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Os alertas de Guterres

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Os alertas de Guterres

Ideias

2021-09-28 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“O mundo tem de acordar, numa altura em que vivemos à beira do abismo.” O dramático apelo foi lançado há dias pelo secretário-geral das Nações Unidas, no discurso que assinalou a abertura da 76ª sessão da Assembleia Geral da organização.
António Guterres, que não se cansa de chamar a atenção para as múltiplas ameaças que pairam sobre a humanidade, insistiu nos alertas lembrando o período que se atravessa, com inúmeras situações de crise, como são disso exemplos a pandemia da covid-19, as alterações climáticas, bem assim como os terríveis dramas que atingem países como o Afeganistão, a Etiópia ou o Iémen.

Os lancinantes avisos e apelos sobre estes temas que afligem a humanidade, que naturalmente não são um exclusivo de Guterres, têm toda a razão de existir. A sua oportunidade e a sua enorme premência decorrem do facto de ser cada dia mais consensual a ideia de que estamos a acercar-nos com grande rapidez de uma catástrofe climática. Aliás, quer o relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) quer um outro, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, suportam essa tese, mostrando que a situação reclama a adopção de medidas de urgência.
Da leitura desses documentos comprova-se, com efeito, que a última década foi a mais quente da história da Humanidade, o que provocou níveis recorde de calor nos oceanos. Os estudos também relevam o facto de os níveis de dióxido de carbono se situarem em números recorde, com a agravante de manterem uma tendência de crescimento, embora os constrangimentos provocados pela covid-19 tenham contribuído para a redução temporária das emissões e da poluição.

Embora o panorama seja bastante sombrio, face aos “sinais de alerta em todos os continentes e regiões” de que fala o relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, subsiste ainda uma réstia de esperança de reverter o processo.
A realidade é assustadora, medonha mesmo, com temperaturas escaldantes, com a escassez de biodiversidade, enfim, com a água e o meio-ambiente poluídos. Em todo o caso, Guterres deixou palavras de alento ao lembrar que os cientistas do clima garantem que “não é tarde demais para manter viva a meta de 1,5 grau do Acordo de Paris sobre o clima”, embora enfatizando a necessidade de se actuar rapidamente.
E agir com rapidez, passando das palavras aos actos, consiste, segundo Guterres, em assumir “um corte de 45% nas emissões até 2030”. Atingido tal desiderato, será possível contrariar um recente relatório da ONU que garante que, com os atuais compromissos climáticos nacionais, as emissões aumentarão 16% até 2030.

Mas não são apenas as questões do ambiente que preocupam o Secretário-Geral da ONU. Não, as inquietações de Guterres estendem-se praticamente a todas as áreas em que a resolução dos problemas, sendo embora premente, não parece ter um horizonte muito próximo. A questão das desigualdades, que a recente pandemia agravou, é de igual modo um dos temas que causa grande apreensão, a ponto do líder das Nações Unidas lamentar duramente a falta de solidariedade e evocar as chocantes imagens de vacinas que não foram utilizadas e acabaram no lixo.

É de facto perturbador constatar que enquanto a maioria dos países ricos já foi vacinada, “mais de 90 por cento dos africanos ainda esperam pela primeira dose”. Esta é, na óptica de Guterres, uma situação “obscena”.
Muito provavelmente por essa razão, na Conferência Global sobre a Covid-19, o secretário-geral das Nações Unidas endureceu o discurso ao declarar que “a segurança da saúde global fracassou, ao custo de 4,5 milhões de vidas” que foram perdidas pelo coronavírus. “A vacinação global não é filantropia, é interesse próprio”, uma vez que “quanto maior o número de pessoas não imunizadas, mais o vírus continuará circulando e evoluindo para novas variantes”, causando ainda mais impactos sócio-económicos, acrescentou.

Assim sendo, todos concordarão com Guterres quando ele aponta a necessidade de reduzir as desigualdades económicas, sociais, de género, de acesso ao mundo digital, mas também entre gerações. “Os jovens herdarão as consequências de nossas decisões – boas e más”, e, nessa medida, “precisam de um lugar à mesa.”
Os alertas, as críticas e os lamentos do responsável máximo da ONU são importantes, designadamente do ponto de vista da denúncia pública e da sensibilização. Mas Guterres não pode ignorar o altíssimo grau de dificuldades para convencer muitos governantes a alterar as posições políticas dos seus governos, contribuindo para um mundo melhor.

E tal também sucede porque os grandes poderes económicos e financeiros, que com inusitada frequência controlam ou têm grandes ascendência sobre alguns políticos, têm o seu foco apenas no lucro, pouco se importando com o rasto de destruição ambiental e de miséria humana que as suas actividades por vezes deixam a descoberto.
Será, porventura, essa a razão que levou Guterres a afirmar que “uma onda de desconfiança e de desinformação está a polarizar as pessoas e a paralisar as sociedades”, e a enfatizar que os direitos humanos e a ciência estão sob ataque. É urgente que todos tomemos plena consciência da gravidade da situação pois só assim, com um conhecimento real e aprofundado, é que poderemos ajudar a generalizar a sensibilização para estes problemas e, quiçá, contribuir para a sua resolução.

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