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Palavra do ano…

O símbolo internacional (quase universal) do amor

Palavra do ano…

Escreve quem sabe

2022-01-10 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

No início de um novo ano, um dos exercícios mais correntes e generalizado nos meios de comunicação social é a escolha da “palavra do ano”, ora por força da sua capacidade de síntese, ora pela sua dominância ou repetição, ora pelo seu protagonismo e impacto em parte desse período temporal. Acrescenta-se também a possibilidade da mesma retratar uma “certa moda” no uso (e, porque não, abuso) de palavras específicas, num sinal de descoberta ou dita modernidade e riqueza vocabular, nem sempre, quantas tantas vezes, desfasada dos seus verdadeiros significado e sentido.
Uma das palavras candidatas a “palavra do ano” é resiliência. Resiliência enquanto palavra usada para retratar a capacidade de uma sociedade na superação do momento pandémico que se vive, a resposta às dificuldades emergentes e, progressiva e sucessivamente, identificadas, a conformação e reacção ao contexto circunstancial que moldou (e molda) o seu quotidiano. Resiliência (é convicção) enquanto palavra que se sobrepõe àquela denominada “resistência”, não porque traduza uma melhor forma de fotografar a realidade, perenizando-a no tempo e no nosso imaginário, mas sim porque se afigura palavra mais actual e moderna, mais assertiva e distinta… Resiliência que, de facto, foi alvo de uso recorrente e massacrado, presença constante nas notícias e conversas, mas, julga-se, nunca questionada no seu verdadeiro sentido e significado, num retrato tão fiel quanto questionável e, dir-se-á, preocupante do estado da arte do modo de comunicar.

De forma simples, resiliência significa a capacidade de voltar à forma original depois da sujeição a uma deformação, tão mais acentuada quanto mais profunda essa deformação. Resistência significa a capacidade de suportar o impacto e o efeito de determinado fenómeno, continuando a desempenhar as funções vitais e estruturantes, sem prejuízo da adaptação, flexibilidade e ajustamento ao momento e contexto (mesmo que tal implique mudança e transformação).
Resiliência e resistência são, pois, palavras que traduzem, na sua génese, pertença à mesma família semântica, força e energia para enfrentar e superar o indesejado, mas que se distinguem, depois, na fase posterior, na forma de reacção e resposta: uma (resiliência) volta ao seu estado “original”, retomando o caminho, quase como se a vida tivesse “congelado” ou interrompido; outra (resistência) continua o caminho sem olhar para trás, aceitando os efeitos produzidos, acomodando-se e garantindo à resposta estrutural desejada, mesmo que em circunstância e modelo diferenciados. E, ao ser assim, não podemos comparar estas duas palavras, não podemos substituir uma pela outra, não podemos desejar as duas, porque não podemos querer e ambicionar progredir e regressar, mesmo que ambas representem capacidade de resposta positiva e válida à adversidade, mesmo que ambas simbolizem perseverança e energia na defesa do que é essencial e necessário.

Ao “olhar” criticamente para o ano findo e para as cidades que vão dominando e sustentando o nosso quotidiano urbano, constatamos que vivemos um período em que as cidades se desertificaram quando confinamos, se revelaram “limpas e melhoradas” quando desconfinados, se reconfirmaram no seu comportamento no processo de “retoma da normalidade”. Constatamos que vivemos um período em que a ausência do “carro”, de facto, traduziu uma melhoria ambiental (ruído, ar, …) inquestionável, o espaço público é, de facto, essencial como espaço de encontro e socialização, o momento se afirmou de oportunidade (dir-se-á irónica, já que causada por motivos menos bons) de mudança e introdução de medidas disruptivas, transformadoras e, porque visíveis os seus resultados, passíveis de uma implementação mais pacificada e consensualizada.

Na verdade, hoje, o que concluimos é que, pese todas as evidências construídas ao longo deste último tempo, todos os efeitos, ainda que temporariamente balizados, sentidos na qualidade do ar, do ruído, da vivência do espaço público, entre outros, procede-se à retoma dos “velhos vícios e hábitos”, ao modo de fazer e viver que as cidades registavam antes do momento pandémico. Ou seja, na verdade, que nada se transformou e alterou, antes pelo contrário, algumas realidades aparentam ter-se acentuado e aprofundado, num processo que espelha (na correspondência do significado das palavras) muito mais resiliência do que resistência. Afinal, as cidades aguentaram as suas deformações, dir-se-á, negações, mas não conseguiram evitar a retoma das suas formas e roupagens anteriores, num processo omisso de ousadia transformadora, interpretativa dos desafios e dificuldades que o momento pandémico gerou (ainda gera), enfretando e superando as segundas (dificuldades), respondendo e satisfazendo os primeiros (desafios).

Resiliência será palavra que retratará fielmente este ano findo e, consequentemente, será palavra válida para a sua síntese. Não carrega é a qualidade positiva que à mesma conferem, nem se vislumbra o seu efeito catalisador que muitos à mesma colam. Num sinal fiel de modernidade, confesso que preferiria voltar à velha e sábia palavra “resistência”. Significaria que teriamos superado a adversidade e acrescentado talento, transformado dor em energia e a tristeza em ousadia, preparando e concretizando robustez para responde às exigências das alterações climáticas, aos requisitos de um espaço público, cada vez mais, disponível, incluisvo e democrático, às inevitáveis imposições ambientais. Que teriamos ficado melhor.
Não tendo sido possível no ano findo…que seja em 2022!

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