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“Para quê tudo isto?”

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“Para quê tudo isto?”

Ideias

2022-10-17 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Ousa-se muitas vezes dizer que a vida sem surpresa seria uma monótona rotina. E que é a surpresa que anima e alimenta o quotidiano.
Quando se tal oraliza, pensa-se sempre que a surpresa é boa e nos favorece, nunca fazendo da surpresa resultado da incapacidade ou fatalidade. Nada a opor, antes que seja assim, emprestando uma perspectiva sempre positiva à vida.
Todavia, também muitas vezes, tratamos e qualificamos de surpresa realidades que mais não são do que a confirmação de hábitos e opções, de decisões e resultados que se adivinhavam ou se construiram, que foram provocados ou inerentes ao acaso. Muitas vezes, surpreendemo-nos com o inevitável e que não conseguimos ver, outras muitas vezes, nada nos surpreendendo mesmo que evidente diferentes realidades e resultados.
A forma como Portugal trata os denominados grandes projectos, ou os ditos projectos estruturantes, é exemplo maior desta surpresa que não deixa jamais de espantar e gerar admiração, não tanto, claro está, pelos resultados visíveis e físicos alcançados, mas sobretudo pelo procrastinar e tergiversar do processo e dos fundamentos encontrados para tal.

De certa forma, não deixa de ser espelho fiel da forma como aderimos à comunidade europeia e convivemos com esta, agora transformada em união europeia, numa constante relação de submissão e sucção, de reclamação e dependência que, longe de traduzir uma preocupação estrutural no desempenho do país, se centra no dinheiro e tudo o que ele implica, tudo o que ele ao seu redor faz gravitar.
Há muito aderimos à comunidade europeia através de uma vontade feita reconhecimento tácito e, acredita-se (pese todas as diferenças e divergências ideológicas) generalizado, de que não existiria alternativa. E aderimos em nome da integração na realidade europeia, prosseguindo a consolidação democrática e aspirando a ajuda financeira estrutural para crescer e qualificar, para (como tanto se repete) aproximar da “média europeia”. Depois, fizemos da “moeda única” e adesão ao euro opção indiscutível e sem ponderação “discutida” dos seus benefícios e prejuízos e, progressivamente, fomos integrando (e diluindo n)esta realidade europeia ao ponto de cruzarmos o epíteto de “bom aluno” com o de “gastador”, de proporcionar comissários europeus de referência com o exercício supremo da comissão europeia.

Apesar de todas as vicissitudes e contigências, leituras e interpretações, conclui-se que a síntese final é, maioritariamente, positiva e favorável à continuação e reforço desta presença e integração. Porém, uma análise mais fina a todo este processo, verificamos que aderimos necessitados de dinheiro e fundos, aceitando o que nos disponibilizaram, sem contestação ou divergência. Apenas aceitação e absorção de tudo, tanto aproveitado e bem aproveitado, tanto desperdiçado e desviado. Depois, passamos a pedir e negociar, estabelecendo critérios e parâmetros de troca e acordo: abdicamos disto para aceder àquilo e assim sucessivamente, até que atingimos o patamar da reclamação, “elevando a voz” e protestando tratamento, ora igual, ora diferenciado, invocando o bom comportamento passado e o potencial futuro do país, a periferia e a centralidade. Mais recentemente, e após o hiato triste da “troika”, onde o tratamento e a relação foi violenta e deixou marcas, exigimos. Sim, exigência fruto do momento pandémico, fruto disto e daquilo, sempre em nome da infraestruturação e qualificação, da realização e usufruto da população nacional.

Conhecida a nossa capacidade de realização e concretização, chegamos a um ponto, ao momento actual, em que dinheiro disponível não falta (estando pronto para ser usado), mas falta-nos projectos e tempo, sinónimos, na prática, da incapacidade até agora revelada de concretizar tudo o que possibilita e oferece o afamado plano de recuperação e resiliência (PRR).
Há algum tempo atrás, nesta mesma página do jornal, reflectiu-se sobre a natureza e abrangência, objectivos e assertividade do plano. Agora, constata-se que, independentemente de tal, demora a concretizar-se o previsto. E, porque demora, não nos focamos a analisar e a diagnosticar o que está mal e não nos apressamos a corrigir e acertar o caminho e o método. Não, pelo contrário, limitamo-nos a pedir tempo que, tantos, acham compreensível porque não se pode desperdiçar quantidade tão elevada de dinheiro, mas que, outros tantos, podem legitimamente entender como prolongar para arrastar, prolongar para procrastinar... afinal nada foi feito para aprender, apenas artificializada a realidade para “sairmos desta” e, assim, continuarmos “à tona da água”.

Não sabemos como irá acabar todo este processo, talvez daqui a pouco, passemos a exigir tempo em vez de pedir. E, depois, fica(rá) a dúvida: se festejaremos porque conseguimos “apesar de tudo” ou lamentaremos porque perdemos mais uma oportunidade. Porque, na verdade, é essa a sensação, a percepção que fica: um constante procrastinar, uma permanente dificuldade de ultrapassar o conjuntural e concentrar no estrutural, uma assertiva actuação em vez de uma contínua discussão e debate (como se tanto diz e repete... sempre o debate alargado e o consenso generalizado). E, acredita-se, uma absoluta necessidade. Porque “precisamos de dinheiro”, temos onde (bem) usar e gastar e, na realidade, não nos faltando talento e capacidade para tal conseguir com mérito e qualidade.
Acontece que, tantas vezes, parece que não queremos. Ou temos medo do passo em frente. E paramos, disfarçando, desviando, mas não avançando.
E, assim sendo, lembrando Manuel António Pina, fica a pergunta: “Para quê tudo isto?”

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