Correio do Minho

Braga,

Os resultados do TIMSS 2015

Escrever e falar bem Português

Voz às Escolas

2016-12-29 às 06h00

José Augusto

Portugal rejubilou com os resultados obtidos no TIMSS 2015. Este estudo internacional, que se realiza de 4 em 4 anos, avaliou a literacia dos alunos do 4º ano em Matemática e Ciências. O teste foi realizado em condições comparáveis por mais de 300.000 alunos de 56 países e regiões administrativas. A amostra representativa de Portugal, definida aleatoriamente pelo consórcio internacional, envolveu 4.693 alunos, com uma média de 9,9 anos de idade, de 217 escolas (198 públicas e 19 particulares e cooperativas).
No domínio da Matemática, Portugal obteve um valor médio (541 pontos), bastante acima do valor de referência (500 pontos), em linha com países como a Inglaterra (546), Bélgica (546), USA (539) e Dinamarca (539), destacando-se no grupo dos que apresentam tendência de subida. Melhoramos 9 pontos desde 2011 e 99 pontos desde 1995. Este foi um resultado importante, quando, em oposição, se observaram tendências de quebra em países como a Finlândia e a Alemanha.
No que concerne ao domínio das Ciências, Portugal obteve um valor médio (508) pouco acima do valor de referência, semelhante a países como a Holanda (517), Itália (516), Bélgica (512), Nova Zelândia (506) e França (487). Porém, apresentamos uma quebra de 14 pontos, baixando a melhoria acumulada desde de 1995 para 56 pontos.
Isto é, entre 2011 e 2015, a subida de 9 pontos do desempenho dos alunos portugueses na área da Matemática foi acompanhada de uma descida de 14 pontos do desempenho dos mesmos alunos nos itens da área das Ciências.
Na Matemática, uma análise mais detalhada dos resultados, por conteúdos, revela uma estagnação do desempenho na área da “Apresentação de Dados”, de 548 (TIMSS 2011) para 546 (TIMSS 2015); uma descida de 9 pontos na área das “Formas Geométricas e Medida” (de 548 para 539), compensadas por uma subida relevante do desempenho na área dos “Números” (de 522 para 541). Por outro lado, os resultados de Matemática, desagregados pelas dimensões cognitivas mobilizadas pelos diferentes itens do teste, mostram também que a subida do desem- penho global dos alunos portugueses foi obtida pela melhoria nos itens que testavam o simples “Conhecimento” matemático (aumento de 531 para 548), uma vez que nas respostas que exigiam “Raciocínio” matemático houve uma estagnação da capacidade dos alunos portugueses, 531 em 2011 e 532 em 2015, e nas que exigiam “Aplicação” dos conhecimentos houve apenas uma variação ligeira de 534 para 540 pontos.
Em síntese, a melhoria dos resultados dos alunos do 4º ano na área da Matemática do TIMSS 2015 não foi equilibrada em todas as áreas de conteúdo, nem harmoniosa em todas as dimensões cognitivas testadas. Pelo contrário, parece sustentada nas áreas menos abstratas e mais propícias à memorização e muito fundamentada em dimensões cognitivas que não garantem aprendizagens de nível superior e mais perenes. Dito de forma mais simples, a melhoria que se observou no TIMSS 2015 pode muito bem ser apenas o resultado colateral da necessidade de preparar o Exame de Matemática do 4º ano que então existia. O problema é que essa preparação estava a focar-se mais no “Conhecer” para o exame (para depois esquecer) e menos no desenvolvimento do “Raciocinar” e do “Aplicar” o conhecimento, capacidades que garantem aprendizagens significativas e competências para continuar a aprender.
Finalmente, uma vez que este TIMSS coincidiu com um ciclo que, no domínio do 1º ciclo do Ensino Básico, teve como marco principal a introdução de “Exames de Português e Matemática no 4º Ano de Escolaridade”, não podemos deixar de destacar uma outra evidência do efeito pernicioso dessa medida política sobre o currículo e sobre as aprendizagens dos alunos. Como ficou evidenciado na fastidiosa (mas necessária) descrição feita no início desta crónica, o foco (das escolas, dos professores, dos alunos e das famílias) nos exames de Português e Matemática induziu a desvalorização de outras componentes do currículo, como se verifica pelos resultados do TIMSS nas Ciências, em que, entre 2011 e 2015, regredimos em todas as áreas de conteúdo: Ciên- cias da Terra, de 513 para 502; Ciências da Vida, de 520 para 508; Ciências Físicas, de 517 para 502. Retrocesso de desempenho que também se verificou nas dimensões cognitivas testadas nos itens da componente de Ciências do TIMSS: “Conhecer”, de 528 para 507; “Raciocinar”, de 524 para 506; “Aplicar”, de 515 para 508.
Concluindo, este efeito nefasto de “afunilamento” e empobrecimento do currículo e das aprendizagens dos alunos do 1º ciclo, induzido pelos extintos exames de Matemática e Português do 4º ano, parece-me demonstrado de forma inequívoca pelo TIMSS de 2015. Outrossim, fica uma evidência demolidora de como não se deve promover o desenvolvimento educativo privilegiando apenas algumas áreas de conteúdos ou algumas dimensões cognitivas.
Aos mais renitentes (ou distraídos), convém lembrar que estes exames do 4º ano nunca foram semelhantes ao antigo exame da 4ª classe que, apesar de tudo, incidia sobre várias áreas do currículo então existente.

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