Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'Os Olhos de Mei-Yu', por César Elias

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2012-07-23 às 06h00

Escritor

Nasci nesta sala escura. Escura de um negro que ainda hoje me conforta e desconforta. Valeram-me, até meados da idade de treze anos, os sonhos que perdi. Velei-os no dia em que por entre burburinhos e arrepios da minha alma cinzenta, algo de diferente estaria prestes a manifestar-se para além da minha carcaça desconhecida. Desse dia resta-me a lembrança de meu choro. Choro como um cântico, não como berraria. No dia desse choro, secaram-se-me as lágrimas sem que conseguisse entender. Entendo hoje. Nesse dia, o meu choro de menina era o choro de uma mulher.

Lembro-me como era no início. Sentia-me assustada e o silêncio fazia um tremendo eco como cortesia aos flashes endiabrados dos meus pensamentos. Pensava em cores. Cores que explodiam em seres indesejados, seres do passado, seres que nunca vira, em cenas violentas que nada faziam lembrar. Via mãos distorcidas, mãos de barro, brancas e longas como estalactites secas em forma de mão.

Depois, logo depois, laços movediços de um vermelho muito feio, sempre muito movimentados de forma a alcançar a pele dos meus olhos mas que acabariam por nunca conseguir tocar. Laços, acompanhados de um murmúrio muito fino e contínuo, digno de alguém que sofre em agonia, distante de socorro. O grito cessava quando ouvia passos que me envolviam.

Os passos aumentavam como se fossem chegando visitas. Uns fortes, outros leves, uns apressados e de taco, outros como se saltassem à corda vezes sem fim, outros, ainda, lembrando um par de chinelos em arrasto por qualquer piso com areia. Mais eco e agora cores escuras que ocultavam rostos. Mas havia uma luz forte que como um farol para o mar preso num abrupto nevoeiro, fazia denotar as feições dos rostos entre segundos, num compasso de tempo sempre acertado. Como um farol que visto do mar faz não esquecer o rosto da terra.

Os rostos não eram velhos, eram apenas antigos e quase sempre femininos, com seus olhares sempre sérios... no fim, era só eco. Um eco seco, embalador, estimulante, completamente dono mim. O tempo é apenas uma memória. Isso sim, é uma fortuna.

É uma estação agradável do ano. Gosto de sair para a rua bem cedo, pouco depois do adeus da noite opaca à luz fresca e polida da manhã. Cheira a folhas secas. Ouço-lhes o cantar quando roçam a calçada ao ritmo da angústia dos pardais. Inquietos, os pardais, por não terem galhos forrados. Caminho de cheiro em cheiro. Passa meticulosamente à mesma hora o senhor Huan. Passa a escassos metros da minha viseira gelada, pejada para sempre desta escuridão sem fim.

Sempre me dá um altivo bom dia o senhor do arcaico triciclo chinês. Por vezes, quase nos saudamos em uníssono. Cheira a frutos do mar o senhor do Sam-Lun-Ché. Marinheiro? Filho de pescador? Também Miss Li, a menina, ou senhora da botica de mezinhas e chás da China, me felicita com um entusiasmo incomum. Talvez seja mulher sozinha, ou solitária.

Por vezes faz questão de me convidar para uma chávena de chá branco. Conta-me histórias da sua aldeia nos confins do oriente. Histórias de mulheres semi-despidas que caçam javalis com um cajado, histórias de homens que vivem no morro de uma montanha dando a vida pelo segredo dos dragões. Talvez pela mistura incrível dos aromas exóticos que me entorpecem os sentidos, acabo sempre por me deixar embalar pelo entusiasmo da narrativa. Gostava que soubesse o quão real se torna na algazarra da minha imaginação. Agradavelmente confabuladora, Miss Li.

Pouco mais do que uma centena de passos separam a escola, da rua Vong Kei, mas em Pequim, qualquer trajecto, por mais pequeno que possa parecer, é sinónimo de uma verdadeira batalha. É uma escola diferente, esta, onde lecciono a língua inglesa há já mais de três anos. Três anos em que me tenho contido perante tanta tragédia humana.

Casa religiosa, destino de criaturinhas deixadas, enroladas em mantas, enjeitadas entre a vida e a morte. Liceu especial para crianças especiais. Saber que outrora teria sido eu, um triste anjo cego, envolvido nu na maior farrapilha dos pecados da humanidade, não me faz confusão, nem me calcifica o coração, ainda que estremunhado por essa realidade.

O que verdadeiramente me leva a alma em agonia, é sentir o chegar contínuo de todas estas crianças, destes seres de vida erma, e saber que o seu próprio caminho poderá já estar confinado a um deserto sem fim.

Ao contrario de mim, criança deixada numa noite fria de Dezembro, que tive a sorte de ter sido achado por Mei-Yu, mulher bela de pensamentos, de uma finura de olhos incomparável! Mei-Yu, foi quem me guiou pela meninice, foi quem me fez ver o mundo através da sua fala pausada, suave, com aroma de chá preto e menta. Jaze ainda na orbita de minha vida escura, as coloridas emoções das caminhadas de sexta-feira.

Lembro-me. Era dia de descer até ao mercado Laitai em busca de flores. Quase três quarteirões até lá. Trinta minutos em passo acelerado, passo normal e desafogado pela brisa do fim da madrugada, entre o sono e o amanhecer.

Dizia ela, mulher de nome de pedra de Jade, que seriam provavelmente as mais belas flores de todo o continente Asiático, que em nenhum outro lugar se pode encontrar a frescura e a luminosidade de tantas e tão harmoniosas flores. Verdade? Provavelmente sim, provavelmente uma alegoria demasiado credível, visto que quase todas elas, algumas em particular, desaparecem num ápice, tão rápido quem nem o sol se chega a recompor de uma noite em descanso. Dizia que as flores têm sentimentos. Que choram quando estão tristes. Que se revigoram quando sentem alegria. Todas elas têm um significado diferente. O lírio, por exemplo, é geralmente usado nos matrimónios não só por fortalecer o espírito da união, como por representar cem anos de amor e de sorte.

Para adultos de sucesso as flores de ameixa, lindíssimas e aromáticas. As orquídeas simulam classe e bom carácter, bem como os narcisos que representam virtudes inigualáveis e elegância eterna. Às flores de crisântemo chamam-lhes despedidas-de-verão. Destas, as mais desejadas são as encarnadas porque simbolizam uma vida forte e saudável, as amarelas e as brancas usam-se nas cerimónias fúnebres e como adornos nos túmulos. Dizia que nunca se deve oferecer despedidas-de-verão amarelas, traz mau agoiro e antecipa a morte.

Algumas têm até importância medicinal, e os chineses mais antigos vêem-nas como prioridade, não como alternativa. As orquídeas, por exemplo, curam doenças pulmonares e tosses possantes. As despedidas-de-verão curam o frio aos idosos. As flores de ameixa fazem milagres no calor e curam até a diarreia. Deambulava-mos perdidas, esquecidas, entre o perfume dos bazares e os discursos ricocheteados dos comerciantes.

A cada passo me sentia surpreendida, estupidamente surpreendida, com a visível necessidade que tinha em viver na companhia de outras pessoas, de criar mundos em grupo, de viver apenas para que possa agradar alguém que da minha vida faça parte, e desse modo, sentir-me feliz ou irremediavelmente conformada de que faço o que está correcto, que redigo assim, o circulo perfeito daquilo a que chamamos vida.

Esta noite, noite de sexta-feira, que me enternece a alma e me defuma o coração, apenas poiso confortável no eterno balanço do assento de bambu. Miro, pela pequena janela de vista privilegiada, as sombras do imenso, da bruma, dos deuses que de cima olham o burgo da proibição. Indiferente aos habituais solavancos, coices e arrastões do andar de cima - décimo quinto - delicio-me com o reflexo da vista e com uma chávena de chá preto, como manda a boa tradição de uma boa noite Chinesa.

Vou pensando. Poderia morrer hoje. Morreria feliz. Feliz por entender que o mundo, assim como o vejo, é tonicamente perfeito quando conhecemos alguém como Mei-Yu. Feliz por saber que as pessoas, as minhas pessoas, são o meu maior troféu, e que uma manhã fresca de sexta-feira cura até meses de doença.

Vazo o chá na chávena branca, sentando o bule de bico apontado que não em minha direcção. E espreito o céu e a lua, o altar da madrugada, sem que não haja um novo dia… Sem que não haja uma alvorada…

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