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Os incidentes na igreja e o comício de protesto

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Os incidentes na igreja e o comício de protesto

Ideias

2021-09-19 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A enorme confusão que se verificou em Braga, provocada pelas eleições de 28 de agosto de 1910, últimas no tempo da Monarquia, e das quais resultaram agressões, feridos e prisões, já referidos em texto aqui publicado a 5 de setembro de 2021, levou à realização de um comício de protesto, que decorreu no Teatro S. Geraldo, uma semana após as eleições.
Segundo o Commercio do Minho, de 6 de setembro de 1910, a organização desse comício foi da responsabilidade de uma comissão “composta de cavalheiros da máxima consideração”.
Este comício, que se iniciou às 13h30 desse domingo, foi a reação que alguns bracarenses entenderam ser a mais conveniente aos acontecimentos que tinham ocorrido no domingo, dia 28 de agosto de 1910, mas principalmente na tarde e noite de segunda-feira, dia 29 de agosto.

Nesse início de tarde de domingo, a tensão em Braga estava no auge. As autoridades, assustadas com as eventuais consequências deste comício, fizeram deslocar para as imediações do Teatro S. Geraldo várias forças militares, nomeadamente duas forças de Infantaria 8, (comandadas pelo tenente Oliveira e pelo alferes Azevedo), uma força de Cavalaria e ainda vários guardas civis.
Ao início da tarde, junto ao Teatro de S. Geraldo, encontrava-se já uma grande multidão de pessoas, ansiosas por conseguirem lugar no interior do Teatro. Quando a comissão organizadora desta manifestação entrou nessas instalações, pelas 13h30, de imediato essa enorme multidão de pessoas começou a entrar no local, verificando-se também a entrada de muitos polícias nesse espaço.

A tensão era de tal ordem que a força de Infantaria, comandada pelo Tenente Oliveira, que se encontrava no campo de Santana, próximo do então hotel “Franqueira” “penetrou no theatro e colocou-se no terreiro vedado existente entre este e o Banco do Minho”. Por sua vez, a força militar comandada pelo Alferes Azevedo, “penetrou igualmente no edifício e tomou o salão de restaurante”.
De referir ainda que a força de Cavalaria estava repartida por patrulhas, que circundavam permanentemente o Teatro de S. Geraldo, enquanto alguns soldados permaneciam firmes em frente ao edifício onde se realizava a sessão pública.
O comício foi bem organizado, tendo sido constituída uma mesa, sob a presidência de Joaquim da Silva Gonçalves, que foi secretariado por Domingos José Afonso e Manuel Soares Correia. Encontrava-se ainda junto a esta mesa organizativa do comício, muitas figuras de destaque da sociedade bracarense.

Um dos principais oradores foi Artur José Soares, que destacou a desilusão que muitas figuras de Braga sentiam pelos acontecimentos verificados na semana anterior, sentindo-se ainda tristes pelo rumo que Braga e a região estavam a seguir, acrescentando ainda que “elle e vários cavalheiros que pela cidade têm trabalhado, resolviam abster-se de continuar, e alguns até deixar esta terra, onde as intenções honestas eram menoscabadas”.
As palavras de Artur José Soares provocaram uma enorme onda de aplausos. Depois de outras considerações, o comício terminou sem ter havido qualquer incidente a assinalar.
Mas a questão referente aos acontecimentos que resultaram das eleições de 28 de agosto, em S. João do Souto, parecia ainda não ter terminado. O assunto foi tema de conversa em Braga, nos dias seguintes. Uns diziam que Adolfo Taveira Leite de Macedo, preso na altura em que tentava votar em S. João do Souto, tinha votado em S. Victor. Mas outras pessoas dividiam-se, afirmando “uns que o referido eleitor votou em S. Victor e protestando outros que não”.

Mas a realidade é que foi apresentada ao presidente da mesa de S. João do Souto (João Rodrigues da Silva Braga) um documento do presidente de S. Victor (João Luís Pereira), no qual estava mencionado que Adolfo Macedo tinha mesmo votado em S. Victor.
Mesmo assim, havia outra versão, segundo a qual Adolfo Macedo não tinha votado em S. Victor. Este cidadão estava recenseado em S. Victor e em S. João do Souto, mas não exerceu o seu direito de voto em S. Victor, antes tentando fazê-lo em S. João do Souto, mas a isso não foi consentido.
Esta situação retratava a enorme tensão que se vivia em Portugal e em Braga, aquando da realização dessas eleições. Basta mencionarmos alguns dos múltiplos tumultos que ocorreram, não só em Braga, mas um pouco por toda esta região e pelo país.
Um desses tumultos ocorreu em Fafe, onde o administrador do concelho, rev. Domingos Pereira, “foi corrido a tiro quando se dirigia, em automovel, d’aque-lla villa para esta cidade, onde chegou illeso.” (CM de 1 de setembro de 1910).

Outro ocorreu em Cabeceiras de Basto, próximo da Gandarela, quando António Monteiro Borges de Araújo, importante proprietário membro do Partido Progressista, os seus dois filhos e ainda um seu amigo, foram agredidos por um grupo de cerca de 30 elementos tendo um deles, o célebre caceteiro «Papa», sido ferido e posteriormente falecido, vítima destes incidentes.
Das eleições legislativas portuguesas de 1910, que foram realizadas no dia 28 de agosto, resultou a eleição de 155 deputados para a Câmara dos Deputados. Os deputados foram eleitos em círculos com listas plurinominais e uninominais e constituíram as últimas eleições gerais realizadas sob o regime Monárquico.
Pouco mais de um mês (5 de outubro de 1910) verificou-se a instauração da República, sem o Parlamento eleito ter iniciado os seus trabalhos parlamentares. E as eleições de 28 de agosto, que tanta polémica originaram, foram declaradas nulas, pelo decreto publicado a 24 de outubro de 1910.

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