Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Parabéns Confiança

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Escreve quem sabe

2018-10-16 às 06h00

Margarida Pereira

Apesar dos dias de controvérsia que se têm vivido na cidade, o passado 12 de Outubro foi dia da Saboaria e Perfumaria Confiança soprar as suas velas, 124 para sermos mais exatos.
Em 12 Outubro de 1894, Braga singrava na era da industrialização e dava-se a conhecer ao mundo através dos mais famosos sabonetes. Desengane-se quem acreditava que esta seria mais uma fábrica, pois a Confiança destacava-se não só pelos seus produtos, mas também pela vertente humanista. Quantas fábricas, no dealbar do século XX, tinham uma creche para os filhos dos funcionários? Quantas tinham um anfiteatro dedicado às atividades lúdicas dos trabalhadores?

Com o passar dos anos, Braga foi apagando uma parte da sua história, deixando desaparecer os edifícios que preenchiam a vida industrial da cidade. Por esse motivo, consideramos os 124 anos da Fábrica Confiança uma vitória, pois se os edifícios da era industrial foram extintos, a Confiança surge como um último reduto da presença industrial na cidade e lutar contra o esquecimento que lhe está a ser imposto. Infelizmente, todos estes verbos devem ser conjugados no presente, pois, nos dias de hoje, aos olhos da Câmara Municipal de Braga, a Confiança já não é o que era e está a perder importância. Se o que aconteceu no passado com a Social Bracarense, a Fábrica Taxa e, um pouco mais recente, a famosa Pachancho foi um apagão da “Era Industrial Bracarense”, é simplesmente vergonhoso que, em pleno século XXI, se considere que valorizar parte tão importante da nossa história se resuma em manter 3 fachadas. Foi esta a teoria que vimos ser defendida pelo Prof. Miguel Bandeira na reunião do Executivo Municipal, onde o Vereador “valorizou” toda a importância da Fábrica Confiança confinando-a a “3 paredes”.

No entanto nem sempre foi assim, pois, em 2003, a opinião do Prof. Miguel Bandeira, na altura representando o Conselho Diretivo da ASPA, defendia que “o complexo arquitectónico da Fábrica Confiança apresenta-se como um valor patrimonial digno de superior classificação, que deverá ser legado às gerações futuras como memória exemplar da evolução da indústria na cidade de Braga, reunindo potencialidades para se constituir num equipamento cultural privilegiado da cidade…”. Ao que parece o Vereador do Urbanismo já não defende as mesmas ideias, uma vez que em 2003 condenava “não ter havido inteligência estratégica de reutilizar os edifícios aludidos…” e, por esse motivo “a Fábrica Confiança é redobradamente valiosa por constituir o ultimo reduto da cidade de Braga no domínio da arqueologia industrial.”. Será que o Prof. Miguel Bandeira, dirigente da ASPA, não tem forças para convencer o Prof. Miguel Bandeira, Vereador da Câmara Municipal, a desistir desta alienação?

A preservação e o aproveitamento em prol da comunidade do edifício da Saboaria e Perfumaria Confiança foi sempre defendida pela JovemCoop, o que se pode comprovar por todos os artigos escritos pelos representantes da associação ao longo dos anos, e que foram tão bem relembrados pelo Presidente da Câmara, Dr. Ricardo Rio, no decorrer da última Assembleia Municipal. O Sr. Presidente quis usar os artigos para tentar mostrar incoerência na forma de salvaguarda da Confiança, algo que não conseguiu fazer (mas ficamos com este apontamento do que um autarca é capaz de fazer para manipular o discurso e legitimar ações). É que, ao contrário dos atuais dirigentes da CMB, a JovemCoop nunca fez da Confiança uma bandeira política, talvez seja este o motivo que nunca nos fez mudar de opinião no que à valorização do imóvel diz respeito. Como comprovamos neste artigo, em 2003 o Prof. Miguel Bandeira assinou um parecer, ao qual a JovemCoop teve acesso, valorizando e defendendo a Fábrica Confiança. Em Maio de 2011, Firmino Marques, presidente da Junta de Freguesia de S. Victor, segundo o Correio do Minho “mostra-se triste pela incapacidade da Câmara Municipal de Braga agarrar a oportunidade de reconverter o espaço no âmbito das “Cidades Criativas”, como foi proposto pela Junta. Em 2013, nos diversos debates organizados pela JovemCoop e Braga+, Ricardo Rio, na altura candidato da oposição, defendia a aquisição do imóvel por parte do município. Em 2014, a actual CMB abre as portas da Confiança comemorando os seus 120 dedicando-lhe uma sessão do “À Descoberta de Braga” entre outras atividades, e valorizando os testemunhos de antigos operários.

Contudo, em 2018, a CMB que tanto valorizou, aceita e compactua com a venda do edifício por mais meio milhão de euros do preço da aquisição, e considera-se tão soberana que não aceita discussão sobre o assunto, não põe à consideração do Conselho Estratégico para a Reabilitação Urbana (conselho do qual fazemos parte e já discutimos projetos de alavancagem na reabilitação localizada), nem tão pouco um adiamento da decisão, não fosse isso despertar mais consciências e terem de prestar as verdadeiras motivações da venda.
Felizmente, há quem se preocupe e se mantenha íntegro no diálogo com a cidade, por esse motivo permitimo-nos dar os Parabéns pelos 124 anos de Confiança, pois essa, pelo menos em algumas pessoas, nunca se irá perder.

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