Correio do Minho

Braga, sábado

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Os que mamam

Um novo pacote de medidas de apoio às empresas

Ideias

2010-04-18 às 06h00

José Cunha Rodrigues José Cunha Rodrigues

Na semana passada, a deputada da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Cida Campos, “parou o baile” a propósito de um deputado que pretende ser indicado para o Tribunal de Contas (ou faz-de-contas?). Num discurso claro, inflamado mas sem eufemismos e sem papas na língua, e para silêncio e constrangimento geral dos deputados presentes, Cidinha pôs os pontos nos is, começando por perguntar se a “discussão do leite” tinha terminado e em seguida malhar, sem dó nem piedade, naqueles que “mamam” (expressão da própria), chamando a um dos senhores em causa, José Nader, de ladrão de dinheiros públicos, e apontando provas cabais dos graves delitos (corrupção aguda) que ele comete; questão cerne deste inspirado discurso: no apuramento de tais factos, pergunta Cidinha se uma pessoa destas preenche o requisito da reputação ilibada.
A propósito de aproveitamento de dinheiros públicos, vamos sabendo que certos senhores, no alto dos seus respeitados cargos, ganham ordenados muito acima da média, isto em plena crise, gestores de topo de empresas participadas pelo Estado, atentando contra aqueles que são tratados como parasitas: os que menos têm, portanto. Falo, por exemplo, dos rendimentos de António Mexia, presidente da EDP. Até pouco me importaria se esse dinheiro nada tivesse a ver com o Estado. Mas tem!

Num dos seus belos discursos “do leite”, o Sr. António Mexia recordou que os portugueses devem poupar para bem de todos, tendo para isso que fazer sacrifícios a curto prazo e obter vantagem a médio prazo. Recordo que este senhor ganha 3,3 milhões de euros por ano, o correspondente a 496 trabalhadores com salário mínimo nacional. Não duvidando da sua competência profissional, já também muito gabada por José Sócrates, pergunto: como é que é possível este português receber um ordenado destes - que seria um dos mais bem pagos do mundo caso ele fosse americano - estando a maioria de nós, portugueses, em contenção?
Para além da “coerência” com o ordenado que recebe, António Mexia também tem “coerência” em relação ao Estado, onde denuncia o não apego aos dinheiros públicos e o “pedir o menos possível à Nação”, quando na verdade toda a sua carreira foi construída à sombra do próprio Estado e do poder político (relembro que 26% da EDP são do Estado). Mexia foi: Adjunto do Secretário de Estado do Comércio Externo, Vice-Presidente do Conselho de Administração do ICEP, Presidente dos Conselhos de Administração da Gás de Portugal e da Transgás, Vice-Presidente da Galp Energia, Presidente Executivo da Galp Energia, Presidente dos Conselhos de Administração da Petrogal, Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Presidente do Conselho Geral da Ambelis e representante do Governo Português junto da União Europeia no Grupo de trabalho para o desenvolvimento das redes transeuropeias. Curiosamente, agora está na EDP.

Quem quiser recordar mais em pormenor esta “coerência”, basta reler o mariola documento “Compromisso Portugal”, na parte em que Mexia se insinua sobre este assunto. Passo a citar: “Somos um país tradicionalmente resistente à mudança a todos os níveis da nossa Sociedade. A ambição que é hoje obrigatória para Portugal, exige rupturas com modelos e formas de funcionamento anteriores. Terão que se assumir sacrifícios no curto prazo por forma a obter vantagens no médio prazo, devendo esta geração evitar carregar inutilmente as próximas.
Quem tem hoje a oportunidade de contribuir para a discussão e a implementação destas transformações, tem de assumir a cidadania como um papel activo (…) e de responsabilidade, associadas à maior disciplina no cumprimento das nossas obrigações. Temos que aprender a dar mais e a pedir menos, aproveitando as experiências, competências e contactos dos nossos empresários, gestores, académicos, de todos os que têm demonstrado capacidade e vontade de melhorar. A energia, a inovação, devem ser canalizadas numa nova atitude perante os desafios. Isso exige necessariamente um maior grau de compromisso.”
Para terminar, falemos de meritocracia, onde Mexia, bem lesto, também deu um berro de contradição: contratou para assessor jurídico da EDP (bem pago) o Sr. Pedro Santana Lopes (seu ex-primeiro-ministro) que, como todos sabem, sempre foi e ainda é uma “autoridade jurídica”, sobretudo na área das energias!
Nesta inversão de lógica, espero que o discurso da deputada Cida Campos inspire a oposição a denunciar e a sacudir senhores como este, que nos dão “lições de meritocracia e estoicidade” para vencer as desgraças da economia nacional.

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