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Braga, quinta-feira

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Os desafios de Costa

Migrações e Estado-Providência

Ideias

2015-11-09 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Quando se iniciarem hoje os trabalhos na Assembleia da República, pouco importará a discussão do programa do PSD/CDS. A expectativa centrar-se-á no momento de apresentação da moção de censura que fará cair este governo. A partir daí, altera-se a História política portuguesa. E o Presidente da República não poderá modificar o rumo daquilo que o parlamento impõe. Por muito que lhe custe.

Os fiéis seguidores da série “Borgen”, que a RTP2 emitiu há pouco tempo, têm na realidade política portuguesa a tradução fiel daquilo que podem ser as negociações pós-eleitorais, no caso de nenhum partido ter conquistado a maioria absoluta. É certo que, por cá, o Presidente da República, acenando com a Lei Fundamental e tendo em mente a tradição, impôs ao país um governo à direita. Fez bem.

Cavaco Silva não poderia abreviar caminho. Dele espera-se que cumpra e faça cumprir a Constituição. E é exatamente essa verticalidade que se continua a exigir de si nestes tempos de grandes mudanças. Apresentada uma moção de censura que tem como efeito imediato a queda deste Governo, o Presidente da República tem a obrigação de chamar a formar governo quem lhe apresente uma solução de governabilidade. Ou seja, António Costa. Não se imagina outra solução.

Depois de um mês de intensas negociações à esquerda, António Costa chega hoje ao parlamento como um vencedor. Conseguiu o impensável do PCP e foi capaz de integrar o Bloco de Esquerda numa solução de governo que absorveu medidas que Catarina Martins ergueu como bandeiras inegociáveis. Este fim-de-semana, reuniu a Comissão Nacional e a Comissão Política e legitimou ‘inter pares’ o seu posicionamento. Pelo caminho, chutou para canto um Francisco Assis que foi à Mealhada marcar a liderança na oposição interna que há-de aparecer em força mais lá para frente. A partir deste semana, o protagonismo político pertence a Costa que chama a si uma colossal responsabilidade, a ser declinada em vários momentos.

Ao derrubar um governo que não se cansou de apregoar a sua legitimidade, António Costa não está autorizado a errar. A sua primeira prova de fôlego será a apresentação do governo. Que se quer político para ser capaz de se confrontar em permanência com uma oposição à direita que não dará tréguas. Que se quer competente e fora dos habituais caciques para erguer projetos sustentáveis e criadores de valor. Costa tem de fazer aí uma quadratura do círculo, juntando no mesmo executivo políticos competentes nas áreas que tutelem e independentes capazes de governar como se estivessem na política desde sempre.

Com o elenco desenhado, há que começar a trabalhar em força para cumprir metas previamente estabelecidas, não desrespeitando compromissos internacionais e, simultaneamente, não desiludindo um eleitorado que se quer favorável a esta nova experiência governativa. Não será fácil, principalmente se a economia não ajudar e a conjuntura internacional provocar inesperadas dificuldades...

Pelo meio, este governo, que resulta de um acordo de incidência parlamentar, não pode desencantar o PEV, o PCP e o BE que, como já se percebeu, nem sempre estão bem sintonizados uns com os outros... Não serão tempos fáceis estes que se abrem agora, mas também não foram tempos suaves aqueles que deixámos para trás.

Esta semana, inicia-se uma nova fase na vida portuguesa. Há aqueles que vaticinam vida curta para este governo; mas há também aqueles que veem emergir uma nova e fulgurante etapa política. Uns e outros reconhecem que se está perante um momento de viragem. Que irá marcar a nossa História.

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