Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Parte do problema

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Ideias

2016-11-08 às 06h00

Jorge Cruz

“O presidente (da Federação Distrital de Braga do PS) Joaquim Barreto sabe das decisões do partido e não se percebe porque alinhou nesta tentativa de perturbar e confundir os militantes”. Este, o lamento amargurado de Miguel Costa Gomes quando falou este fim-de-semana ao Correio do Minho sobre o “alinhamento claro” da Federação Distrital de Braga do PS com as posições da concelhia local, contrárias à “doutrina” nacional.
Em causa está, como se percebe, o conturbado processo de escolha do candidato socialista à Câmara Municipal de Barcelos, um processo com um grau excessivamente intenso de controvérsia que, aliás, se começa a estender a outros concelhos do distrito.

Sabe-se que a aplicação, como princípio, da regra da recandidatura dos presidentes das autarquias nas próximas eleições autárquicas, obviamente caso reúnam as condições legais, foi defendida pelo secretário-geral do PS na recente reunião da Comissão Nacional do partido. A Comissão Permanente, por seu turno, também já se havia pronunciado o mês passado no mesmo sentido, dando aliás sequência e cumprimento a orientações da reunião magna dos socialistas. Com estas posições políticas, o PS visa precisamente impedir tentativas de derrube dos autarcas que se encontram em funções. Tentativas que, como os mais atentos não ignoram, ganham forma através de “golpes do aparelho”, quer em simples sessões partidárias mais ou menos participadas, quer nas concelhias, quer ainda nas distritais.

As regras estão, pois, bem definidas, não deixando quaisquer margens para dúvidas. Desse ponto de vista, parece claro que a questão estaria arrumada e, consequentemente, que o PS de Barcelos já estaria a apoiar a recandidatura de Miguel Costa Gomes. Não é isso, contudo, que se pode inferir das palavras do autarca barcelense: “só vejo uma solução: o secretário-geral vir a Barcelos e dizer claramente que acabou. (…) A minha vontade é continuar, mas o partido terá que ultrapassar esta questão. Se não for ultrapassável tomarei a minha decisão”.
Que o ambiente entre os socialistas barcelenses é pouco saudável, diria mesmo de cortar à faca, em alguns momentos, não constitui novidade para ninguém. A última reunião da Assembleia Municipal é disso um claro exemplo…

Acontece que problemas deste tipo não são exclusivo de Barcelos já que têm surgido notícias de algumas rebeliões noutros concelhos do distrito de Braga sem que se assista a qualquer tentativa de apaziguamento por parte da Federação Distrital, bem pelo contrário. Aliás, algumas dessas insurreições até parecem ser mais ou menos amparadas pelo próprio presidente federativo.
“Essa norma (de recandidatura dos atuais presidentes do PS) tem que ter exceções, porque temos que respeitar a vontade das populações e das concelhias”, disse há tempos à revista Visão Joaquim Barreto, num claro desafio à direcção nacional.

Como que em resposta a esta diatribe do presidente federativo, o Secretário Nacional do PS para a Organização disse ao jornal Observador que “esta direção nacional do PS foi aprovada no último congresso” e que na moção de orientação estratégica então aprovada “já se sabia que o espírito seria este”. Hugo Pires acrescentou que “será dada autonomia e liberdade às estruturas”, mas advertiu que “a direção nacional não abdicará desta linha”. “O critério é rígido” e “a oposição política terá de se entender”, concluiu.

Acredito que a direcção nacional do PS já percebeu que hoje em dia Joaquim Barreto já não é parte da solução, bem pelo contrário, será parte do problema. A inflexibilidade da posição oficial do partido, que retira todo o espaço de manobra ao presidente da Federação, recoloca a questão no seu devido lugar e representa o puxão de orelhas que o dirigente distrital há muito estava a pedir.

Creio que ainda há tempo para arrepiar caminho, ou seja, para evitar o desastre eleitoral que se adivinha, se Barreto mantiver a postura que vem seguindo. Mas o novo rumo, o trilho a seguir, com ou sem Barreto, deverá respeitar um quesito primordial, uma questão que, neste como em tantos outros casos, tem a ver com prioridades. Ou seja, com a adopção de uma ordem de precedência que coloque no topo, em primeiro lugar das preocupações, os interesses das populações. Só depois as conveniências do partido. E jamais os interesses pessoais. Essa, sim, deveria ser, tem de ser, a par com a competência e a honestidade, a regra inabalável para a constituição de qualquer candidatura.

Ora, como se sabe, nem sempre assim acontece. Daí o desencanto do presidente da Câmara Municipal de Barcelos e de tantos outros militantes socialistas. Mas será injusto tomar a árvore pela floresta. Adivinha-se, mais do que isso, é conhecida a vontade de alguns antigos autarcas regressarem às presidências que já ocuparam. Sabe-se que actuais autarcas têm a ambição de substituir aqueles que encabeçaram as listas em que foram eleitos. Mas acredito que no momento próprio os socialistas saberão dar a resposta adequada. Com a opção pela solução que privilegie as tais prioridades e, consequentemente, os interesses das populações. Sim, porque os tempos mudaram e acredito que hoje nem todos embarcam nas conversas, com promessas à mistura, com que os caciques costumam abordar estas questões.

O cacique é, como se sabe, não apenas uma espécie com o seu prazo de vida política completamente caducado mas que hoje em dia, mais de 42 anos após o movimento libertador de Abril, se encontra em vias de extinção. Quero acreditar que os poucos que ainda restam se vão autoextinguir, não necessitando de arrastar os seus partidos para desastres eleitorais que eles não merecem.

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