Correio do Minho

Braga, terça-feira

Palavras, leva-as o vento!

Combater a DPOC

Ideias

2010-12-05 às 06h00

Carlos Pires

Portugal tem uma situação muito difícil pela frente. As nossas contas públicas estão descontroladas. O crescimento económico, a existir, é quase nulo. O país está a um passo de se tornar insolvente, por não conseguir pagar aos seus credores; precisa de reduzir os seus custos de trabalho, bem como de profundas reformas estruturais. Pedem-nos cada vez mais sacrifícios, numa altura em que há mais e mais famílias no limiar das suas possibilidades. Todos nós, de forma esclarecidas ou resignada, já nos mentalizamos que o futuro próximo exigirá provações.

A par, as palavras dos agentes políticos, muitas das vezes estrategicamente acompanhadas de aparentes acessos de comoção pública, possuem um denominador comum de moralidade: a universalidade dos sacrifícios deve ser salomónica e assumida por todos os portugueses.

O discurso da solidariedade nacional tem uma virtude: fica sempre bem a quem o profere. E das palavras aos actos, que constatamos nós? Infelizmente, a eloquência não passa disso mesmo, palavras soltas, ao sabor do vento. Senão, vejamos:

1. Disseram-nos que o Estado encomendou para a PSP seis viaturas blindadas, por um milhão de euros, porque eram essenciais para manter a ordem durante a Cimeira da NATO. Acontece que o primeiro dos seis blindados chegou um dia depois de acabar a Cimeira. Mais, foram comprados sem concurso público, optando-se pelo ajuste directo, precisamente por causa da urgência de termos os blindados a tempo da chegada dos ilustres visitantes. Ou seja, pagamos mais caro e não servem para nada…

2. Disseram-nos que todos os portugueses darão o exemplo, mesmo os que se encontram no topo das hierarquias. Ora, no actual quadro económico e social, e sem prejuízo de cada um dever poder continuar a trabalhar enquanto tiver condições para o fazer, entendo ser imoral acumular reformas ou receber um salário, mesmo que parcialmente, para somar a uma elevada pensão. E há muitos (bem-falantes!) a quem esta crítica é dirigida: o actual presidente da República, o seu principal opositor nas próximas eleições, o presidente do Governo Regional da Madeira, ex-ministros e actuais eleitos do poder local, ex-deputados, etc.,etc….

3. Disseram-nos que as empresas mais rentáveis participariam neste pacto de responsabilidade social, nomeadamente através do agravamento da tributação dos lucros a distribuir no próximo ano. É público que algumas empresas (v.g. EDP, na qual o Estado detém uma participação maioritária e até uma “golden-share”) decidiram antecipar a distribuição de dividendos aos accionistas para escapar à taxa que seria devida em 2011. José Sócrates e Teixeira dos Santos apelidaram essa medida de gestão das empresas como “imoral” e “inconveniente”. O que é certo é que a maioria do Parlamento optou por chumbar uma proposta no sentido de a nova tributação poder abranger qualquer antecipação de distribuição de lucros. Todos esvaziaram, dessa forma, os cofres do Estado em vários milhões de euros…

4. Disseram-nos que os cortes salariais para os trabalhadores do Estado eram para todos os que auferissem retribuição superior a 1500 euros. E não é que sorrateiramente foi aprovado um diploma pelo PS, com a conivente abstenção do PSD, que permite excepções para as empresas do Estado? E agora tentam convencer-nos de que caso persistissem os cortes salariais em instituições como a Caixa Geral de Depósitos, TAP, CTT, CP e por aí fora, os “crânios” que lá trabalham debandariam em massa para outras instituições...

Ainda, a este propósito das excepções aos cortes salariais, o Governo Regional dos Açores aprovou uma remuneração compensatória que cobrirá 'integralmente a perda de vencimento dos funcionários públicos' que têm um rendimento mensal entre 1500 e 2000 euros. O Presidente, o socialista Carlos César, referiu que 'os portugueses podem ter a certeza de que o que aqui fazemos não é tirando o dinheiro a ninguém, é utilizando o dinheiro que já está afecto aos Açores'. Pelos vistos, foi afecto dinheiro a mais para aquelas bandas, há que rever a ratio das transferências para aquelas ilhas. Contudo, José Sócrates, em defesa dos Açores, veio referir que os governos regionais têm competências próprias, nas quais o Governo da Republica não deve imiscuir-se, não deixando de salientar que os cortes salariais são para todos… Mas são mesmo para todos ou não são? Ou, afinal, o corte salarial é igual para todos mas uns são mais iguais do que os outros?

E isto diz tudo sobre a (des)consideração que os políticos têm pela lucidez dos portugueses e sobre a forma como se esbanja o dinheiro que provém dos nossos impostos e dos nossos sacrifícios. Ainda nos atiram com “palavras” bonitas, tal e qual areia para os olhos. Palavras? Leva-as o vento! Numa hora em que importava mostrar que a austeridade e o rigor são para levar a sério, exibimos os nossos piores vícios: o favoritismo e a discriminação em razão de posições de influência e da cor partidária.

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