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Os enteados da República

Mala da Partilha – Histórias de Vida

Os enteados da República

Voz às Escolas

2019-06-27 às 06h00

Artur Silva Artur Silva

O povo português sempre foi exímio em exprimir, através de ditados simples, frases que têm por objetivo alertar ou produzir determinados efeitos morais em quem os lê.
Destas frases ou expressões, vem-me à memória uma que retrata com particular eficácia a injustiça com que o poder político trata os professores deste país - “ Uns são Filhos outros enteados”.
O conceito de tratamento diferenciado e menos favorável para com os “enteados” tem desde logo a sua expressão máxima na dramatização com que o Primeiro- Ministro brindou o país quando se viu confrontado com a provável aprovação da recuperação integral do tempo de serviço congelado aos professores.

Agora, o partido do governo esfrega as mãos de felicidade perante os geniais ganhos eleitorais alcançados e muito poucos param para pensar no real impacto destes atos na Educação em Portugal.
Na verdade, a “síndrome do enteado” prolifera e tem efeitos diretos na população docente e em todos aqueles (poucos) que algum dia pensaram em vir a ser professores.
Ao virar a população contra os professores, o governo esconde uma real despreocupação em considerar a educação como um dos principais desafios para o desenvolvimento do país.
A “genial” manobra política do primeiro- ministro não é acompanhada duma especial capacidade para criar medidas que tornem a profissão docente especialmente atrativa para os jovens.

A recuperação do tempo de serviço congelado aos professores é apenas a espuma de um denso oceano de problemas em que a educação em Portugal está mergulhada e sem fim à vista.
Logo à cabeça vem o envelhecimento gritante do corpo docente que é relatado num estudo recente da OCDE, segundo o qual os professores portugueses são os quintos mais idosos dos 48 países e economias que nele participaram.
Portugal classifica-se em quinto lugar a contar do fim, em relação ao número de docentes que durante o ano anterior ao referido estudo da OCDE (2017) participaram em qualquer tipo de ação de formação contínua. As necessidades mais prementes de formação, assinaladas pelos docentes portugueses neste estudo, incluem TIC, multiculturalismo, multilinguismo e o trabalho com alunos com necessidades educativas especiais.
A violência escolar e os comportamentos inadequados de alunos dentro da sala de aula são especialmente preocupantes. Tais comportamentos prejudicam o trabalho do professor e o sucesso individual dos alunos.
Numa percentagem de 14%, os diretores referem atos periódicos de intimidação ou perseguição em ambientes escolares.

Ao falarmos de insegurança no trabalho, 71% dos professores mais velhos e 39% dos professores com menos idade, reportaram a insegurança no trabalho como um fator negativo para o ingresso na profissão.
A precariedade e a falta de condições de vida e de trabalho na carreira docente são, sem dúvida, dois dos fatores que tornam a profissão docente menos atrativa.
No que respeita à vocação, 84% dos professores portugueses indicaram que a profissão docente foi a sua primeira escolha, o que é bastante significativo. Contudo, atualmente não assistimos a um rejuvenescimento da classe docente, nem intenção de a atualizar, numa ótica de qualidade do ensino que se pretende direcionado para o futuro da economia global e digital; e, se formação de qualidade existe, nem sempre é gratuita, por isso suportada pelos docentes, com esforço acrescido para o seu orçamento familiar, já por si, tantas vezes insuficiente.

O estado assume metas que depois falha, quer na sustentabilidade do ensino, quer na sua qualidade, e isso compromete seriamente o futuro das gerações mais jovens.
Decorridos 45 anos da revolução de Abril, apesar de todo o espavento político, o estado fracassa na promoção da igualdade e trata mal a escola pública.
Quanto à dualidade “ filhos – enteados”, duma vez por todas, têm os politiqueiros deste país de centrar as suas prioridades nos alunos não esquecendo que para isso têm os professores um papel determinante de “FILHOS” e não de “ enteados da república”.

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