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Paris não foi uma festa

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Paris não foi uma festa

Voz aos Escritores

2020-11-13 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Naquele 13 de Novembro de 2015 Paris não foi uma festa, não foi a cidade dos enamorados, não foi a capital inspiradora de poetas, pintores, músicos, compositores, actores e escultores. Naquele 13 de Novembro de 2015 Paris foi o terror. Se festim foi, somente a Morte se alegrou e de sangue derramado se embebedou. Se festejo foi, somente o Ódio regozijou. Avisto o reluzir das águas do Sena no clarear de um novo dia, contemplo as espadas da luz que rasgam a bruma matinal como a mim me golpearam naquele 13 de Novembro de 2015, o dia que a cada despertar relembro, o dia que hoje mais recordo. Vejo-te aproximar, meu amor, os cabelos escuros varridos pelo vento frio, o sorriso que me atiravas, as mãos de pianista acanhadas nos bolsos do sobretudo que libertavas para me abraçares. Com essas mãos pianavas o meu rosto rubro de emoção, retinhas os dedos esguios nos meus lábios, os lábios por ti beijados. Em ti bebia a essência da vida. A vida que te ceifaram nesse 13 de Novembro de 2015. Teimaste em ir ao concerto no Bataclan, querias ouvir os norte-americanos Eagles of Death Metal, um pronúncio agoirento, águias da Morte, um arrepio que o meu riso esconjurou, nós, músicos clássicos, tu pianista, eu violoncelista, num concerto de rock pareceu-me uma ironia, tu argumentaste a tua paixão pela Música, todos os estilos de Música, eu segui-te, queria estar contigo ao som de qualquer Música, tu eras a minha Música, tu és a minha Música, a Música que hoje soa mais alto, aos Anjos me eleva, para mais perto de ti me leva. Naquele 13 de Novembro de 2015 a assistência vibrava, a sala esfuziava, a plateia aplaudia os Eagles of Death Metal, tu dançavas, o teu corpo balançava, ritmado, eu admirava-te, apreciava-te os gestos belíssimos de pianista bailarino, um corpo entranhado de musicalidade, um corpo fadado para a Arte, todas as artes em ti floresciam, um corpo que era meu quando no amor nos fundíamos, um corpo que vi tombar, inerte, de rompante, sobre os meus pés paralisados. Os tiros das metralhadoras calaram a Música, os gritos emudeceram os acordes, as balas trespassavam os corpos, a sala um vale dos caídos num requiem da morte. Os terroristas bradavam, Allah Akbar, Allah Akbar, Deus é grande, Deus é grande. Dois tiros imobilizaram-me o braço direito. Nos teus lábios não senti o sopro da vida. Não sei como tive forças para rastejar. Não sei como consegui esconder-me atrás de uma coluna. Não sei como não fechei os olhos ao cenário apocalíptico, Homens e Mulheres aninhados, Homens e Mulheres despedaçados, rios de sangue a inundarem o vale dos caídos, vale de lágrimas infindas, vale do tempo estagnado, duas horas, trinta e oito minutos e quarenta e quatro segundos, o tempo da razia do Bataclan, o tempo da eternidade. O primeiro dos terroristas que se fez explodir num estrondo de pavor aumentou a carnificina, Homens e Mulheres esventrados, Homens e Mulheres decapitados, a cacofonia agónica dos gemidos, dos bramidos de auxílio dos feridos, dos mandos vociferados dos terroristas, dos estampidos dos tiros, das ordens estentóreas dos polícias, a sinfonia mefistofélica na sala de concertos do Bataclan. Fechei os olhos e rezei. Deus é grande no amor, Deus não é grande no terror. Que Deus quer tamanha maldade, que Deus espalha tamanha atrocidade, porquê tanto ódio, porquê tanto horror? Fechei os olhos e desmaiei. Acordei numa maca, embrulhavam-me, empurravam-me. Nas ruas de Paris prosseguia a terrífica sinfonia, sirenes das ambulâncias, gritos, gritos, gritos, apitos da polícia, ecos de tiros, gente ferida, gente estendida, gente esvaída. As dores no ombro e no braço enublavam-me, esbatiam-me a visão, apuravam-me a audição, a voz do paramédico pedia-me calma, prometia-me salvação. A dor da tua perda era a maior das dores. Amputaram-me um órgão vital, amputaram-me de ti, meu amor. Naquele 13 de Novembro de 2015 supliquei à Morte que me levasse, pedi a Deus que me libertasse. Deus e a Morte amoucaram-se às minhas preces. Passaram cinco anos como se tivessem voado cinco semanas, cinco dias, cinco minutos, cinco segundos, os segundos que demoraste a despedir-te de mim. O tempo é uma falácia, engana-nos com a saudade. O tempo não cura, apenas anestesia. Passaram cinco anos e não voltei a tocar. O Ódio dos terroristas e a Morte amputaram-me de ti e do meu violino. O meu braço estropiado não consegue vibrá-lo, que ironia, meu amor, uma violinista manietada, sou uma ave de coração ferido e de asa cortada. Passaram cinco anos e apesar da dor não consigo odiar. A generosidade de Deus livrou-me desse sentir. Uso as palavras dirigidas aos terroristas numa carta que percorreu as redes sociais escrita por Antoine Leiris, um jornalista do France Blue que perdeu a Mulher de 35 anos no Bataclan, os terroristas que condenaram à orfandade materna o filho de Antoine, o pequeno Melvil de 17 meses: “Vocês não terão o meu ódio. Sei que ela nos acompanhará a cada dia e que nos vamos reencontrar no Paraíso das almas livres no qual vocês nunca entrarão”. Também te reencontrarei nesse lugar, meu amor, um lugar onde a Música é uma melodia de paz e harmonia. Hoje, 13 de Novembro, é o Dia Internacional da Bondade. Outra ironia da vida ou outro sinal de Deus, N´est-ce pas, mon amour?

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