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Paradoxo democrático e “cidadania digital”

A saia comprida

Paradoxo democrático e “cidadania digital”

Ideias

2018-10-27 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

Há regiões, no Sul do Brasil, marcadas por uma forte influência italiana. A cultura europeia-italiana sente-se, notória e particularmente, em certas comunidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, independentemente de ela estar presente, transversalmente, em todo o Brasil. E não falo apenas de nomes italianos e de pizzas! Brasil e Itália têm, portanto, muitos pontos de contacto. Em certas regiões do país irmão, tais ligações suplantam mesmo os traços da lusitanidade brasileira. Itália e Brasil partilham uma espécie de latinidade mais tropical, construída e vivenciada por brasileiros de origem italiana, num ambiente não europeu, no contexto da multidiversidade e multiculturalidade brasileiras.

Por estes dias, o ambiente político naqueles dois países apresenta, também, semelhanças inquietantes. Na semana que antecede a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras, marcadas por uma notória influência populista e nativista, o improvável governo de coligação italiano (que equilibra e alberga, no executivo, os extremos partidários, quer da direita, quer da esquerda transalpinas) assumiu uma manifestação expressa do seu adn anti integração europeia e populista. Eclodiu um braço de ferro entre a Comissão Europeia e o referido governo italiano, a propósito da política orçamental deste. Na verdade, a Comissão não aceitou a proposta de Orçamento do governo italiano e deu o prazo de três semanas para que a Itália o corrigisse, em conformidade com as regras gerais do denominado “Pacto Fiscal Europeu”. Mas, não nos interessa, por ora, focar a questão técnica – financeira em disputa. Independentemente do caso litigioso em si, sobressai, desde logo, o tipo de reação e de comportamento político hostil e, de certo modo, tonitruante, do governo transalpino. Matteo Salvini rejeitou, de imediato e em tom sobranceiro, não só qualquer recuo (naturalmente), mas também qualquer tentativa de negociação/aproximação aos argumentos contrários: “nem que a Comissão escreva doze cartas (….) não vamos voltar atrás.”. E, na linha de Trump, acrescentou, também, “os italianos em primeiro lugar!” (“America first”, lembram- -se?).

Depois de 2016 e da inesperada, para a imprensa, eleição de Trump, retorna agora e num contexto de expectativa inquietante de uma possível crise política europeia, o debate sobre o populismo. Em rigor, sobre o paradoxo democrático que, recorrentemente, se faz sentir: Como é que o exercício do voto livre é um instrumento de aniquilação de instituições fundamentais da nossa sociedade democrática? Há algumas explicações convencio- nais e habitualmente aceites e repetidas acriticamente. No caso brasileiro, porém, a questão da segurança poderá ser, realmente, um fator decisivo e bem real. De pouco adiante propugnar-se por uma vivência política democrática se, desde logo, pode sentir-se em risco, literalmente, a própria vida. Além disso, ambos os candidatos (e não só Bolsonaro) representam o que de mau e básico existe na política brasileira: por um lado, o medo e uma incompreensão sobre alguns aspetos destruturados da sociedade brasileira e, por outro, a corrupção e a tentativa desesperada de manutenção do poder. Mas, na realidade, uma das mais estafadas e precipitadas justificações deste estado de coisas (uma espécie de slogan usado para tentar explicar facilmente tudo) é a ideia de que as redes sociais – canal produtor e distribuidor das denominadas “fake news” – provoca uma erosão e uma manipulação do pensamento dos cidadãos comuns! Ora, este tipo de justificação não só parte do princípio errado de que apenas “os outros”, apenas os “candidatos maus” usam o mundo digital, como parece ignorar que, hoje em dia, cada vez mais, vive-se digitalmente, com redes e “timings” de decisão que impossibilitam o tempo para a reflexão.

A literacia (nomeadamente, a política) resulta, cada vez mais, de manchetes rápidas e “flashes” emotivos. Se queremos mais participação dos cidadãos, ela aí está, servida pela denominada “cidadania digital” em que qualquer um de nós pode exprimir a sua opinião, no seu círculo de contactos digitais, sem a intermediação institucional ou jornalística que, numa outra perspetiva, afunila e restringe essa reclamada participação democrática e direta do cidadão! O mundo é, cada vez mais, assim e isso implica uma nova forma de pensar e de atuar politicamente. A política da era da “cidadania digital” é diferente; exige, por conseguinte, respostas e uma comunicação, também elas, diferentes.

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