Correio do Minho

Braga,

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Os Biscainhos aos Biscainhos

Onde está o meu peixe

Escreve quem sabe

2021-04-24 às 06h00

Rui Ferreira Rui Ferreira

O Museu dos Biscainhos abriu as portas a 11 de fevereiro de 1978, tendo-se tornado progressivamente num dos espaços culturais mais relevantes da cidade de Braga. Tentando recriar uma casa senhorial minhota do período barroco, o grande destaque dos seus espaços é inequivocamente o jardim, seguramente um dos mais aliciantes espaços verdes barrocos existentes no nosso país.
A instalação do Museu dos Biscainhos com uma exposição permanente do período barroco esconde uma outra motivação museológica. Na sequência de uma exposição etnográfica realizada no antigo Paço Arquiepiscopal em 1940, foi nascendo o desejo da constituição de um Museu de Etnografia, História e Artes Populares na cidade de Braga. Em 1962, a Junta Distrital movia esforços para a fundação deste museu, a instalar num edifício de raiz que seria construído na rua Gabriel Pereira de Castro. Os mentores pretendiam que o museu tivesse espaços para conferências, uma biblioteca especializada e ainda oficinas de consolidação de objetos. Quanto ao conteúdo expositivo, o intuito era representar as artes e ofícios de todos os municípios do distrito, nomeadamente alfaias agrícolas, meios de transportes, o cultivo e tecelagem do linho, a indústria da cestaria, olaria, curtumes e chapelaria.
O que aconteceu posteriormente não o sabemos, todavia, a solução encontrada acabou por ser a Casa dos Biscainhos, adquirida pela Junta Distrital de Braga em 1963 a Gaspar Lobo Machado do Amaral Cardoso de Menezes, 3.º Visconde do Paço de Nespereira. Apesar da pretensão fundacional ser a criação de um Museu de Etnografia e História, posteriormente o edifício seria transformado num museu barroco integrado na Rede Portuguesa de Museus.
No momento em que o Museu foi criado, uma parcela do edifício, localizada na sua extremidade nascente, ficou salvaguardada para a instalação da Assembleia Distrital de Braga, a entidade responsável inicialmente pelo projeto do Museu. Extintas as assembleias Distritais em 2015, os seus imóveis e serviços passaram para entidades intermunicipais, pelo que o edifício transitou para a propriedade da Comunidade Intermunicipal do Vale do Cávado, sediada, entretanto, na rua do Carmo. A parcela do edifício que lhe estava destinada seria, entretanto, cedida em 2011 a uma associação para ali desenvolver as suas atividades.
A associação em questão, instituída por antigos motoristas dos Transportes Urbanos de Braga, tem o compromisso de vir a ser acomodada nas instalações alargadas daquela empresa municipal bracarense, no entanto ainda não há desenvolvimentos desse empreendimento a localizar no espaço do antigo bairro dos Falcões. Enquanto isso há um projeto cofinanciado que prevê obras de conservação e restauro orçadas em 700 mil euros no Museu dos Biscainhos, para o qual seria fundamental a cedência daquela parcela do histórico edifício de forma a completar definitivamente o percurso museológico.
Tal como refere a Carta de Cracóvia, uma convenção internacional emanada no ano 2000 sobre a conservação dos monumentos e dos edifícios com valor histórico, o objetivo principal da conservação é «manter a autenticidade e integridade (…) de acordo com o seu aspecto original». Tal conservação requer «um uso apropriado para os monumentos e edifícios com valor histórico, compatível com os seus espaços e o seu significado patrimonial».
Aplicando este pressuposto ao Museu dos Biscainhos, um dos edifícios do período barroco mais relevantes da cidade de Braga, torna-se incompreensível que uma parte do edifício não lhe esteja devidamente consignado, estando cedida informalmente a uma associação que poderia (e deveria) estar sediada num espaço mais adequado à sua natureza e atividade. Como poderemos compreender que, numa cidade que se pretende afirmar como expoente da arte barroca em Portugal e que tem pretensões para se assumir como Capital Europeia da Cultura, os poderes públicos legitimamente instituídos não assumam uma posição definitiva para resolver este impasse?
Apelemos, por isso mesmo, a quem tem o poder de decidir ou influenciar as decisões, a entrega definitiva da Casa dos Biscainhos ao Museu dos Biscainhos – os Biscainhos aos Biscainhos - de forma a que, finalmente, possam desenvolver plenamente a sua missão.

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