Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Os doentes (sempre) em primeiro lugar

Nós e os outros… ainda mais!

Os doentes (sempre) em primeiro lugar

Ideias

2020-02-25 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Apesar da transição do regime de Parceria Público-Privada (PPP) para o de Entidade Pública Empresarial (EPE), os doentes do Hospital de Braga “vão continuar a ter ao seu dispor bons serviços de saúde”. Quem o garantiu, sem qualquer hesitação, foi o Primeiro-ministro.
O tema voltou a ganhar actualidade na passada semana, durante o debate quinzenal na Assembleia da República, quando a então líder parlamentar do CDS, Cecília Meireles, questionou António Costa sobre a unidade de saúde bracarense.

“Por que é que os doentes em Braga receberam menos cuidado e atenção do que os doentes em Cascais?”, (unidade hospitalar que ainda se mantém como PPP) questionou a deputada centrista. Em resposta, o chefe do Governo afirmou que estão previstas mais medidas do que “meter dinheiro no sistema”, esclarecendo que, “ao contrário do que possa parecer, não há preconceito” mas tão-somente “uma decisão política decorrente da lei de bases”.
O Primeiro-ministro, que aproveitou para assegurar que não haverá mais PPP em hospitais, explicou outra vez que em Braga, quando foi concluída a avaliação, não havia tempo para a abertura de um concurso, lembrando que o concessionário não quis prosseguir o acordo. Em todo o caso, manifestou a convicção de se tratar de um “problema que está ultrapassado”, asseverando que o Hospital de Braga vai continuar a ser “tão bem ou melhor gerido” do que era com o grupo Mello Saúde.

Acredito que a convicção de António Costa é absolutamente genuína já que se fundamenta em factores insusceptíveis de qualquer desconfiança, como serão aqueles que se prendem com as qualificações e proficiência dos diferentes profissionais ao serviço da unidade hospitalar e, consequentemente, à disposição do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de que este é parte integrante. O Primeiro-ministro não ignora que eles deram – e continuam a oferecer – inúmeras provas da sua competência profissional e do seu empenhamento no sucesso do SNS. Todavia…
A sabedoria popular diz, e as situações ao longo dos tempos comprovam, que “no melhor pano cai a nódoa”. Ora, os mais recentes acontecimentos na unidade de saúde de Braga demonstram quão acertada é essa erudição popular.

É certo que já no relatório divulgado pela Entidade Reguladora da Saúde relativo ao ano de 2017, a Escala Braga, sociedade que então geria a unidade hospitalar, era aquela que, entre as parcerias público-privadas, ocupava o lugar cimeiro na tabela das reclamações. Contudo, manda a verdade que se diga que registava também inúmeros aspectos positivos, grande parte dos quais decorriam do alto grau de empenhamento dos diferentes profissionais. Um dos paradigmas dessa actuação em favor do doente era o notável percurso de recuperação das listas de espera para cirurgias, provavelmente um dos melhores nessa área entre os seus congéneres.

Na realidade, o Hospital de Braga contratualizou com a Administração Regional de Saúde do Norte a redução das listas de espera para cirurgia, o que foi obtido através de incentivos aos elementos que compõem as equipas multidisciplinares de cirurgia e da rentabilização dos blocos operatórios para além dos tempos normais. Estamos a falar de actividade adicional visando, obviamente, a melhoria do acesso dos doentes aos cuidados de saúde, designadamente através da promoção da igualdade no tratamento, do ponto de vista do respeito pelos tempos máximos estabelecidos para todas as patologias.

Agora, porém, esse percurso arrisca-se a ser revertido (aliás as listas de espera já começaram a engrossar), ao que parece devido a uma birra corporativa que privilegia interesses pessoais, de ordem financeira, em prejuízo dos legítimos direitos dos doentes. Ou seja, embora esteja fixado na lei o regulamento das tabelas de preços das instituições e serviços, no âmbito de prestações realizadas em produção adicional para o SNS, a verdade é que os anestesistas recusam-se a aceitar as regras e, consequentemente, a participar na actividade adicional que visa eliminar as listas de espera.

Esta “guerra” que os anestesistas abriram contra os seus colegas de todos os Serviços Cirúrgicos do Hospital de Braga e contra a Administração está a resultar num inadmissível boicote à prestação de serviços aos doentes e, nessa medida, ao próprio Serviço Nacional de Saúde. Por outro lado, e não menos grave, assiste-se, no plano ético, à quebra que estes profissionais médicos estão a fazer ao juramento de Hipócrates, assumido aquando do início da sua actividade profissional, o que também é intolerável.
As “vítimas” desta posição de força deste grupo de profissionais da saúde - os doentes -, afinal a razão de ser dos serviços hospitalares e de toda a malha do SNS, esperam que se trate apenas de um mero deslize, de uma birra passageira que não venha a colocar em risco o excelente serviço a que o Hospital de Braga habituou os milhares de utentes.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho