Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Palavras que brilharam no pousio estival

Uma Justiça que é tão cega

Palavras que brilharam no pousio estival

Escreve quem sabe

2019-09-09 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Muitos dizem que Setembro é mês de retoma. Retoma não no sentido económico e político do termo (que o período eleitoral que se aproxima trará para a “ribalta”) mas de hábitos e actividades que colocamos em pousio em nome de período do descanso chamado férias.
Outros apelidam este mês de Setembro como o início de novo ano já que é tempo de ajustamento a novos horários, novas actividades e, tantas vezes, começo de novos projectos e ciclos.
Para outros ainda, Setembro é mês indiferenciado de continuação de um quotidiano que não conheceu interrupção.
Seja como for, Setembro é mês de regresso a esta página, convidando este regresso a uma leitura revisitada e sintética do que foi tema e assunto neste tempo (que já foi mais estival) cada vez mais marcado e compassado pela cidade e vida urbana.

O tempo passado foi fértil em notícias, entrevistas e acontecimentos, uns de maior densidade, outros de reflexão mais alargada e ligeira, identificando-se três palavras que dominaram (ou mais chamaram a atenção ao autor deste texto): património, pressão (urbanística) e (conjugação) de planeamento e política.
Este “verão” foi tempo de património, relevado e maximizado pela classificação (entre mais dois exemplares nacionais) do “Bom Jesus de Braga” como património cultural da humanidade, merecendo esta situação reflexão sobre o valor material e simbólico intrínseco do santuário, reconhecimento do trabalho de reconversão e reabilitação urbanística e paisagística realizado e projecção do valor e impacto que esta classificação significará para a cidade de Braga e região envolvente.

(1) Património é o testemunho que fica e perdura no tempo sobre a qualidade (chamada cultura) que soubemos erguer e consolidar. E é essencial como âncora territorial de afeição e identificação da população com o local que habita e visita, como referência cultural sobre a nossa capacidade de “ser e fazer” e como valor comunitário perene e partilhado. Por isso mesmo, importa olhar para o “Bom Jesus de Braga” e continuar a fazer caminho, não facilitar mas não cristalizar, na certeza de que, não sendo valor absoluto, o património (também) é sempre passível de melhoria.

(2) Pressão urbanística sobre as áreas centrais das cidades, focalizada ora no denominado alojamento local (e seu efeito predador de absorção e monopolização da habitação nos centros urbanos e posterior reflexo na proporção inversa da atracção de turistas e afastamento de habitantes), ora na realização de eventos, festas e acontecimentos sucessivos nas áreas centrais das urbes, destabilizando o quotidiano urbano e retirando qualidade ambiental e vivencial às mesmas áreas (com repercussão agravada para quem habita, para aquele que persiste em ficar…).
E esta parece ser contradição, no presente, aparentemente insanável: investimos, melhoramos, (re) qualificamos os centros das cidades, tornando-os cada vez mais atractivos e apelativos, desejavelmente, para novos habitantes. Mas, depois, na rentabilização e visibilização deste “naco territorial” qualificado, desejamos que atraia mais e mais turistas, estimulando a projecção da cidade e animando a sua economia. E, ao desejarmos tal, queremos que a cidade ofereça condições de estadia e de usufruto abonadas em quantidade e qualidade. E oferecemos festas, eventos e acontecimentos para animar e mais reforçar esta atracção de pessoas. De alguma forma, valorizando quem chega temporariamente em detrimento de quem fica permanentemente… este último, vendo a sua qualidade de vida em causa.
Definitivamente, importa olhar para esta realidade e encontrar fio condutor coerente e ajustado, não sendo possível querer “o melhor de dois mundos” sem cedências ou compatibilizações.

(3) Planeamento e política no regresso cíclico dos incêndios e da discussão gerada (será que se eternizará?) da falta de planeamento florestal e urbano, da falta de decisão política e medidas preventivas e mitigadoras. E (também) no regresso das “discussões” sobre o cumprimento dos instrumentos de planeamento em vigor, nomeadamente o plano director municipal (créditos de construção, cérceas, índices, …), da aprovação de diferenciadas figuras de planeamento (operações de reabilitação urbana) e (até) da dificuldade de planeamento de férias estivais em função da falta de previsão estável sobre o comportamento do clima (que expõe, com evidência maior, as alterações climáticas em curso).

E porque este foi tempo de leitura tantas vezes adiado, socorre-se da leitura realizada neste “verão” para uma constatação presente e um voto futuro: “percebo que nem sempre as coisas que são feitas na cidade são positivas. Mas tudo tem de ser visto caso a caso sem partis pris (preconceitos). A cidade precisa de se adensar para funcionar melhor e ser mais democrática e inclusiva. Muitas vezes, estas questões são politizadas, o que é um erro”; “que tudo o que venha a ser feito, seja feito com sabedoria e seja feito para servir e não para dominar!”.

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