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Paris e um não-sei-quê de abril, com a liberdade ao fundo

A resolução de conflitos de consumo através da Internet (RLL)

Paris e um não-sei-quê de abril, com a liberdade ao fundo

Ideias

2021-04-19 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Foi a 10 de novembro de 1970. Sérgio Godinho tinha 25 anos e terminava com “Maré Alta” a sua atuação no concerto "Chanson de Combat Portugaise", que se realizava na Maison de la Mutualité, em Paris. Com ele estavam Tino Flores, Luís Cília e José Mário Branco. Andavam todos na casa dos vinte anos. Tino Flores tinha 23, Luís Cília 27 e José Mário Branco 28.
Nesta festa da canção portuguesa, canção de combate e de exílio, fechou o concerto Zeca Afonso. Tinha 41 anos e era já uma referência para esta geração de jovens cantores, exilados em França. No ar ecoava um já não-sei-quê de abril, que todavia apenas seria a madrugada que todos esperavam, “o dia inicial inteiro e limpo”, do poema de Sophia, quatro anos mais tarde. Mas Sérgio Godinho cantava, em Paris: “a liberdade está a passar por aqui. Maré alta! Maré alta! Maré alta”!

Abriu o concerto José Mário Branco com a “Ronda do Soldadinho”. “Um e dois e três Era uma vez Um soldadinho De chumbo não era Como era O soldadinho”. “Soldadinho lindo, Era o rei Da nossa terra, Fugiu para França P'ra não ir Matar na guerra”.
A denúncia da Guerra colonial e o combate ao regime salazarista eram os temas desta geração de cantores. Depois da canção de abertura, por José Mário Branco, atuou Sérgio Godinho. Além de “Maré alta”, e entre outras canções, cantou “O Charlatão”. “Na travessa dos defuntos Charlatões e charlatonas Discutem dos seus assuntos Repartem-se em quatro zonas Instalados em poltronas”. “Entre a rua e o país Vai o passo de um anão Vai o rei que ninguém quis Vai o tiro dum canhão E o trono é do charlatão”.

Seguiu-se Tino Flores. As suas canções prolongavam um compromisso político marxista-leninista, de filiação maoísta. No exílio em França, Tino Flores era um ativista político, que intervinha junto de comunidades de emigrantes portugueses, procurando consciencializá-las sobre a necessidade da Revolução. E o seu reportório de canções tinha esta marca, assumidamente política e panfletária. E em termos musicais afastava-se da balada popularizada por Zeca Afonso, retomando toadas populares tradicionais.
Num ritmo com ressonâncias a malhão-malhão e com versos mal-amanhados, Tino Flores começou a sua atuação cantando o seguinte: “Se tu não sabes Tens que aprender Não te ensinaram Vou-te dizer Se há pobres e há ricos Esta coisa não está bem Os ricos só comandam E são os pobres que trabalham”. E continua noutra canção: “Esta sociedade capitalista tem de desaparecer E se alguém não gosta quero lá saber”, “Pela ciência marxista Eu lutarei até morrer E se alguém não gosta Quero lá saber”.

José Mário Branco, que tinha feito a abertura do concerto, cantou outras canções, concluindo a sua atuação com “Queixa das jovens almas censuradas”, um poema de Natália Correia. “Dão-nos a capa do evangelho E um pacote de tabaco Dão-nos um pente e um espelho Pra pentearmos um macaco”. “Dão-nos um nome e um jornal Um avião e um violino Mas não nos dão o animal Que espeta os cornos no destino”.
O acompanhamento foi feito com guitarra clássica, em praticamente todas as canções. Tino Flores, com canções ritmadas ao gosto popular, na base do malhão e da chula, também utilizou a harmónica. Esta festa de canções, de combate e de exílio, mostra-nos o génio de José Mário Branco como extraordinário compositor, e também de Sérgio Godinho como incomparável letrista, a um tempo sarcástico, verrinoso e visionário.

Mas é Luís Cília quem verdadeiramente se destaca. Conhecera em 1962 Daniel Filipe, poeta nascido em Cabo Verde, tendo sido por sua influência que passou a musicar poesia. Já em França, estudou guitarra clássica e composição. As canções de Luís Cília são sobretudo baladas, esplendidamente cantadas e acompanhadas à guitarra clássica. Abriu a sua atuação com a canção “Exílio”, musicando um poema de Manuel Alegre: “Venho dizer-vos que não tenho medo A verdade é mais forte do que as algemas Venho dizer-vos que não há degredo Quando se traz a alma cheia de poemas”. Cantou, depois, “Há-de haver…”, com versos de José Saramago: “Poesia tardia que não chegas A dizer nem metade do que sabes: Não calas, quando podes, nem renegas Este corpo de acaso em que não cabes". Também cantou, do poeta João Apolinário, “É preciso avisar”. “É preciso avisar toda a gente Dar notícia informar prevenir Que por cada flor estrangulada Há milhões de sementes a florir”. E concluiu a sua atuação com o poema “Sou barco”, do historiador e poeta, António Borges Coelho. Este poema havia sido composta no Forte de Peniche, junto ao mar, quando Borges Coelho, que era membro do Partido Comunista, aí esteve encarcerado. “Sou barco abandonado Na praia ao pé do mar E os pensamentos são Meninos a brincar”. “Ó mar, venha a onda forte Por cima do areal E os barcos abandonados Voltarão a Portugal”.

Zeca Afonso encerrou o concerto. Cantou “Na rua António Maria”, uma canção que desmascarava a “Primavera marcelista” e a polícia política da DGS (Direção Geral de Segurança), como maquilhagens, tanto do salazarismo como da PIDE. “Aldeia da roupa branca Suja de já não corar O Zé Povo foi pra França Não se cansa de esperar”. “Mas eles Conceição vão Lamber as botas Comer à mão Dum novo Pina Manique Com outra lábia Com outro tique”. Seguiram-se duas canções de inspiração popular: “Ao passar em Carapeços” e “Natal dos Simples”. E cantou, ainda, “Os vampiros”. “No céu cinzento sob o astro mudo Batendo as asas pela noite calada Vêm em bandos com pés veludo Chupar o sangue fresco da manada”. “Eles comem tudo, eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada”.

Quando Zeca Afonso se preparava para uma última canção, com que o concerto iria ser encerrado, o barulho na sala subiu de tom e isso embaraçou-o: “Ou on chante, ou on parle” [Cantamos, ou falamos]. Desafiou, então, os manifestantes a subirem ao palco para apresentarem as suas razões. Ao microfone, alguém colocou a seguinte questão: “Eu queria saber se as canções que ouvimos aqui são as canções do povo. Exceto algumas do Tino Flores, não vemos aqui os problemas dos camponeses e dos operários”. Zeca Afonso interpelou-o: “Quantas vezes ouviste o povo? Diz lá, concretamente…”
Faltavam ainda quatro longos anos para emergirmos, finalmente, “da noite e do silêncio”. Mas nestas canções de exílio correm já as águas da liberdade, sem dúvida desencontradas e em convulsão. Numa levada em que se misturavam sonhos de socialismo, comunismo e maoísmo, vieram a desaguar todas no 25 de abril de 1974, ressoando a partir daí, em turbilhão, pelas ruas de um país inteiro.

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