Correio do Minho

Braga, sábado

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Paradoxos

E no fim poderá ganhar (sempre) a Europa!

Ideias

2012-11-18 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

São tempos estranhos estes que atravessamos. Tempos em que nos apetece sair à rua e gritar o nosso descontentamento, mas nesses espaços estão também manifestantes que apenas querem incendiar pontos de violência. Tempos em que nos apetece suspender o trabalho e gritar com toda a força que estamos em greve contra todos os incompetentes que nos governam nas mais variadas instituições. Tempos em que certas profissões de prestígio estão em crise enquanto outros sem qualquer notoriedade ganham novo fôlego.

1 - Gosto particularmente daquela fotografia de uma rapariga a abraçar um polícia em frente aos escritórios do FMI durante a manifestação do passado 15 de Setembro. Não gosto (mesmo nada) das imagens televisivas da passada quarta feira filmadas em frente à Assembleia da República e nas zonas envolventes. Porque ultrapassam muito o descontentamento que legitimamente está a sufocar os portugueses, reflectindo antes uma violência gratuita que, com muita facilidade, se percebe que resulta de grupos organizados. Ontem, em manchete, o “Expresso” noticiava que o ministro da Administração Interna deu autorização para “a carga policial”. A justificação vem no texto: havia engenhos explosivos entre os manifestantes. No “Público”, e sob o título “PSP vigia radicais com cadastro e ligados a claques”, escrevia-se que há grupos radicais que vêm tomando conta das manifestações de rua que se multiplicam um pouco por todo lado. Eis aqui uma matéria hiper-sensível: por um lado, todos temos o direito à manifestação livre no espaço público; por outro, propagam-se nesses lugares violentos agitadores, deveras ágeis no momento da fuga à polícia, o que significa que as forças policiais facilmente poderão agir sobre indefesos manifestantes. Como também se escrevia em editorial ontem no “Público”, há que “ter uma enorme delicadeza na gestão deste processo”.

2- Confesso que o título do “Expresso” me surpreendeu: “80 por cento dos portugueses nunca fizeram greve”. O advérbio de negação aqui é deveras significativo: a maioria de nós nunca assumiu o papel de grevista. Este retrato é tanto mais significativo quanto os media parecem contrariar estes dados, dando-nos, em dias de greve, a imagem de um país imobilizado, pretendendo assim fazer passar de forma ruidosa e algo simbólica o seu mais duro protesto. Segundo os estudos da especialidade, Portugal estará nos antípodas de países como Espanha, Grécia ou Itália onde a respectiva população não hesita em recorrer à greve para fazer valer as suas posições. Apesar de não engrossarmos os números daqueles que aderem prontamente às greves ou que se sindicalizam, fazemos uma apreciação muito positiva da acção dos sindicatos que ecoam no espaço público aquilo que são as reivindicações individuais e colectivas. O problema começa quando a rua se enche de manifestantes que lutam por melhores condições laborais e de grupos organizados que estão ali para multiplicar focos de grande violência que prontamente são ampliados pelos media, que nem sempre sabem distinguir entre retratos da realidade e manipulação do real.

3- Andamos descontentes. Com razão. Mas neste tempo de grande insatisfação, há algumas profissões que ganham novas oportunidades. Em Lisboa, um “hospital de camisas” (assim é o título da reportagem publicada ontem no jornal “i”) ganhou novos clientes. Fala-se aqui de uma loja de arranjos de roupa (uma “loja de cuidados intensivos”, na expressão do autor deste texto) que, em tempos de austeridade, viu o seu negócio revitalizado, porque há muitos clientes que procuram virar colarinhos e punhos de camisas, fatos e até… cuecas. Quando se trata de poupar, poupa-se em toda a linha. E eis como João Aguiar, que há muitos anos resolveu deixar Braga para tentar na capital um mais risonho destino, viu recentemente multiplicar os seus clientes em Poço de Borratém. Talvez as práticas profissionais deste homem em final de carreira não mudem radicalmente, nem mesmo o velho hábito de não cobrar as reparações que faz ao Presidente da sua Junta de Freguesia que gentilmente o deixa estacionar num dos dois lugares reservados à Junta, mas uma coisa é certa: nunca como agora o seu negócio correu tão bem. Paradoxos dos tempos actuais.

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