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Braga, terça-feira

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Os militares que provocaram o pânico na Igreja do Pópulo

Confinamento no Concelho de Braga

Os militares que provocaram o pânico na Igreja do Pópulo

Ideias

2021-05-16 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Braga está repleta de igrejas, todas elas de inegável valor. No entanto, há uma que tem umas caraterísticas próprias, fruto da sua localização e da sua integração num convento. Refiro-me à igreja do Pópulo, atualmente em obras de remodelação.
Por ter o convento junto à igreja, que foi ocupado pelo Regimento de Infantaria n.º 8, desde 1841, os militares utilizavam com frequência esta igreja para participarem em celebrações religiosas. A presença dos soldados fazia-se sentir com regularidade, mas a maior afluência ocorria na missa de domingo.
Para além dos militares, esta igreja era frequentada por outras pessoas, muitas de classes mais baixas, que se deslocavam de zonas remotas da cidade.

Basta recordar que, quem sobe a célebre rua da Boavista, a primeira igreja que encontra é a do Pópulo. Quem chega da estação ferroviária, a igreja do Pópulo é a mais próxima para ser visitada. No mesmo sentido está o Campo da Vinha, onde eram realizadas as feiras semanais que atraiam muitos populares que também frequentavam este templo religioso.
De recordar ainda que ao fundo da rua da Boavista situava-se um lugar, então conhecido de “Carreira”, que era uma verdadeira exposição de imundice e falta de higiene, onde o entulho e detritos eram bem visíveis e sentidos. Desse local chegavam e partiam muitos passageiros com destino a Barcelos, Guimarães, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez ou Chaves. Aí muitos deles aproveitavam a proximidade da igreja do Pópulo para efetuarem as suas preces religiosas.

Em momentos de maior afluência à igreja, algumas missas ocorriam nas laterais do edifício religioso, para o povo mais humilde, e no centro da igreja realizava-se missa para o regimento de infantaria, que se encontrava instalado no convento.
Foi precisamente no domingo, dia 3 de setembro de 1899, que ocorreu um episódio bem peculiar, que carateriza a realidade minhota e de Braga na altura.
A igreja encontrava-se cheia de populares, quase todos vindos das aldeias vizinhas, para assistirem à missa dominical, precisamente numa das laterais do templo, quando de repente entra na igreja uma força de infantaria 8. À frente vinham alguns soldados, que tinham a função de abrir caminho e reservar o lugar para que alguns superiores pudessem sentar-se confortavelmente.

Esta força militar ordenou a saída de muitos populares que se encontravam na igreja, para dessa forma darem lugar aos praças do primeiro batalhão que, entretanto, se aproximavam. Dessa ordem resultou a saída de muitos fiéis.
Uns minutos após esta decisão, o comandante deu ordem de descanso ao batalhão, tendo os soldados batido com as espingardas no chão, provocando um enorme estrondo que ecoou violentamente pelos ouvidos dos populares que lá se encontravam.
Foi então que nesse momento, uma mulher que estava a ouvir missa assustou-se e entrou num berreiro enorme, gerando logo pânico em todos os populares presentes que, não sabendo o que se estava a passar, desataram aos gritos e numa correria pela igreja, na ânsia de encontrarem rapidamente a saída.

A confusão gerada foi enorme: as mulheres, maioritariamente de tamancos, tropeçaram e caíram umas sob as outras. Algumas roupas ficaram rasgadas, o que desagradou às vítimas, pois as roupas eram bens escassos e de difícil compra, na altura, devido às parcas economias familiares. A correria que se gerou no interior da igreja foi descrita como sendo “uma confusão medonha”, pois muitas mulheres perderam e trocaram o calçado, “a outras desappareceram brincos, dinheiro e varios objectos” (Commercio do Minho, 5 de setembro de 1899).
Esta era na realidade uma época de grande miséria em Braga e no país. 1899 foi um ano marcado pela célebre epidemia do Porto, que assolou muito a nossa região. O medo da fome e da morte estava generalizado nas pessoas. Como consequência, ocorriam as preces públicas “pro vitanda mortalilate”, muito frequentes em tempos de epidemias ou de pestes.
No cemitério de Braga eram sepultadas, por ano, cerca de 900, o que corresponde a quase três mortes por dia, muitas delas vítimas de pneumonia e de “fraqueza geral”.

A miséria era generalizada. Ocorriam anúncios permanentes centrados nos pedidos de ajuda urgentes a pessoas e famílias carenciadas. Destaca-se o de 5 de setembro de 1899, publicado no “Commer- cio do Minho”, que pedia ajuda urgente para a senhora Gertrudes Rosa, viúva, entrevada, moradora na rua do Carvalhal; para Maria Joaquina, casada, com seis filhos pequenos, e o marido enfermo, da rua de S. Domingos; para Teresa de Jesus, casada, doente e com filhos, e o marido também impossibilitado de ganhar meios de subsistência, da rua dos Pelames; para Manuel Fernandes de Sousa casado, doente, e com filhos, da rua de S. Sebastião; para Rufino das Dores Paiva, doente, da rua do Sardoal; para Teresa de Jesus, viúva e doente, de S. Sebastião das Carvalheiras e para Justina Rosa, de 19 anos, tuberculosa em ultimo grau, de Guadalupe…

Pela cidade ocorriam constantes desacatos, agressões e prisões. Vivia-se um medo generalizado e as pessoas tentavam encontrar ajuda espiritual no interior das igrejas.
Mas a ajuda que esta pobre gente procurou na igreja do Pópulo, nesse dia 5 de setembro, gerou um pânico que ninguém contava, fruto do som das espingardas que ecoou pela igreja.

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