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Os meus provérbios

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Os meus provérbios

Voz aos Escritores

2024-03-29 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Releio neste momento o extraordinário livro de George Steiner «Gramáticas da Criação» e o não menos importante estudo de Edgar Morin sobre «Os meus filósofos». Livros deste jaez têm a particularidade de, por serem tão profundos, moverem as nossas ideias e solicitarem outras, que ora se situam em píncaros metafísicos, ora brotam do contacto com a nossa singela realidade. Se já tudo começou e, portanto, já não há começos, se os grandes filósofos da nossa humanidade já disseram «tudo» o que havia a dizer e nós repetimos, por variadas formas, o dito e o redito, cristalizando, amiúde, ideias que a realidade comprova, é lícito que nos venham à mente algumas representações linguísticas de tal cristalização.

Que o nosso cérebro, manhoso como é, nos remeta para a formulação proverbial, não deve causar estranheza. No meu caso, dei por mim a estabelecer uma analogia com Morin, devaneando sobre algumas expressões linguísticas que, de um modo que considero admirável, comandam o meu estar-no-mundo. São elas os provérbios, fixados na língua pela sabedoria popular. O povo, como se compreende, sabe tudo da vida. Eu sintetizaria em seis dessas expressões a minha visão do mundo e os modos do meu comportamento. A primeira, relaciono-a com a minha forma de pensar, o recato com que o faço e bem assim com a velocidade da sua execução. Aprendi muito cedo que «a pressa é inimiga da perfeição», razão por que fui verificando ser a procrastinação inimiga figadal das boas realizações.


Adiar significa geralmente queimar tempo, facto que se traduzirá posteriormente em decisões pouco razoadas. A seguinte relaciona-se com esta, e já me custou enormes sobressaltos. Tendo como certo, pelas evidências e vivências mais do que empíricas, que «em casa de ferreiro, espeto de pau», sempre fui aprendendo aqueles pequenos truques que ajudam à feliz coabitação: pequenos cozinhados, parafusos alinhados, lâmpadas led bem atarraxadas, enfim, tudo o que não necessite de funda ciência, sob risco de eletrocussão. Porque não é ferreiro quem quer, nem quem constrói espetos de madeira para exigentes cascos cavalares. Neste restrito âmbito, a voz de comando feminina, sob a sempre maviosa imposição, vai solucionando os problemas. Na ausência de metafórica cegueira, convém, portanto, manter ativo um olho. Não é que eu aspire à monarquia, nem a torres de marfim, mas se «em terra de cegos quem tem um olho é rei», convém proceder à manutenção dos dois. E isto porque, malgrado afirmações em contrário, não há nenhuma terra de cegos. Por tudo o que vamos verificando, anda tudo de olho bem aberto e à procura da primeira e derradeira oportunidade.

Nem devemos problematizar o facto de que «o pior cego é aquele que não quer ver». Dou por atacado a força deste provérbio, que trago bem interiorizado, pois traduzo sempre a palavra «cego» pelo sinónimo «ignorante», e eu, decididamente, não receberia de bom grado tal ferrete. Deixo-o para os «valentes» que aparecem no fim das batalhas, e que são, como bem sabemos, aos magotes, o que confirma o meu quinto provérbio de estimação, ou seja, «depois da batalha não faltam valentes». A vida tem-me ensinado que as nossas batalhas têm de ser ganhas por nós, e que não devemos dar os louros aos valentões que cheiram estes vegetais a quilómetros de distância. Se Morin recebeu das mentes brilhantes de Descartes, Spinoza ou Dostoiévski ensinamentos insubstituíveis, ou se Steiner nos apontou o caminho seminal da criação, porque não hei de beber do povo a sua mais profunda sabedoria? A sua mais lacerante afirmação, que mexe com crenças minhas, com atitudes alheias ou com comportamentos sociais muito específicos, reside na súmula linguística «santos da casa não fazem milagres». Descartes não renegaria certamente esta proverbial síntese, pois, cartesiano como era, a coisa bateria certo. E eu, que não aspiro a grande coisa senão registar umas ideias, vou com ele na balada. Em minha casa não há «santos da casa», milagres é como se vê, registo que será noutras latitudes que a sarça ardente se releva. Se tivermos de dar a mão a Moisés e de engolir um deserto, que seja. O povo acerta sempre e é indiscutivelmente soberano.

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