Correio do Minho

Braga, terça-feira

Os degraus da conquista

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2014-07-17 às 06h00

Escritor

Sara Coelho


'Subo o último degrau. Sinto gotas escorrerem pela testa, costas e braços. Gotas de suor, vitória e conquista. Observo o santuário mais simbólico da cidade, não sei bem porquê mas faço sinal da cruz, não sou das pessoas mais devotas que existem. Ainda assim respiro fundo e agradeço por ter conseguido chegar ali. Agradeço não ter perdido as forças a meio do batalha, não ter baixado os braços quando me parecia impossível, agradeço os quilômetros percorridos, o ano de luta e as dezenas de vezes que subi e desci aqueles degraus!

Viro costa para a Igreja e admiro a paisagem, única, viciante, uma visão que me marcará para sempre, uma imagem que me acompanhará para a vida.

Ainda ofegante uma brisa fresca bate-me no rosto, fecho os olhos, e sinto as lágrimas rolarem pelo rosto desta vez não são lágrimas de transpiração, são lágrimas de dor. Lágrimas de dor misturadas com alegria, não consigo entender porque choro mas sinto que preciso estar sozinha, finalmente sozinha.

Subo mais uns metros no parque e vou ter a um espaço maravilhoso, um lago com barcos de remos pintados cada um de uma cor estacionados nas bordas do lado. Sinto que estou dentro de um arco-iris. Grandes árvores rodeiam o lago, o sol brilha por cima da água expelhando um brilho encantador. Os barcos brilham, cada um refletindo a sua cor. Fico sem respiração por uns segundos. A vida deveria ser assim. Encantadora, mágica, bela, deslumbrante e de cortar a respiração. Do lado oposto do lago, uma encosta de relva verde, sempre muito bem aparada, que me convida a ir até lá, deitar-me e apreciar aquele cenário. É mesmo isso que faço, percorro mais uns metros e deito-me ao sol, na relva tão verde que parece ter sido pintada por um pintor, uma relva quente mas fresca, perfeita para o que preciso.

Deito-me e olho para o céu, azul e límpido. Respiro fundo e inalo o cheiro do lençol verde que me acolhe, da água que a meus pés repousa e das árvores  que me rodeiam. Fecho os olhos e como um flashback, recuo 11 anos da minha vida.

Pergunto-me quando deixei de gostar de mim mesma? Uma voz suave diz-me que foram forças externas a comandar a minha vida e que não tive como lutar contra isso, outra voz, desta vez grossa e rude, contraria a adversária diz que não, que eu fui fraca demais e que foi a minha cobardia que me levou aos 90 quilos.

Choro com mais intensidade, pego no smartphone e abro a galeria de fotos, vou à pasta antiga, de 2009/2010 e olho para mim com 90 quilos. Sento-me com os joelhos dobrados encostados ao meu peito, coloco o aparelho por cima dos joelhos, seguro o rosto com as mãos e permito-me chorar como nunca antes tinha chorado, nem quando tinha aquele peso chorei assim, aquelas lágrimas eram libertadoras. Estava-me a sentir mais leve que nunca. Tinha 2 filhos, quase 30 anos, pesava 52 quilos e tinha conseguido perder 38 quilos sozinha. Tenho tantos motivos para me orgulhar. Para quê deprimir com o passado? Para quê questionar agora 'Porquê?' 'De quem foi a culpa?' 'Porque deixei?'

O meu estado auto destrutivo durou anos. Solidão, desamparo, necessidade de provar que apesar de ter casado muito nova era capaz de tomar conta de uma familia, de uma casa, de alimentar um marido e os filhos. Todos esses factores me fizeram cuidar dos interesses dos outros e esquecer-me de quem eu era. Os motivos estavam bem explicados no fundo da minha mente e resolvidos no meu coração. Já tinha conseguido perdoar a quem eu e o meu coração sentiamos que tinhamos de perdoar.

As vozes silenciaram-se. Perceberam que ali, naquele mundo só meu, naquele paraíso mundial mas que me pertencia só a mim, eu era rainha, eu era a guerreira e erguia a espada vitoriosa.
Sofri sozinha longos anos. Sentimento de ser feia, de não gostar de mim mesma, de não gostar de vestir nada, de não gostar de me olhar ao espelho, de não gostar de ir ao médico e ter de me despir, ou de ter de arranjar roupa, ou simplesmente ter de andar na rua, tirar fotografias, de estar com amigos porque era a mais 'gordinha' do grupo. Anos e anos a sentir-me isolada do mundo, um ser diferente.

Mas esse ser diferente decidiu reintegrar-se.

Em 2013 decidi começar a luta, começar uma dieta, começar por fazer caminhadas diárias de 4/5 quilômetros, passando umas semanas depois a corridas de 8/10 quilômetros, os quilos começaram a desaparecer, a roupa a ficar larga, muito larga, o objectivo sempre foi chegar aos 55 quilos. Sabia que não ia ser fácil, sentia estar a lutar sozinha uma batalha que ninguém me podia acompanhar. A salvação era minha e só minha. Numa dessas corridas, em Junho de 2013 olho para o cimo da mais bela montanha da cidade, reparo no Santuário do Bom Jesus, decido aventurar-me e só parei no último degrau, a derramar as mesmas gotas de transpiração que hoje derramei. Desde esse dia o percurso foi sempre o mesmo.

Aquela montanha passou a fazer parte da minha vida, de mim e de quem hoje sou. Não olho para o Bom Jesus com um olhar turístico, ou um olhar de habitante orgulhoso por ter um santuário deslumbrante. Nada disso. Para mim o Bom Jesus foi uma inspiração, cada degrau um grito de dor, uma caloria perdida. O Bom Jesus é a minha história, os meus 38 quilos perdidos.
Foi um renascer de uma nova mulher, uma nova mãe, uma nova pessoa, uma pessoa que recuperou a vida, o amor próprio.

Volto a deitar-me, mais aliviada depois de ter derramado as lágrimas necessárias, volto a recostar as costas no fresco da relva, relembro as repetidas vezes que tive de responder às várias pessoas que me questionavam: 'Como perdeste tanto peso? Que medicação tomaste?' Sorrio ao rever a expressão facial quando respondia que nunca tomei medicação alguma. Eliminei os doces, álcool, hidratos e praticava exercício físico diário: 'Vou todos os dias ao Bom Jesus rezar.' Olhavam-me em silêncio. Sentia em cada olhar uma admiração como se olhassem para uma atleta olímpica com uma taça de ouro na mão. Não ergui nenhum taça, eu era a taça.

Volto a sorrir relembrando a expressão ainda mais estranha, pelo menos para mim, quando me diziam: 'Eu também precisava perder uns quilos mas não consigo deixar de comer o meu pão e beber o meu copinho de vinho!' Por norma respirava fundo antes de abrir a boca e respondia amigável mas firmemente: 'Não há milagres! No pain, no gain!'

Foi esse o pensamento que me guiou durante esse ano de luta, 'Sem dor não há ganho!' Se queria perder peso, tinha de ter sofrido o que sofri, ter escorrido todas as gotas de suor, subir e descer todas as vezes aqueles degraus, olhar dezenas de vezes aquela vista deslumbrante, tinha de ter bebido aqueles litros e litros de água em frente à igreja do Bom Jesus agradecendo ter tido força para mais um dia.

Respiro fundo, bem fundo, volto a inalar aqueles cheiros familiares e eternos. Levanto-me, seguro o smartphone e reparo que ainda tem a foto do 'antes' aberta. Apago-a. Essa e todas as outras. É o momento. Aquele momento é o meu recomeço, o meu renascer por completo, o meu perdão por inteiro. Apago tudo que me relembre essa fase da minha vida. Não tenho porque me lembrar de momentos que me fizeram infeliz. O que hoje sou vale muito mais, vale mais que todos aqueles anos juntos. Apago a última foto e solto um suspiro de alívio. Decido tirar uma selfie, viro-me de costas para o lago, com os barcos de cenário de fundo, como um painel pintado à mão e ri-o, não sorrio apenas, ri-o com vontade e carrego no OK. Olho para a foto, solto uma gargalhada porque ficou mais bela do que pensava. As cores estão perfeitas. Mesmo tento o rosto corado das lágrimas que derramei o riso verdadeiro cobre por completo esse pormenor.

Dá a sensação que acabei de subir dezenas de degraus a correr e que tirei aquela fotografia ao chegar ao destino.
E foi precisamente isso que fiz!

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