Avenida Júlio Fragata, unindo de nível as ruas D. Pedro V e Nova de Santa Cruz, já deveria ser uma realidade, tanto mais que, conforme sublinhou aquele técnico, se trata de uma evidência económica e social cujo projecto está feito e é de rápida execução.

Outro lamento daquele especialista prende-se com o facto de, nos últimos quatro anos, o executivo camarário não ter dado prioridade aos transportes colectivos nem aos modos suaves. Daí irá decorrer, segundo considerou, um substancial agravamento da situação e das condições de vida dos cidadãos, prevendo inclusivamente que a curto prazo serão evidentes os custos, caso persistam as opções políticas em curso.
Estas críticas, que englobam um longo e arrasador rol esmiuçado durante a intervenção proferida no FICIS, colocam mais uma vez em causa a política de mobilidade do município. Desta vez com maior acuidade e fundamentação técnica dadas as reconhecidas aptidões nessa área do especialista que as proferiu.
Creio que a Câmara de Braga só terá a ganhar se tomar boa conta das palavras do técnico que um dia o executivo municipal foi contratar para colocar a sua vasta experiência ao serviço da empresa municipal de transportes. E ganhará porque certamente que ele não perdeu competências técnicas pelo facto de ter sido despedido de gestor dos TUB.

Coisa bem diferente será a oportunidade das críticas de Baptista da Costa. É que não nos podemos esquecer que o seu discurso actual colide com muitas das palavras elogiosas que proferiu ao longo dos anos em que prestou serviço ao município de Braga. Recordo, por exemplo, o reconhecimento que fez relativamente ao empenho da Câmara nas questões ligadas à mobilidade, empenho que, em Maio de 2015, Baptista da Costa considerou determinante até porque deu aos TUB uma nova missão: dar resposta às necessidades das pessoas.
É por estas razões, porque as pessoas têm memória, que as actuais críticas perdem muita da credibilidade que poderiam e deveriam ter. Claro que não é por essa razão que a análise em apreço deixa de ser exacta e plena de actualidade, mas convenhamos que ganharia outra dimensão, teria diferente impacto, se as circunstâncias não demonstrassem estas enormes fragilidades que, naturalmente, nesta altura descredibilizam o antigo gestor dos TUB.
Curiosamente, ou nem tanto, outro dos oradores, o arquitecto e gestor de projectos Tomás Allen, não foi tão severo na sua intervenção, embora sublinhando que se deve parar com o planeamento para os automóveis e deve-se planear para as pessoas, desenvolvendo o planeamento participativo e uma cidade para as crianças.

De facto, este especialista acentuou que Braga não pode ser considerada como um bom exemplo de mobilidade para as cidades vivas, tanto mais que carece de uma coordenação entre os planeamentos urbanístico e dos transportes, mas manifestou a convicção de que a cidade vai reverter as políticas das últimas décadas pois está a seguir um caminho diferente.
A crença de Tomás Allen, afinal semelhante à que Baptista da Costa demonstrou há alguns anos, baseia-se, ao que parece, no facto de ele próprio estar a trabalhar no redesenho de algumas avenidas, trabalho que considera ser um paradigma dessa nova visão municipal. A ver vamos se esta fé se manterá por muitos anos.

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