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Os bobos

O Estado desta Nação

Os bobos

Ideias

2024-03-27 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Que as autoridades russas estavam alertadas para a iminência de uma acção terrorista. Acredito no que se diz e sublinho a proximidade de serviços, isto a despeito de todo o mal que vimos adubando desde o colapso do antigo regime moscovita.
Alertados: e depois? Numa metrópole que alberga mais do que toda a população de Portugal, quão difícil é encontrar algumas centenas de indivíduos num canto, de que negro quarteto de executantes ceife uma parcela, deixando meio milhar de cápsulas por terra? Morticínio que bem poderia ter acontecido a igual hora no extremo oposto do mesmo maciço urbano, em dia imediato, porventura em qualquer parte deste lado da civilização, porque escolha o carrasco a circunstância e o momento, e porque não haja sistema de segurança que tudo consiga fazer abortar.
Com falsa sensação de proteção opera quem fustiga o senhor do kremlin pelo fracasso na desmontagem de plano assassino, mas serve a informação para ilustrar o desajuste da governação russa, o fosso entre os interesses prementes da população e as linhas mestras de um regime terrorista em si mesmo, a nosso judicioso olhar.
Tão justos somos, tão esclarecidos, que com toda a limpidez nos salta à vista que uma grosa de mortos em sala de espectáculos possa ser acto de funéreos serviços, que melhor designaríamos de conspiração e insegurança. Qual “estado islâmico” qual carapuça! Aliás, não ascendeu obscuro agente das secretas ao cadeirão do poder por graça de atentados fictícios, encomendados por grosso a pseudorradicais tchetchenos? Ouvi-o num canal de notícias português a um russófilo tresmalhado e a um ex-qualquer-coisa português das nações unidas. Que tanto sabem! Mas também o ouvi num canal francês, aí com a nuance de que talvez fosse por sugestão de um subalterno de Putin que os EI-k rumaram à fronteira com a Ucrânia, para aí serem detidos com reforçado proveito.
Não seja Putin boa peça, de similar calibre poderão ser muitas das que por cá abundam, e triste se faz que a realidade imediata seja bem mais simples do que todas as intrujices que lhe acavalam, sobretudo enquanto puxam brilho a medalhas e galões, como o da independência, da objectividade e imparcialidade.
Com a maior das sem cerimónia jogamos a realidade às ortigas. Nesta querela horrorosa entre eslavos, tomamos parte por uns, assimilando-os aos nossos padrões por puro tacticismo, porque assim possamos sempre dizer que estamos de pedra e cal com a democracia. Ora, remonta a Tönnies a distinção entre Gesellschaft e Gemeinschaft, grosso modo entre comunidade e sociedade.
Recupero os conceitos, porque assim melhor perceba a ascensão de Hitler e a entronização de Putin, as derivas nacio- nalistas de polacos, húngaros e ucranianos, as fadigas generalizadas um pouco por toda a Europa com um pluralismo tendencialmente estéril e poten- cialmente suicidário, já que em nome de um ideário igualitário se submete ao mesmo padrão o que de base e destino é heteronómico, senão antinómico.
A Comunidade exalta-se em si, nos seus genuínos. A Comunidade não se espelha num líder minoritário que vença por divisão e por metade mais um. A Comunidade precisa de se projectar num veículo de transcendência, de totemizar um personagem, porque assim tudo passe a ser fabulosamente possível. E sim, o conceito de “sociedade” é mais fino e especioso do que o conceito geneticamente anterior de “comunidade”, mas é ver como a nação mais potente do ocidente se jogou aos pés de Trump, e quiçá não o façam de novo.
Entretanto, os bobos, por simplismos de bobo, vão fazendo a rábula esganiçada que convém. Conheço melhor canção de embalar.

PS. Texto sem precipitados de IA.

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