Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Os netos de Keynes vivem melhor que o avô?

A recuperação das aprendizagens

Ideias

2015-05-01 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Estive a reler esta semana o célebre artigo “Possibilidades económicas para os nossos netos” escrito por John Maynard Keynes em 1930. Redigido no período entre as duas guerras mundiais e no contexto da Grande Depressão, nele quis o reputado economista inglês apelar à adoção de uma perspetiva de longo prazo em detrimento de uma de mais curto prazo, de uma visão projetada no futuro, para além das adversidades conjunturais. Em consequência, aí formulou duas previsões a verificarem-se cem anos depois, na era precisamente em que nos encontramos.

Keynes conjeturou há um século que, se a Humanidade não fosse assolada por conflitos de grande magnitude, em 2030, por efeito sobretudo do progresso tecnocientífico, o seu nível de vida multiplicaria pelo menos oito vezes e o tempo gasto com as tarefas essenciais para assegurar a satisfação das suas necessidades básicas seria reduzido a um quarto.

Ora, de acordo com os dados mais recentes disponíveis, o PIB mundial per capita médio (um indicador controverso, porque permite camuflar grandes disparidades distributivas, mas possivelmente o único que permite uma comparação) cresceu cerca de seis vezes e o número médio de horas de trabalho por semana no planeta baixou apenas cerca de um 1/5 (de 60 para 48), longe da antevista queda em 3/4 (de 60 para 15).

É verdade que uma das premissas em que as previsões se basearam foi afetada - porque entre 1939-1945 houve a Segunda Guerra Mundial - e ainda falta década e meia para se atingir a data das previsões. Mas afigura-se pouco provável que nesse espaço de tempo os calculados valores venham a confirmar-se, especialmente o último, uma vez que o relativo ao poder de aquisição ficou próximo de ser atingido.

Como interpretar, então, este resultado? Assinalando, desde logo, que é ambivalente, preferindo os mais condescendentes destacar que Keynes acertou em metade das previsões e os menos tolerantes enfatizar que falhou em igual percentagem. Todavia, o que ele apresenta de mais interessante e mais faz pensar é o seguinte: por que é que na última centúria as pessoas (em média) têm vindo gradualmente a dispor de mais riqueza, sem que, em contrapartida, a tenham aproveitado para (em média) trabalhar menos?

Por que é que não se cumpriu a segunda previsão de Keynes, aquela que mais o preocupava em relação às suas consequências, nomeadamente de que quando se atingisse uma semana de trabalho de apenas quinze horas sérios desafios de ocupação do tempo livre criado adviriam e, para uma Humanidade pouco ou nada habituada a dele dispor, o risco de “um colapso nervoso” tornar-se-ia bem real.

Uma possível explicação para esse desfecho não esperado poderá estar no facto de, desde que Keynes publicou o seu ensaio, um número sempre crescente de setores económicos se ter mecanizado, automatizado, robotizado, conseguindo produzir de modo cada vez mais eficiente - menos custos financeiros e energéticos e maior rapidez - os bens e serviços necessários com cada vez menor recurso a labor humano.

O tempo livre abunda, pois, não porque se trabalhe menos, mas porque muitas pessoas não acedem a qualquer tipo de trabalho remunerado. Nesse sentido, o grande desafio (menos científico que político) com que nos deparamos hoje é o de divisar como manter os salários atuais repartindo o escasso trabalho existente. Dar-lhe resposta é a condição para que a segunda previsão de Keynes se cumpra e para que os netos dele e nossos possam viver melhor.

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